O Assalto
21. Rue de Miromesnil, Paris
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RUE DE MIROMESNIL, PARIS
Inicialmente, Marcel Durand tentou fazer valer-se de um privilégio de confidencialidade em relação à identidade de quem tinha telefonado. Mas, ao ser pressionado, admitiu ter sido Jonas Fischer, um industrial rico e conhecido colecionador de Munique que recorria com regularidade aos serviços singulares de Monsieur Durand. Herr Fischer deixou logo à partida bem claro que não era ele quem estava interessado no Van Gogh, mas estava a interceder em nome de um conhecido, também colecionador, que, por razões óbvias, não podia identificar. Segundo parecia, esse segundo colecionador já tinha enviado um representante para Paris, com base em certos rumores que andavam a percorrer o mundo da arte. Herr Fischer gostaria de saber se Durand não poderia indicar a direção certa ao representante.
— E o que lhe disse? — perguntou Gabriel.
— Disse-lhe que desconhecia o paradeiro do Van Gogh, mas que ia fazer uns telefonemas.
— E se acabar por conseguir ajudar em alguma coisa?
— Disseram-me para ligar diretamente ao representante.
— Que imagino não tenha nome.
— Só um número de telefone — respondeu Durand.
— Mas que profissional.
— Foi exatamente isso que achei.
Estavam no pequeno escritório nas traseiras da loja de Durand. Gabriel estava encostado à porta; Durand, sentado à secretariazinha dickensiana. No mata-borrão que tinha à frente, estava um microscópio em bronze, dos finais do século XIX, fabricado pela Vérick, em Paris.
— E é dele que andamos à procura? — perguntou Gabriel.
— Um homem como Herr Fischer só estaria ligado a um colecionador importante. E também deu a entender que o amigo tinha feito uma série de aquisições igualmente importantes nos últimos tempos.
— E alguma dessas aquisições foi um Caravaggio?
— Não perguntei.
— Se calhar, foi melhor não o ter feito.
— Se calhar — concordou Durand.
De repente, ficaram os dois em silêncio.
— E então? — perguntou o francês.
— Diga-lhe para estar amanhã no pátio de entrada da Saint-Germain-des-Prés, às duas da tarde, perto da porta vermelha. Diga-lhe para levar o telefone, mas nada de pistolas. E, faça o que fizer, não se ponha com conversas. Diga-lhe só o que ele tem de fazer e depois desligue.
Durand levantou o auscultador do telefone e marcou o número.
Saíram da loja cinco minutos mais tarde, o ladrão de arte e o antigo e futuro agente dos serviços secretos israelitas, e despediram-se praticamente sem dizerem mais uma palavra nem olharem um para o outro. O ladrão de arte foi para a brasserie em frente; o agente, para a embaixada israelita, no número 3 da Rue Rabelais. Entrou no prédio pela porta dos fundos, desceu para o centro de comunicações seguras e telefonou para o chefe da Divisão de Logística, a divisão que geria as propriedades seguras do Departamento. Explicou que precisava de um sítio perto de Paris, mas isolado, preferencialmente a norte. Não precisava de ser nada majestoso, acrescentou. Não estava a pensar dar nenhuma festa.
— Lamento — respondeu o chefe da Divisão de Logística. — Posso autorizá-lo a ficar numa propriedade existente, mas não posso adquirir uma nova sem aprovação vinda do último andar.
— Se calhar, não estava a ouvir quando eu lhe disse como me chamava.
— E o que digo ao Uzi?
— Nada, claro.
— E para quando precisa disso?
— Para ontem.
