O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 22 de 65

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O Assalto

20. Genebra

20

GENEBRA

 

Havia um aspeto do caso que andava a atormentar Gabriel desde o início: as salas secretas de Jack Bradshaw no Freeport de Genebra. Em regra, um empresário recorria aos serviços únicos do Freeport por querer evitar ser tributado ou por estar a esconder qualquer coisa. Gabriel desconfiava que as razões de Bradshaw se inserissem na segunda categoria. Mas como entrar lá dentro sem um mandado judicial nem a companhia da polícia? O Freeport não era o género de lugar que se pudesse arrombar com uma gazua e um sorriso confiante. Gabriel iria precisar de um aliado, de uma pessoa com poder para abrir discretamente qualquer porta na Suíça. E conhecia um homem assim. Teriam de chegar a um acordo, fazer uma combinação secreta. Seria complicado, mas a verdade é que as questões relacionadas com a Suíça o eram normalmente.

O contacto inicial foi breve e pouco prometedor. Gabriel telefonou para o escritório do homem, em Berna, e explicou-lhe de forma bastante incompleta do que precisava e porquê. Compreensivelmente, o homem de Berna não ficou muito impressionado, embora parecesse intrigado.

— E onde estás agora? — perguntou.

— Na Sibéria.

— E quando consegues estar em Genebra?

— Posso apanhar o próximo comboio.

— Não sabia que havia comboios da Sibéria para Genebra.

— Por acaso, passa por Paris.

— Dá sinal quando chegares. Vou ver o que posso fazer.

— Não me vou pôr a fazer uma viagem até Genebra sem ter garantias.

— Se queres garantias, telefona a um banqueiro suíço. Mas se queres dar uma olhadela ao que há naquelas salas, vais ter de fazer as coisas à minha maneira. E nem penses em aproximar-te sequer do Freeport sem mim — acrescentou o homem de Berna. — Se fizeres isso, vais passar muitíssimo tempo na Suíça.

Gabriel preferiria que lhe dessem melhores probabilidades antes de viajar, mas achou que aquele momento era tão bom como qualquer outro. Com a cópia do Van Gogh terminada, a parte parisiense da operação já pouco mais era do que um jogo de espera. Podia passar o dia a olhar para o telefone ou podia aproveitar esse intervalo de atividade de forma mais produtiva. Acabou por ser Chiara a decidir por ele. Guardou os dois quadros no armário do quarto, fechando-os à chave, apressou-se até à Gare de Lyon e apanhou o TGV das nove. O comboio chegou a Genebra poucos minutos depois do meio-dia. Gabriel ligou para Berna de um telefone público no átrio das bilheteiras.

— Onde estás? — perguntou o homem.

Gabriel disse-lhe a verdade.

— Vou ver o que posso fazer.

A estação de comboios ficava numa parte de Genebra que parecia um duro quartier de uma cidade francesa. Gabriel dirigiu-se para o lago e atravessou a Pont du Mont Blanc, até à Margem Sul. Comeu uma piza no Jardim Inglês, sem pressa nenhuma, e depois percorreu as ruas escurecidas da Cidade Velha do século XVI. Às quatro da tarde, o ar já estava frio devido à noite que se aproximava. Com os pés doridos e cansado de esperar, Gabriel ligou pela terceira vez ao homem de Berna, mas ninguém atendeu. Passados dez minutos, quando estava a passar pelos bancos e pelas lojas de luxo da Rue du Rhône, telefonou-lhe novamente. Desta feita, o homem atendeu.

— Chama-me antiquado — disse Gabriel —, mas não aprecio mesmo nada quando as pessoas me deixam pendurado.

— Nunca te prometi nada.

— Podia ter ficado em Paris.

— Teria sido uma pena. Genebra é um encanto, nesta altura do ano. E terias perdido a oportunidade de dar uma olhadela ao que há no Freeport.

— E estás a contar deixar-me ficar à espera muito mais tempo?

— Podemos tratar já disso, se quiseres.

— Onde estás?

— Vira-te.

Gabriel fez o que lhe disseram.

