O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 51 de 65

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O Assalto

49. Attersee, Áustria

49

ATTERSEE, ÁUSTRIA

 

Mais tarde, nessa noite, estalou outra guerra civil no Médio Oriente. Foi mais pequena do que as outras e, felizmente, não houve bombardeamentos nem derramamento de sangue, pois tratou-se de uma guerra de palavras, travada entre pessoas da mesma fé, filhas do mesmo Deus. Mesmo assim, as linhas da batalha eram rígidas e estavam claramente desenhadas. Um lado queria dar a coisa por terminada e arrecadar os proveitos enquanto ainda estavam a jogar com o dinheiro da casa. O outro queria voltar a lançar os dados, mais uma espreitadela ao interior da Evil Incorporated. Para o bem ou para o mal, o cabecilha dessa fação era Gabriel Allon, o futuro chefe dos serviços secretos de Israel. E, por isso, depois de uma discussão que durou a maior parte da noite, Gabriel embarcou no voo 353 da El Al para Munique e, ao princípio da tarde, estava outra vez na sala de estar da casa segura no Attersee, vestido como um anónimo cobrador de impostos de Berlim. Um computador portátil estava aberto em cima da mesa de apoio, com os altifalantes a transmitirem o som inconfundível de Waleed al-Siddiqi a falar árabe. Baixou o som muito ligeiramente quando Jihan e Dina entraram.

— Jihan! — exclamou, como se não estivesse à espera de a ver tão cedo. — Bem-vinda a casa. É ótimo vê-la com tão bom aspeto. Obteve um êxito que ultrapassou tudo o que teríamos imaginado. A sério. Nunca lhe poderemos agradecer o suficiente por tudo o que fez.

Fez todo esse discurso no seu alemão com forte sotaque de Berlim, sempre com o sorriso vazio de um hoteleiro. Jihan olhou para Dina e depois para o computador portátil.

— Foi por isso que me trouxeram cá outra vez? — perguntou por fim. — Porque me queriam agradecer?

— Não — foi tudo o que ele respondeu.

— Então porque cá estou?

— Está cá — respondeu ele, aproximando-se dela vagarosamente — por causa do telefonema que recebeu às oito e cinquenta e sete de ontem à noite.

Inclinou a cabeça para o lado de modo interrogador.

— Lembra-se do telefonema que recebeu a noite passada, não é verdade?

— Foi impossível de esquecer.

— Nós também achamos a mesma coisa.

Ainda tinha a cabeça inclinada para o lado, embora agora a mão direita estivesse a agarrar o queixo pensativamente.

— O sentido de oportunidade da chamada foi extraordinário, no mínimo. Se tivesse chegado poucos minutos depois, a Jihan nunca a teria recebido.

— E porque não?

— Porque se teria ido embora. E o mesmo teria acontecido a uma grande quantidade de dinheiro — acrescentou Gabriel rapidamente. — Oito vírgula dois mil milhões de dólares, para ser exato. Tudo por causa do trabalho corajoso que a Jihan fez.

— E porque não ficaram com eles?

— Era muito tentador — respondeu ele. — Mas, se o tivéssemos feito, teria sido impossível considerar sequer a oportunidade com que o senhor Al-Siddiqi nos presenteou.

— Oportunidade?

— Estava a ouvir as coisas que ele lhe disse a noite passada?

— Tentei não o fazer.

Gabriel pareceu verdadeiramente perplexo com a resposta dela.

— Porquê?

— Porque já não consigo suportar o som da voz dele.

Fez uma pausa e depois acrescentou:

— É-me completamente impossível voltar a entrar pela porta daquele banco. Por favor, façam o dinheiro desaparecer. E depois façam-me desaparecer também.

— Vamos ouvir a gravação do telefonema juntos, está bem? E se continuar a achar o mesmo, saímos da Áustria hoje à tarde, nós todos, e nunca mais voltamos.

— Não fiz as malas.

— E não precisa de fazer. Nós encarregamo-nos de tudo.

— E para onde estão a pensar levar-me?

— Para um sítio seguro. Um sítio onde ninguém a conseguirá encontrar.

— Onde? — voltou a perguntar.