Às nove da manhã seguinte, a Divisão de Logística já tinha comprado uma pitoresca quinta de férias na região francesa da Picardia, logo à saída da aldeia de Andeville. Uma sebe imponente ocultava a entrada e da extremidade do bonito jardim de trás estendia-se uma miscelânea de terrenos de lavoura planos. Gabriel e Chiara chegaram lá ao meio-dia e esconderam os dois Van Gogh na adega. Depois Gabriel seguiu de imediato de carro para Paris. Deixou o automóvel num parque de estacionamento perto da estação de metro de Odéon e percorreu a pé o boulevard a caminho da Place Saint-Germain-des-Prés. Num canto da movimentada praça, ficava um café chamado Le Bonaparte. Sentado a uma mesa virada para a rua, encontrava-se Christopher Keller. Gabriel cumprimentou-o em francês e sentou-se ao lado dele. Olhou para o relógio. Eram 13h55. Pediu um café e fitou a porta vermelha da igreja.
Não foi difícil identificá-lo; nessa tarde perfeita de primavera, com o sol a brilhar intensamente num céu sem nuvens e um vento suave a soprar pelas ruas apinhadas de gente, era a única pessoa que tinha vindo sozinha à igreja. Era de estatura mediana, com quase um metro e oitenta, e bem constituído. Tinha movimentos fluidos e decididos — como os de um futebolista, pensou Gabriel, ou de um soldado de elite. Usava um casaco desportivo castanho-claro e fino, uma camisa branca e calças cinzentas de gabardina. Um chapéu de palha tapava-lhe a cara; uns óculos escuros escondiam-lhe os olhos. Aproximou-se da porta vermelha e fingiu que estava a consultar um guia turístico. Estavam duas raparigas, uma de calções e a outra com um vestido caicai, sentadas nas escadas, com as pernas nuas esticadas. Foi evidente que houve qualquer coisa no homem que as fez sentirem-se desconfortáveis. Ficaram ali sentadas mais um momento e depois levantaram-se e atravessaram a praça.
— O que achas? — perguntou Keller.
— Acho que é o nosso rapaz.
O empregado trouxe o café de Gabriel. Este pôs-lhe açúcar e mexeu-o pensativamente enquanto observava o homem parado ao lado da porta vermelha da igreja.
— Não lhe vais ligar?
— Ainda não são duas, Christopher.
— Vai dar ao mesmo.
— É melhor não parecer muito ansioso. Não te esqueças que já temos um comprador fisgado. O nosso amigo ali ao fundo já levantou o cartão de licitação bem tarde.
Gabriel deixou-se ficar sentado à mesa até o relógio no campanário da igreja indicar que já passavam dois minutos das duas. Foi então que se levantou e entrou no café. Estava vazio, tirando os empregados. Aproximou-se da janela, sacou o telemóvel do bolso do casaco e marcou o número. Passados uns segundos, o homem parado à frente da igreja atendeu.
— Bonjour.
— Não precisa de falar francês só por estarmos em Paris.
— Prefiro francês, se não se importa.
Até podia preferir francês, pensou Gabriel, mas não era a língua-mãe dele. Já não fingia que olhava para o guia. Estava a inspecionar a praça, à procura de um homem com um telemóvel encostado ao ouvido.
— Veio sozinho? — perguntou Gabriel.
— Como me está a ver neste preciso momento, já sabe que a resposta é sim.
— Estou a ver um homem parado no sítio onde devia estar, mas não sei se ele veio sozinho.
— Veio.
— E alguém o seguiu?
— Não.
— Como pode ter a certeza?
— Tenho.
— E como o devo tratar?
— Pode tratar-me por Sam.
— Sam?
— Sim, Sam.
— Trouxe alguma pistola, Sam?
— Não.
— Tire o casaco.
— Porquê?
— Quero ver se está alguma coisa debaixo dele que não devia lá estar.
— Isto é mesmo necessário?
— Quer ver o quadro ou não?
O homem pousou o guia e o telefone nas escadas, despiu o casaco e pendurou-o no braço. A seguir, voltou a pegar no telefone e perguntou:
— Satisfeito?
— Dê meia-volta para ficar virado para a igreja.
O homem rodou cerca de quarenta e cinco graus.
— Mais.