— Sacana.

Chamava-se Christoph Bittel — pelo menos, era esse o nome que utilizara da última e única vez que se tinham cruzado. Trabalhava, ou pelo menos assim o dissera na altura, para a divisão de contraterrorismo do NDB, os fiáveis serviços secretos e de segurança interna suíços. Era magro e pálido, com uma testa grande que lhe dava um ar, que até tinha alguma razão de ser, extremamente inteligente. Quando estendeu a mão, por cima da caixa de velocidades de um grande carro alemão desportivo, parecia que ela tinha acabado de ser expurgada de bactérias.

— Sê bem-vindo de novo a Genebra — disse Bittel ao entrar com o carro devagar no meio do trânsito. — Foi simpático teres feito reserva, sempre é uma novidade.

— Os meus tempos das operações não autorizadas na Suíça já terminaram. Agora somos parceiros, lembras-te, Bittel?

— É melhor não nos entusiasmarmos, Allon. Não vamos querer dar cabo da diversão.

Bittel pôs uns óculos escuros grandes que lhe davam às feições um ar de louva-a-deus. Conduzia bem, mas com cuidado, como se tivesse contrabando dentro da bagageira e estivesse a tentar evitar encontros com as autoridades.

— Como podes calcular — disse passado um momento —, os nossos agentes e ministros mais importantes já passaram muitas horas interessantes a ouvir a tua confissão.

— Não foi uma confissão.

— Então como descrevias o que se passou?

— Fiz-te um relatório exaustivo das minhas atividades em território suíço — respondeu Gabriel. — E, em troca, aceitaste não me enfiar na cadeia para o resto da vida.

— Coisa que merecias. — Bittel abanou a cabeça lentamente enquanto guiava. — Assassínios, roubos, raptos, uma operação de contraterrorismo no cantão de Uri que deixou vários membros da Al-Qaeda mortos. Estou a esquecer-me de alguma coisa?

— Uma vez, também chantageei um dos vossos empresários mais destacados para poder ter acesso à cadeia de fornecimento nuclear do Irão.

— Ah, pois. Como me pude esquecer do Martin Landesmann?

— Foi uma das minhas melhores.

— E agora queres ter acesso a um armazém no Freeport de Genebra sem um mandado judicial?

— Com certeza que tens algum amigo no Freeport disposto a deixar-te dar de vez em quando uma espreitadela extrajudicial à mercadoria.

— Com certeza — reconheceu Bittel. — Mas, por norma, gosto de saber o que vou lá encontrar antes de arrombar o cadeado.

— Quadros, Bittel. Vamos encontrar lá quadros.

— Quadros roubados?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— E o que acontece se o dono descobrir que estivemos lá dentro?

— O dono está morto. Não se vai queixar.

— Os armazéns do Freeport estão registados no nome da empresa do Bradshaw. E a empresa continua viva.

— A empresa é uma fachada.

— Estamos na Suíça, Allon. As empresas de fachada são o que nos mantém em atividade.

O semáforo à frente deles passou de verde para amarelo. Bittel tinha mais do que tempo para atravessar o cruzamento. Em vez disso, preferiu tirar o pé do acelerador e fazer o carro parar suavemente.

— Ainda não me disseste do que se trata — disse, depenicando o punho das mudanças.

— E com boas razões.

— E se eu te conseguir pôr lá dentro? O que ganho com isso?

— Se eu tiver razão — respondeu Gabriel —, um dia tu e os teus amigos do NDB vão poder anunciar que recuperaram várias obras de arte há muito desaparecidas.

— Arte roubada no Freeport de Genebra. Não é propriamente uma grande jogada, do ponto de vista das relações públicas, para a Confederação.

— Não se pode ter tudo, Bittel.

O semáforo mudou. Bittel levantou o pé do travão e acelerou devagar, como se estivesse a tentar poupar combustível.

— Entramos, damos uma vista de olhos e depois vamos embora. E tudo o que estiver na caixa-forte fica na caixa-forte. Estamos entendidos?

