O Assalto
39. Attersee, Áustria
39
ATTERSEE, ÁUSTRIA
Mais tarde, sempre que Jihan pensava nesse dia, recordava-o como a Sexta-Feira Negra. Os receios de um colapso grego tinham feito os preços das ações descer a pique na Europa e na América, e, na Suíça, o Ministério da Economia anunciou que iria congelar 200 milhões de dólares de ativos ligados à família do presidente sírio e aos seus comparsas. O senhor Al-Siddiqi pareceu arrasado com essa notícia. Barricou-se no gabinete durante a maior parte da tarde, só saindo de lá duas vezes para gritar com Jihan por causa de assuntos triviais. Ela passou a última hora desse dia de trabalho a olhar para o relógio e, ao bater das cinco, saiu a correr porta fora sem desejar um bom fim de semana ao senhor Al-Siddiqi nem a Herr Weber, como costumava fazer. Foi só mais tarde, quando já se estava a vestir para ir jantar, que deu conta de ter deixado a carteira no trabalho.
— E como entrou no banco? — perguntou Gabriel.
— Com as minhas chaves, claro.
— Não sabia que as tinha.
Tirou-as da carteira e mostrou-as a Gabriel.
— Conforme sabe — disse —, o Bank Weber não é um banco de retalho. Somos um banco privado, o que quer dizer que somos primordialmente uma empresa de gestão de riqueza vocacionada para indivíduos com grandes ativos líquidos.
— E têm dinheiro disponível?
— Pouco.
— E o banco fornece cofres aos clientes?
— Claro.
— E onde estão?
— Abaixo do nível da rua.
— E tem acesso a eles?
— Sou a gestora de conta.
— E?
— Posso entrar em qualquer sítio do banco, com exceção dos gabinetes do senhor Weber e do senhor Al-Siddiqi.
— São de acesso proibido?
— A não ser que me convidem a lá entrar.
Gabriel fez uma pausa, como que para digerir a informação, e depois pediu a Jihan para retomar o relato do que aconteceu na Sexta-Feira Negra. Explicou que tinha voltado para o banco de carro e entrara pela porta da frente servindo-se das chaves. Assim que a porta se abrisse, teria trinta segundos para digitar o código de oito números correto no painel de comando do sistema de segurança; caso contrário, o alarme tocaria e metade da polícia de Linz chegaria lá em poucos minutos. Mas quando se aproximou do painel, viu que o sistema de alarme não tinha sido ativado.
— O que queria dizer que havia mais alguém no banco?
— Correto.
— E era o senhor Al-Siddiqi?
— Estava no gabinete — respondeu ela, assentindo com a cabeça lentamente. — A falar ao telefone.
— Com quem?
— Com uma pessoa que não estava contente por ter acabado de ver os respetivos ativos serem congelados pelo governo suíço.
— E sabe quem era?
— Não — respondeu ela. — Mas desconfio que fosse alguém poderoso.
— E porque diz isso?
— Porque o senhor Al-Siddiqi parecia assustado. — Calou-se durante um momento. — Foi um choque bastante grande. Não é coisa de que me vá esquecer.
— E os guarda-costas estavam lá?
— Não.
— Porquê?
— Imagino que ele os tenha dispensado.
Perguntou o que ela fez a seguir. E a resposta foi que tinha ido buscar a carteira e saíra do banco o mais depressa possível. Na segunda-feira de manhã, quando voltou ao trabalho depois do fim de semana, tinha um bilhete à espera dela na secretária. Era do senhor Al-Siddiqi. Queria dar-lhe uma palavrinha a sós.
— E porque queria ele falar consigo?
— Disse que me queria pedir desculpa. — Sorriu inesperadamente. — Outra novidade.
— Pedir desculpa pelo quê?
— Por se ter irritado comigo na sexta-feira. O que era mentira, claro — acrescentou rapidamente. — Queria perceber se eu tinha ouvido alguma coisa quando fui ao banco nessa noite.
— Ele sabia que a Jihan tinha lá estado? — Ela assentiu com a cabeça. — Como?
— Ele fiscaliza frequentemente as gravações das câmaras de vigilância. Aliás, recebe as transmissões diretamente no computador que tem na secretária.
— E perguntou-lhe sem rodeios o que tinha ouvido?
— O senhor Al-Siddiqi nunca faz nada sem rodeios. Prefere andar às voltinhas.
— E o que lhe respondeu?
— O suficiente para o descansar.
— E ele acreditou?
— Sim — respondeu ela depois de pensar um momento. — Acho que sim.
— E a conversa ficou por aí?
— Não — retorquiu. — Queria falar da guerra.
— Do quê da guerra?
— Perguntou-me se a minha família que ainda estava na Síria se encontrava bem. Queria saber se podia fazer alguma coisa para os ajudar.
— E estava a ser sincero?
— Quando um parente da família do presidente se oferece para ajudar, normalmente quer dizer o contrário.
— Estava a ameaçá-la? — Jihan ficou calada. — E, mesmo assim, não se foi embora — disse Gabriel.
— Não — retorquiu —, não fui.
— E a sua família? — perguntou ele, voltando a consultar o dossiê. — Estão todos bem, Jihan?
— Houve vários que foram mortos ou ficaram feridos.
— Lamento muito saber isso. — Ela assentiu com a cabeça, mas não disse nada. — E onde os mataram?
— Em Damasco.
— E a Jihan é de lá?
— Vivi lá pouco tempo quando era criança.
— Mas não nasceu lá?
— Não — respondeu ela. — Nasci a norte de Damasco.
— Onde?
— Em Hama — respondeu. — Nasci em Hama.