Outros quarenta e cinco.
— Muito bem.
O homem regressou à posição original e perguntou:
— E agora?
— Vai dar um passeio.
— Não me apetece dar nenhum passeio.
— Não se preocupe, Sam. Não vai ser um passeio grande.
— E onde quer que eu vá?
— Quero que siga pelo boulevard, em direção ao Quartier Latin. Sabe o caminho para o Quartier Latin, Sam?
— Claro que sim.
— Conhece bem Paris?
— Muito bem.
— Não olhe por cima do ombro nem faça paragens. E não se sirva do telefone. Senão, é capaz de não ouvir a minha próxima chamada.
Gabriel interrompeu a ligação e voltou para o pé de Keller.
— E então? — perguntou o Inglês.
— Acho que acabámos de encontrar o Samir. E acho que é um profissional.
— E sempre vamos a jogo?
— Já vamos saber não tarda nada.
Do outro lado da praça, Sam estava a vestir o casaco desportivo. Enfiou o telemóvel no bolso do peito, largou o guia num caixote do lixo e depois dirigiu-se para o Boulevard Saint-Germain. Se virasse à direita, seguiria na direção dos Invalides; se virasse à esquerda, seguiria para o Quartier Latin. Hesitou um momento e depois virou à esquerda. Gabriel contou devagar até vinte antes de se levantar e começar a segui-lo.
Quando mais não fosse, era capaz de cumprir ordens. Seguiu em linha reta pelo boulevard, passando pelas lojas e os cafés apinhados de gente, sem parar nem espreitar por cima do ombro uma única vez. Isso permitiu a Gabriel concentrar-se na sua tarefa principal, que era a contravigilância. Não viu nada que indicasse que Sam tivesse um cúmplice. E também não parecia que estivesse a ser seguido pela polícia francesa. Estava limpo, pensou Gabriel. Tão limpo como um comprador de arte roubada podia estar.
Passados dez minutos a andar a bom ritmo, Sam estava a aproximar-se do ponto em que o boulevard ia dar ao Sena. Meio quarteirão atrás dele, Gabriel sacou o telemóvel do bolso e ligou-lhe. Uma vez mais, Sam atendeu de imediato, como o mesmo bonjour cordial.
— Vire à esquerda para a Rue du Cardinal Lemoine e siga-a até ao Sena. Atravesse a ponte para a Île Saint-Louis e depois continue sempre a andar até voltar a ter notícias minhas.
— Ainda falta muito?
— Já não, Sam. Está quase lá.
Sam virou conforme lhe tinham ordenado e atravessou a Pont de la Tournelle para a pequena ilha no meio do Sena. Uma série de cais pitorescos sucedia-se ao longo do perímetro da ilha, mas havia apenas uma rua, a Rue Saint-Louis en l’Île, que a percorria por inteiro. Pelo telefone, Gabriel disse a Sam para virar outra vez à esquerda.
— Ainda falta muito?
— Só mais um bocadinho, Sam. E não olhe por cima do ombro.
Era uma rua estreita, com turistas a deambularem sem rumo, à frente das montras das lojas. Na ponta ocidental, ficava uma gelataria, e, ao lado desta, uma brasserie com ótima vista para Notre-Dame. Gabriel ligou para Sam e transmitiu-lhe as últimas ordens.
— E quanto tempo tenciona deixar-me à espera?
— Lamento dizê-lo, mas não vou almoçar consigo, Sam. Sou só um mero empregado.
Gabriel interrompeu a ligação sem dizer mais uma palavra e ficou a ver Sam entrar na brasserie. Um empregado de mesa cumprimentou-o e apontou com a mão para uma mesa no passeio ocupada por um inglês loiro e de óculos com lentes azuis. O inglês levantou-se e, com um sorriso, estendeu-lhe a mão. «Reg», ouviu-o Gabriel dizer enquanto virava a esquina. «Reg Bartholomew. E você deve ser o Sam.»