— Como queiras. — Bittel avançou com o carro em silêncio, sorrindo. — Onde está a piada? — perguntou Gabriel.

— Acho que gosto do novo Allon.

— Nem imaginas como isso é importante para mim, Bittel. Mas podes ir um bocadinho mais depressa? Gostava de chegar ao Freeport sem ser de manhã.

 

Vislumbraram-no uns minutos mais tarde, uma fila de edifícios brancos e anónimos, com um letreiro vermelho no cimo que dizia PORTS FRANCS. No século XIX, não passava praticamente de um celeiro onde os produtos agrícolas a caminho do mercado eram guardados. Atualmente, era um repositório seguro e livre de impostos onde os super-ricos de todo o mundo escondiam toda a espécie de tesouros: barras de ouro, joias, vinho vintage, automóveis e, claro, arte. Ninguém sabia ao certo qual a quantidade de grande arte existente no mundo que se encontrava no interior das caixas-fortes do Freeport de Genebra, mas julgava-se ser suficiente para criar vários grandes museus. Grande parte dela nunca voltaria a ver a luz do dia; e se chegasse a mudar de mãos, isso aconteceria em privado. Não era arte para ser vista e apreciada. Era arte como mercadoria, arte como proteção contra tempos incertos.

Apesar da vasta riqueza contida dentro do Freeport, as medidas de segurança possuíam típica discrição suíça. A vedação em redor do porto funcionava mais como desencorajamento do que como barreira e o portão que Bittel atravessou com o carro demorava a fechar-se. Mas, em todos os edifícios, havia câmaras de vídeo por tudo o que era sítio e, uns segundos depois de lá chegarem, um agente alfandegário apareceu junto a uma porta, com um bloco de notas com mola numa mão e um rádio na outra. Bittel saiu do carro e disse umas palavras ao funcionário, num francês fluente. O homem da alfândega voltou para o gabinete e, passado um momento, surgiu uma morena bem-feita, com uma saia e uma blusa justas. Entregou uma chave a Bittel e apontou para a ponta mais distante do complexo.

— Presumo que o tal amigo seja ela — disse Gabriel quando Bittel voltou a entrar no carro.

— A nossa relação é estritamente profissional.

— Tenho muita pena.

No Freeport, as moradas eram uma combinação do edifício, do corredor e da porta da caixa-forte. Bittel estacionou à frente do Edifício 4 e entrou seguido de Gabriel. Da entrada, estendia-se um corredor de portas aparentemente interminável. Uma estava aberta. Ao espreitar lá para dentro, Gabriel viu um homem pequeno e de óculos sentado a uma mesa chinesa em madeira lacada, com um telefone colado ao ouvido. A caixa-forte tinha sido transformada numa galeria de arte.

— Várias empresas de Genebra mudaram-se para o Freeport nos últimos anos — explicou Bittel. — A renda é mais barata do que na Rue du Rhône e os clientes parecem gostar da reputação que o Freeport tem quanto a maquinações secretas.

— Que é bem merecida.

— Agora já não.

— É o que vamos ver.

Entraram numa escadaria e subiram até ao segundo andar. A caixa-forte de Bradshaw ficava no corredor 12, por trás de uma porta de metal cinzenta com o número 24. Bittel hesitou antes de introduzir a chave.

— Não vai explodir, pois não?

— Boa pergunta.

— Isso não tem piada.

Bittel abriu a porta, ligou o interruptor e praguejou baixinho. Havia quadros por todo o lado — quadros emoldurados, quadros em cavaletes, quadros enrolados como carpetes num bazar persa. Gabriel desenrolou um no chão para que Bittel o visse. Era uma representação de um chalé no cimo de um penhasco junto ao mar repleto de resplandecentes plantas silvestres.

— Monet? — perguntou Bittel.

Gabriel assentiu com a cabeça.

— Foi roubado de um museu polaco há coisa de uns vinte anos.

Desenrolou outro quadro: uma mulher com um leque.

— Se não me engano — disse Bittel —, isso é um Modigliani.

