O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 11 de 65

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O Assalto

9. Stockwell, Londres

9

STOCKWELL, LONDRES

 

Whitcombe saiu para ir buscar os ingredientes para um gim tónico enquanto Gabriel e Graham Seymour se instalavam na salinha de estar sem graça. Gabriel perguntou aos seus botões que destroços dos serviços secretos teriam passado por aquele sítio antes dele. Um desertor do KGB disposto a vender a alma por trinta peças de prata do Ocidente? Um cientista nuclear iraquiano com uma pasta cheia de mentiras? Um agente duplo jihadista que afirmava saber quando e onde seria a próxima superprodução da Al-Qaeda? Olhou para a parede por cima da lareira elétrica e viu dois cavaleiros de casaco vermelho a conduzir as montadas por um verde prado inglês. A seguir, espreitou pela janela e viu um anjo de porte majestoso no relvado do jardim a escurecer, entregue a uma vigília solitária. Graham Seymour não parecia estar ciente do que o rodeava. Contemplava as mãos, como se tentasse decidir por onde começar o relato. Não se deu ao trabalho de delinear as regras básicas, pois não era necessário tal aviso. Gabriel e Seymour eram tão próximos como podiam ser dois espiões de serviços adversários, o que queria dizer que só desconfiavam um bocadinho um do outro.

— Os italianos sabem que estás aqui? — perguntou Seymour por fim.

Gabriel abanou a cabeça.

— Então e o Departamento?

— Não lhes disse que vinha, mas isso não quer dizer que não estejam a vigiar cada passo que eu dou.

— Agradeço a tua sinceridade.

— Sou sempre sincero contigo, Graham.

— Pelo menos, quando isso te convém.

Gabriel não se deu ao trabalho de retorquir. Preferiu ficar a ouvir com atenção enquanto Seymour, com uma voz transtornada, de quem preferiria estar a falar de outros assuntos, relatava a curta vida e carreira de James «Jack» Bradshaw. Tratava-se de território familiar para um homem como Seymour, pois também tinha vivido uma versão da vida de Bradshaw. Eram ambos produtos de famílias de classe média razoavelmente felizes, tinham sido ambos enviados para escolas privadas dispendiosas mas frias e ambos tinham entrado em universidades de elite, embora Seymour tivesse estado em Cambridge e Bradshaw tivesse ido parar a Oxford. Foi lá que, quando ainda estava a tirar a licenciatura, chamara a atenção de um professor que fazia parte do Corpo Docente de Estudos Orientais. O professor era na verdade um caça-talentos ao serviço do MI6. E Graham Seymour também o conhecia.

— O caça-talentos era o teu pai? — perguntou Gabriel.

Seymour assentiu com a cabeça.

— Já estava no crepúsculo da carreira. Estava demasiado gasto para servir para grande coisa no terreno e se havia coisa que não queria era trabalhar no quartel-general. Por isso, mandaram-no para Oxford e disseram-lhe para estar atento a potenciais recrutas. Um dos primeiros alunos em que reparou foi o Jack Bradshaw. Era difícil não reparar no Jack — acrescentou Seymour depressa. — Era um meteoro. Mas, mais importante, era sedutor, tinha um talento natural para o logro e não possuía escrúpulos nem princípios.

— Por outras palavras, tinha tudo o que era preciso para ser um espião perfeito.

— Na melhor tradição inglesa — acrescentou Seymour, com um sorriso irónico.

E foi assim que, prosseguiu, Jack Bradshaw se lançara no mesmo percurso que tantos outros haviam antes trilhado — um percurso que levava dos tranquilos pátios quadrangulares de Cambridge e Oxford à porta protegida por código dos serviços secretos britânicos. Corria o ano de 1985 quando lá chegou. A Guerra Fria aproximava-se do fim e o MI6 ainda continuava à procura de uma razão que justificasse a sua existência após ter sido destruído de dentro por Kim Philby e os restantes membros da rede de espionagem de Cambridge. Bradshaw passara dois anos no programa de formação do MI6 e depois partira para o Cairo para realizar o estágio. Tornou-se especialista em extremismo islâmico e vaticinou com exatidão o nascimento de uma rede terrorista jihadista internacional encabeçada por veteranos da Guerra do Afeganistão. A seguir, foi para Amã, onde criou fortes laços com o chefe do GID, os todo-poderosos serviços secretos e de segurança da Jordânia. Passado pouco tempo, Jack Bradshaw era considerado o principal agente de campo do MI6 no Médio Oriente. Pressupôs que seria o próximo chefe de divisão, mas o cargo foi atribuído a um rival que o despachou de imediato para Beirute, uma das colocações mais perigosas e ingratas da região.

— E foi aí — disse Seymour — que começaram os problemas.

— Que género de problemas?