Gabriel não lhe deu qualquer resposta a não ser sentar-se em frente ao computador. Com um clique do rato, silenciou a voz de Waleed al-Siddiqi. Depois, com outro clique, abriu um ficheiro áudio intitulado INTERCEÇÃO 238. Eram 20h57 da noite anterior. Jihan estava sozinha no apartamento, cantarolando baixinho para esconder o medo. E o telefone começou a tocar.

 

Tocou quatro vezes antes de ela atender e quando o fez parecia ligeiramente ofegante.

— Está?

— Jihan?

— Senhor Al-Siddiqi?

— Desculpe estar a telefonar-lhe tão tarde. Apanho-a numa má altura?

— Não, de maneira nenhuma.

— Há algum problema?

— Não, porquê?

— Parece aborrecida com qualquer coisa.

— Tive de correr para atender, mais nada.

— Tem a certeza? Tem a certeza de que não há nenhum problema?

Gabriel carregou no botão de PAUSE.

— Ele está sempre assim tão preocupado com o seu bem-estar?

— É uma obsessão recente dele.

— E porque deixou o telefone tocar tantas vezes?

— Porque quando vi quem estava a ligar, não quis atender.

— Estava com medo?

— Para onde me vão levar?

Gabriel carregou no PLAY.

— Estou ótima, senhor Al-Siddiqi. Em que lhe posso ser útil?

— Tenho uma coisa importante para discutir consigo.

— Claro, senhor Al-Siddiqi.

— Seria possível passar pelo seu apartamento?

— É tarde.

— Eu sei.

— Desculpe, mas não é de facto boa altura. Não é possível esperar até segunda-feira?

Gabriel carregou no PAUSE.

— Quero felicitá-la pela sua destreza nas artes do ofício. Conseguiu desencorajá-lo com facilidade.

— Artes do ofício?

— É um termo da arte do mundo da espionagem.

— Não tinha percebido que isto era uma operação de espionagem. E não foram artes do ofício nenhumas — acrescentou. — Uma rapariga sunita de Hama nunca permitiria que um homem casado fosse ao apartamento dela sozinho, mesmo que o homem casado fosse o patrão.

Gabriel sorriu e carregou no PLAY.

— Infelizmente, isto não pode esperar até segunda-feira. Preciso que faça uma viagem por mim na segunda-feira.

— Para onde?

— Genebra.

STOP.

— Já lhe tinha pedido que fizesse alguma viagem a representá-lo?

— Nunca.

— E sabe o que vai acontecer em Genebra na segunda-feira?

— O mundo inteiro sabe isso — respondeu ela. — Os americanos, os russos e os europeus vão tentar mediar um acordo de paz entre o regime e os rebeldes sírios.

— Um acontecimento importante, não é?

— Vai ser um diálogo de surdos.

Outro sorriso.

PLAY .

— Porquê Genebra, senhor Al-Siddiqi?

— Preciso que me vá buscar uns documentos. Só lá vai estar uma ou duas horas. Eu até faria isso, mas tenho de estar em Paris nesse dia.

STOP.

— Para que conste — disse Gabriel —, o senhor Al-Siddiqi não comprou nenhum bilhete de avião para Paris para segunda-feira.

— Faz sempre isso à última da hora.

— E porque têm os documentos de ser recolhidos pessoalmente? — perguntou Gabriel, ignorando-a. — Porque não mandá-los por um serviço expresso noturno? Ou porque não por correio eletrónico?

— Não é invulgar os registos financeiros confidenciais serem entregues pessoalmente.

— Especialmente quando estão a ser entregues a um homem como o Waleed al-Siddiqi.

PLAY .

— E o que precisa exatamente que eu faça?

— É muito simples, na verdade. Só preciso que se encontre com um cliente no Hotel Métropole. Ele vai dar-lhe um maço de documentos e a Jihan trá-los para Linz.

— E como se chama o cliente?

— Kemel al-Farouk.

STOP.

— Quem é ele? — perguntou Jihan.

Gabriel sorriu.

— O Kemel al-Farouk tem as chaves do reino — respondeu. — O Kemel al-Farouk é a razão pela qual a Jihan tem de ir a Genebra.