— E não te enganas mesmo. Foi um dos quadros que foram levados do Museu de Arte Moderna de Paris, em 2010.

— O roubo do século. Lembro-me bem.

Bittel seguiu Gabriel por uma porta que dava para a sala interior da caixa-forte. Estavam lá dois grandes cavaletes, uma lâmpada de halogéneo, frascos com solvente e médium, recipientes de pigmentos, pincéis, uma paleta já com muito uso e um catálogo da Christie’s do leilão londrino dos Velhos Mestres de 2004. Estava aberto numa página que mostrava uma crucificação atribuída a um seguidor de Guido Reni, executada de forma competente mas desinspirada e que nem sequer valia o prémio do vendedor.

Gabriel fechou o catálogo e olhou em redor da caixa-forte. Era o ateliê secreto de um mestre falsificador, pensou, na galeria de arte das obras desaparecidas. Mas era evidente que Yves Morel tinha feito mais do que falsificar quadros naquela sala; também fizera um pouco de restauro. Gabriel pegou na paleta e passou a ponta do dedo pelos restos de tinta que ainda havia na superfície. Ocre, dourado e carmesim: as cores da Natividade.

— O que é? — perguntou Bittel.

— Uma prova de vida.

— Do que estás a falar?

— Esteve aqui — respondeu Gabriel. — Existe.

 

Nas duas salas da caixa-forte, havia cento e quarenta e sete quadros — impressionistas, modernos, dos Velhos Mestres —, mas nenhum era um Caravaggio. Gabriel fotografou todas as telas servindo-se da câmara do telemóvel. As únicas duas outras coisas que se encontravam na caixa-forte eram uma secretária e um pequeno cofre no chão — demasiado pequeno, pensou Gabriel, para caber lá um retábulo italiano de dois metros por dois metros e meio. Verificou as gavetas da secretária, mas estavam vazias. A seguir, pôs-se de cócoras diante do cofre e rodou a tranca entre o polegar e o indicador. Duas voltas para a direita, duas voltas para a esquerda.

— Em que estás a pensar?

— Estava a pensar quanto tempo ias levar a ter cá um serralheiro.

Bittel fez um sorriso triste.

— Talvez da próxima vez.

Sim, pensou Gabriel. Da próxima vez.

 

Voltaram para a estação de comboios, apanhando o que era supostamente a hora de ponta de Genebra. Ao atravessarem a Pont du Mont-Blanc, Bittel pressionou Gabriel para que este lhe fizesse um relato mais completo do caso. E quando as perguntas que lhe apresentou não suscitaram resposta, insistiu na necessidade de uma notificação prévia caso o itinerário de Gabriel incluísse mais uma visita à Suíça. Gabriel aceitou de imediato, ainda que ambos tivessem noção de que se tratava de uma promessa que não passava disso mesmo.

— A determinada altura — disse Bittel —, vamos ter de fazer uma limpeza àquela caixa-forte e devolver aqueles quadros aos legítimos proprietários.

— A determinada altura — concordou Gabriel.

— Quando?

— Não tenho maneira de te responder a isso.

— Digo-te que tens um mês. Depois disso, vou ter de comunicar o assunto à Polícia Federal.

— Se fizeres isso — respondeu Gabriel —, a coisa vai rebentar na imprensa e a Suíça vai ficar com mais outro olho negro.

— Já estamos habituados.

— E nós também.

Chegaram à estação a tempo de Gabriel apanhar o comboio das quatro e meia para Paris. Quando lá chegou, já estava escuro; entrou para um táxi que estava à espera e indicou ao taxista uma morada a uma pequena distância do apartamento seguro. Mas no momento em que o táxi entrou na rua, Gabriel sentiu o telemóvel a vibrar. Atendeu a chamada, ficou a ouvir em silêncio durante um momento e depois interrompeu a ligação.

— Mudança de planos — disse ao taxista.

— Para onde?

— Para a Rue de Miromesnil.

— Como queira.

Gabriel enfiou o telefone no bolso e sorriu. Iam a jogo, pensou. Iam sem dúvida a jogo.