— Os do costume — respondeu Seymour. — Começou a beber de mais e a trabalhar de menos. E também passou a ter-se em grande conta. Começou a achar que era o tipo mais esperto onde quer que estivesse e que os superiores em Londres eram uns autênticos incompetentes. Senão, como se podia explicar que não lhe tivessem dado a promoção quando era claramente o candidato mais qualificado para o cargo? A seguir, conheceu uma mulher chamada Nicole Devereaux e a situação foi de mal a pior.

— Quem era ela?

— Uma fotógrafa dos quadros da AFP, a agência noticiosa francesa. Conhecia Beirute melhor do que a maioria dos rivais porque estava casada com um empresário libanês chamado Ali Rashid.

— E como conheceu o Bradshaw? — perguntou Gabriel.

— Num convívio de sexta à noite na embaixada britânica: jornalistas de segunda, diplomatas e espiões a trocarem mexericos e histórias tenebrosas de Beirute com cerveja morna e aperitivos secos a acompanhar.

— E tiveram um caso?

— Bastante tórrido, diga-se de passagem. Segundo consta, o Bradshaw estava apaixonado por ela. Os rumores começaram a circular, claro, e, passado pouco tempo, chegaram aos ouvidos do rezident do KBG na embaixada soviética. Que conseguiu tirar umas fotografias da Nicole no quarto do Bradshaw. E depois avançou.

— Um recrutamento?

— É uma maneira de pôr a coisa — respondeu Seymour. — Na realidade, foi chantagem à moda antiga, pura e dura.

— A especialidade do KGB.

— E também tua.

Gabriel não fez caso do comentário e perguntou em que tinha consistido a abordagem.

— O rezident apresentou ao Bradshaw uma escolha simples — explicou Seymour. — Podia passar a trabalhar como agente a soldo do KGB ou então os russos entregavam discretamente ao marido as fotos da Nicole Devereaux em flagrante delito.

— E presumo que o Ali Rashid não teria reagido lá muito bem à notícia de que a mulher estava a ter um caso com um espião britânico.

— O Rashid era um homem perigoso. — Seymour fez uma pausa, antes de acrescentar: — E um homem com contactos.

— Que espécie de contactos?

— Com os serviços secretos sírios.

— Então o Bradshaw estava com medo que o Rashid a fosse matar?

— E com boas razões. Escusado será dizer que aceitou colaborar.

— E o que lhes deu?

— Os nomes do pessoal do MI6, as operações em curso, informações valiosas sobre as políticas britânicas na região. Em resumo, as nossas estratégias todas para o Médio Oriente.

— E como é que vocês souberam?

— Não fomos nós — respondeu Seymour. — Os americanos descobriram que o Bradshaw tinha uma conta bancária na Suíça com meio milhão de dólares. Comunicaram-nos essa informação com grande pompa e circunstância, numa reunião bastante horrenda em Langley.

— E porque não prenderam o Bradshaw?

— És um homem experimentado — respondeu Seymour. — Diz-me tu.

— Porque isso teria dado azo a um escândalo que o MI6 não se podia dar ao luxo de enfrentar naquela altura.

Seymour tocou no nariz.

— Até deixaram ficar o dinheiro na conta suíça porque não conseguiram descobrir maneira de o apreender sem levantar um alerta. É bem possível que tenha sido o paraquedas dourado mais lucrativo da história do MI6. — Seymour abanou a cabeça lentamente. — Não foi propriamente o nosso melhor momento.

— E o que aconteceu ao Bradshaw depois de sair do MI6?

— Andou uns meses por Beirute a lamber as feridas e depois voltou para a Europa e criou uma empresa de consultoria. Para que conste — acrescentou Seymour —, os serviços secretos britânicos nunca tiveram grande opinião da Meridian Global Consulting Group.

— E sabiam que o Bradshaw andava metido em arte roubada?

— Desconfiávamos que andasse envolvido em empreendimentos que não fossem propriamente legais, mas a maior parte do tempo assobiámos para o ar e esperámos que as coisas corressem pelo melhor.

— E quando souberam que ele tinha sido assassinado em Itália?

— Agarrámo-nos à ficção de que era diplomata. Mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros deixou bem claro que o ia renegar ao primeiro sinal de problemas. — Seymour parou por uns instantes e depois perguntou: — Ficou a faltar alguma coisa?

— O que aconteceu à Nicole Devereaux?

— Segundo parece, alguém falou do caso ao marido. Desapareceu uma noite depois de sair da redação da AFP. Encontraram o corpo dela passados uns dias, no vale de Bekaa.

— Foi o Rashid quem a matou?

— Não — respondeu Seymour. — Os sírios fizeram-no por ele. Divertiram-se um bocadinho com ela antes de a pendurarem num candeeiro e lhe cortarem a garganta. Foi tudo bastante horrível. Mas suponho que isso fosse de esperar. Afinal de contas — acrescentou num tom sorumbático —, eram sírios.

— Pergunto a mim mesmo se terá sido coincidência — disse Gabriel.

