O Assalto
Nota do Autor
O Assalto é uma obra de ficção e deve ser lido apenas como tal. Os nomes, personagens, lugares e incidentes descritos nesta história são produto da imaginação do autor ou foram ficcionados. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, negócios, empresas, acontecimentos ou locais verdadeiros é pura coincidência.
Existe de facto uma Igreja de San Sebastiano no sestiere de Dorsoduro — foi consagrada em 1562 e é considerada uma das cinco grandes igrejas da peste em Veneza — e o retábulo principal, A Assunção da Virgem, surge fielmente descrito. Quem visitar a cidade procurará em vão a empresa de restauro de Francesco Tiepolo, tal como também não encontrará um tal rabi Zolli, no antigo gueto judeu. Há vários pequenos prédios de apartamentos, em pedra calcária, na Rua Narkiss, em Jerusalém, mas tanto quanto sei não vive por lá ninguém chamado Gabriel Allon. O quartel-general dos serviços secretos israelitas já não fica na Avenida Rei Saul, em Telavive. Escolhi manter lá o quartel-general dos meus serviços secretos ficcionados em parte por sempre ter gostado do nome da rua.
Existem muitos ótimos antiquários e galerias de arte na Rue de Miromesnil, em Paris, mas as Antiquités Scientifiques não são um deles. Maurice Durand já apareceu em três romances de Gabriel Allon, mas continua a não existir. Tal como Pascal Rameau, o cúmplice oriundo do submundo criminoso de Marselha. O quartel-general da Divisão de Defesa do Património Cultural, dos Carabinieri, mais conhecida como Brigada de Arte, fica realmente num palazzo elegante na Piazza di Sant’Ignazio, em Roma. Mas o comandante é o competente Mariano Mossa e não Cesare Ferrari, só com um olho. As minhas mais profundas desculpas ao Rijksmuseum Vincent van Gogh de Amesterdão por me ter apropriado dos Girassóis, parte da sua esplendorosa coleção, mas às vezes a melhor maneira de encontrar uma obra-prima roubada é roubar outra.
Não há nenhuma Igreja de San Giovanni Evangelista em Brienno, na Itália. Por isso mesmo, a gloriosa Natividade de Caravaggio, roubada do Oratorio di San Lorenzo de Palermo, em outubro de 1969, não podia ter sido descoberta exposta sobre o altar, disfarçada de uma crucificação à maneira de Guido Reni. O relato da vida turbulenta de Caravaggio que aparece em O Assalto é completamente factual, embora haja quem possa discordar das minhas opções em relação às datas e aos pormenores de determinados acontecimentos, já que ocorreram há quatro séculos e se encontram, por isso, abertos à interpretação. Ainda hoje, as circunstâncias exatas da morte de Caravaggio continuam envoltas em mistério. Tal como o paradeiro da Natividade. A cada ano que passa, as probabilidades de se descobrir a grande tela intacta tornam-se mais remotas. E não há forma de minimizar o impacte dessa perda. Caravaggio viveu apenas trinta e nove anos e deixou menos de cem obras que lhe podem ser atribuídas com segurança. O desaparecimento de um só quadro bastaria para abrir um buraco impossível de preencher no cânone ocidental.
Não existe nenhuma empresa registada no Luxemburgo que dê pelo nome de LXR Investments, nem um banco privado em Linz que seja conhecido como Bank Weber AG. Os bancos austríacos já foram dos mais sigilosos do mundo — mais sigilosos até do que os bancos suíços. Mas, em maio de 2013, pressionados pela União Europeia e pelos Estados Unidos, os bancos austríacos aceitaram começar a revelar informações dos depositantes às autoridades fiscais dos outros países. Para o bem ou para o mal, as instituições como o Bank Weber — bancos detidos por famílias, ao estilo de boutiques e direcionados para os muito ricos — estão a transformar-se rapidamente numa raça em extinção. No momento em que escrevo estas linhas, o registo onde constam os bancos privados suíços já tinha minguado para apenas 148 instituições, prevendo-se que as fusões e os cortes adicionais venham reduzir esse número ainda mais no futuro. Os gnomos parecem ter claramente os dias contados, conforme os governos europeus e americano encetam medidas cada vez mais agressivas no combate à evasão fiscal.
Houve realmente um massacre na cidade síria de Hama, em 1982, e, recorrendo a variadíssimas fontes, tentei representar esse horror fielmente. O homem que ordenou a destruição da cidade, e o assassínio de mais de vinte mil habitantes, não foi o ditador sem nome que surge caracterizado em O Assalto. Chamava-se Hafez al-Assad, presidente da Síria entre 1970 e 2000, ano em que morreu, tendo o filho do meio, Bashar, educado em Londres, assumido o poder. Alguns peritos no Médio Oriente tomaram Bashar por reformista. Mas, em março de 2011, quando a suposta Primavera Árabe chegou por fim à Síria, o presidente reagiu com selvajaria, incluindo o uso de gás tóxico em mulheres e crianças. Já morreram mais de 150 000 pessoas na guerra civil síria e outros dois milhões ficaram desalojados ou fugiram para os países vizinhos, sobretudo para o Líbano, a Jordânia e a Turquia. Espera-se que o número de refugiados sírios ultrapasse em breve os quatro milhões, o que corresponderia assim à maior população de refugiados do mundo. É esse o legado de quatro décadas e meia sob o domínio da família Assad. Se a carnificina e o êxodo prosseguirem a bom ritmo, os Assad poderão um dia vir a dominar uma terra sem pessoas.
Mas por que razão continuam os Assad a lutar quando a maioria do povo quer declaradamente livrar-se deles? E porquê fazê-lo com um desrespeito tão desumano pelas normas civilizadas? Só poderá ter com certeza qualquer coisa que ver com dinheiro. «É um empreendimento familiar típico», disse à CNBC, em setembro de 2013, Jules Kroll, investigador empresarial internacional e especialista em recuperação de ativos. «Só que o empreendimento familiar é um país.» As estimativas já publicadas da riqueza dos Assad variam desmesuradamente. Segundo consta, Bashar vale mais de mil milhões de dólares, embora os peritos contabilizem a fortuna global da família em cerca de 25 mil milhões. O caso do Egito é ilustrativo. Diz-se que o antigo presidente Hosni Mubarak, agraciado durante mais de trinta anos com a generosidade dos contribuintes americanos, adquiriu uma fortuna de possivelmente 70 mil milhões de dólares — e isto num país em que o cidadão médio subsiste com apenas oito dólares por dia.
Os Estados Unidos e os aliados europeus congelaram uma fração minúscula dos ativos do regime sírio, mas milhares de milhões de dólares continuam cuidadosamente escondidos. No momento em que escrevo estas linhas, caçadores profissionais de ativos andam atarefados à procura desse dinheiro. Tal como Steven Perles, um advogado de Washington, DC, que representa vítimas do terrorismo patrocinado pela Síria. Os peritos são da opinião de que, para verem os esforços chegar a bom porto, esses caçadores de ativos vão precisar provavelmente da ajuda de alguém que faça parte da Assad Incorporated. Talvez essa pessoa tenha comprado uma participação num pequeno banco privado austríaco. E talvez haja uma jovem corajosa, uma filha de Hama, a vigiar-lhe cada passo.
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Daniel Silva
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