— O quê?

— Que matassem o Jack Bradshaw precisamente da mesma maneira.

A única reação de Seymour foi olhar atentamente para o relógio, com ar de quem estava atrasado para um compromisso a que preferia faltar.

— A Helen está à minha espera para jantar — afirmou com profunda falta de entusiasmo. — Infelizmente, agora anda com o bichinho das Áfricas. Não tenho a certeza, mas sou capaz de ter comido cabra a semana passada.

— És um felizardo, Graham.

— A Helen diz a mesma coisa. O meu médico é que não tem assim tanta certeza.

Seymour pousou a bebida e levantou-se. Gabriel não se mexeu.

— Imagino que me queiras fazer mais uma pergunta — disse Seymour.

— Duas, por acaso.

— Estou a ouvir.

— Achas que há alguma hipótese de eu poder dar uma olhadela ao dossiê do Bradshaw?

— Próxima pergunta.

— Quem é o Samir?

— Apelido?

— Ainda estou a tentar descobrir.

Seymour olhou para o teto.

— Há um Samir que tem uma merceariazinha ao virar da esquina do meu apartamento. É membro devoto da Irmandade Muçulmana e acha que o Reino Unido devia ser governado pela sharia. — Olhou para Gabriel e sorriu. — Tirando isso, é um tipo bastante simpático.

 

A embaixada israelita ficava do outro lado do Tamisa, numa esquina sossegada de Kensington, logo a seguir à High Street. Gabriel entrou discretamente no edifício pelas traseiras, por uma porta não identificada, e desceu as escadas até ao conjunto de salas revestido a chumbo e reservado para o Departamento. O chefe de base não estava lá, apenas um jovem funcionário pouco importante chamado Noah, que se levantou com um salto quando o futuro diretor lhe entrou pela porta dentro sem aviso. Gabriel dirigiu-se para o centro de comunicações seguras — no léxico do Departamento, chamavam-lhe o Santo dos Santos — e enviou de lá uma mensagem para a Avenida Rei Saul a pedir acesso a eventuais ficheiros relativos a um empresário libanês chamado Ali Rashid. Não se incomodou em explicar a razão do pedido. O cargo que se avizinhava tinha os seus privilégios.

Passaram vinte minutos até o ficheiro ser transmitido pela ligação segura — tempo suficiente, calculou Gabriel, para que o atual chefe do Departamento aprovasse essa comunicação. Era curto, com cerca de mil palavras, e estava escrito no estilo conciso que se exigia aos analistas do Departamento. Referia que Ali Rashid era um conhecido ativo dos serviços secretos sírios, que funcionava como tesoureiro de uma grande rede síria no Líbano e que tinha morrido quando uma bomba fez explodir um carro na capital libanesa, em 2011, sendo a autoria do atentado desconhecida. No fim do ficheiro, vinha o código numérico de seis dígitos do agente responsável. Gabriel reconheceu-o; a analista em causa já tinha sido a maior especialista do Departamento em questões relacionadas com a Síria e o Partido Baath. Nos tempos que corriam, era conhecida por outro motivo. Era a mulher do quase ex-chefe.

Tal como a maior parte dos postos avançados do Departamento espalhados pelo mundo, a Base de Londres incluía um pequeno quarto para alturas de crise. Gabriel conhecia bem o quarto, pois já lá tinha ficado várias vezes. Estendeu-se na desconfortável cama individual e tentou adormecer, mas era escusado; o caso não lhe saía da cabeça. Um espião britânico cheio de futuro e que se tinha tresmalhado, um ativo dos serviços secretos sírios que fora feito em pedacinhos com a explosão de uma bomba num carro, três quadros roubados que estavam escondidos debaixo de falsificações de elevada qualidade, uma caixa-forte no Freeport de Genebra… As possibilidades, pensou Gabriel, eram infinitas. Era escusado estar a tentar forçar as peças naquele momento. Precisava de abrir mais uma janela — uma janela para o comércio mundial de quadros roubados — e para isso precisava da ajuda de um mestre ladrão de arte.

E foi assim que ficou deitado na pequena cama dura, sem conseguir adormecer, a braços com recordações e pensamentos voltados para o futuro, até às seis da manhã. Depois de tomar um duche e mudar de roupa, saiu da embaixada quando ainda era de noite e apanhou o metro até à estação de St. Pancras. Partia um Eurostar para Paris às sete e meia; comprou uma série de jornais antes de embarcar e acabou de os ler no momento em que comboio parou na Gare du Nord. Lá fora, uma fila de táxis molhados aguardava sob um céu de um cinzento metalizado. Gabriel passou por eles depressa e esteve uma hora a percorrer as ruas movimentadas à volta da estação até ter a certeza de que não estava a ser seguido. Depois dirigiu-se para o oitavo arrondissement, a caminho de uma rua chamada Rue de Miromesnil.