O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 61 de 65

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O Assalto

59. Veneza

59

VENEZA

 

No canto noroeste do Campo di Ghetto Nuovo, encontra-se um pequeno e austero monumento de homenagem aos judeus de Veneza que, em dezembro de 1943, foram reunidos como gado, metidos em campos de concentração e assassinados em Auschwitz. O general Cesare Ferrari estava parado à frente dele quando Gabriel entrou na praça às seis e meia dessa tarde. Tinha a mão direita estropiada enfiada no bolso das calças. O olhar duro parecia mais crítico do que habitualmente.

— Não fazia ideia de que tinha acontecido aqui, em Veneza — disse depois de Gabriel se lhe ter juntado. — A rusga de Roma foi diferente. A de Roma foi demasiado grande para alguma vez poder ser esquecida. Mas aqui… — Olhou à volta da praça tranquila. — Não parece possível. — Gabriel ficou calado. O general avançou devagar e passou a mão defeituosa por uma das sete placas em baixo-relevo. — De onde foram tirados? — perguntou.

— Dali — respondeu Gabriel. — Apontou para o edifício de três andares à direita. O letreiro por cima da porta dizia casa israelitica di riposo. Era uma casa de repouso para os membros idosos da comunidade. — Quando a rusga acabou por acontecer — disse Gabriel passados uns instantes —, a maior parte dos judeus de Veneza já se tinha escondido. Os únicos que ainda restavam na cidade eram os velhos e os doentes. Foram arrancados das camas pelos alemães e pelos ajudantes italianos.

— E quantos vivem ali agora? — perguntou o general.

— Uns dez.

— Não são muitos.

— Não restam muitos.

O general voltou a olhar para o monumento.

— Não sei porque vive num sítio destes.

— Não vivo — respondeu Gabriel.

A seguir, perguntou ao general por que razão tinha voltado a Veneza.

— Tinha de supervisionar umas coisas no gabinete da Brigada de Arte aqui na cidade. E também quis assistir à reabertura da Igreja de San Sebastiano. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — Ouvi dizer que o retábulo principal está espantoso. Obviamente, conseguiu acabá-lo.

— Com algumas horas de avanço.

— Mazel tov.

— Grazie.

— E agora? — perguntou o general. — Quais são os seus planos?

— Vou passar o próximo mês a tentar ser o melhor marido que conseguir. E depois vou voltar para casa.

— As crianças estão quase a nascer, não é verdade?

— Quase — respondeu Gabriel.

— Sendo pai de cinco, posso garantir-lhe que a sua vida nunca mais vai ser a mesma.

No outro canto da praça, a porta do centro comunitário abriu-se e Chiara saiu para as sombras. Olhou para Gabriel e voltou a desaparecer na entrada do museu do gueto. O general pareceu não ter dado por ela; estava a olhar, de sobrancelhas franzidas, para a estrutura de metal verde, ao lado do monumento, onde um carabiniere fardado estava sentado atrás de um vidro à prova de bala.

— É uma vergonha que tenhamos de instalar um posto de segurança no meio deste sítio lindo.

— Infelizmente, não há nada a fazer dadas as circunstâncias.

— Porquê este ódio eterno? — perguntou o general, abanando a cabeça devagar. — Porque nunca acaba?

— Diga-me o senhor!

Tendo apenas o silêncio como resposta, Gabriel voltou a perguntar ao general por que razão tinha voltado a Veneza.

— Ando à procura de uma coisa há muito tempo — respondeu o italiano — e tinha esperança de que me pudesse ajudar a encontrá-la.

— E tentei — retorquiu Gabriel. — Mas parece ter-me escapado por entre os dedos.

— Ouvi dizer que até esteve muito perto.

O general baixou a voz e acrescentou:

— Mais perto do que percebeu.

— E como ouviu isso?

— Da maneira habitual. — O general olhou para Gabriel com uma expressão séria e perguntou: — Há alguma possibilidade de aceitar prestar declarações antes de sair do país?

— O que quer saber?

— Tudo o que aconteceu depois de ter roubado os Girassóis.

— Não os roubei. Pedi-os emprestados por sugestão do comandante da Brigada de Arte. E, por isso, a resposta é não — acrescentou Gabriel, abanando a cabeça. — Não me vou sentar para prestar declarações nenhumas, nem agora nem nunca.

— Então talvez possamos trocar impressões discretamente.

— Lamento, mas as minhas impressões são secretas.

— Ainda bem — respondeu o general, sorrindo. — Porque as minhas também são.

 

Atravessaram a praça na direção de um café kosher ao lado do centro comunitário e dividiram uma garrafa de Pinot Grigio enquanto a escuridão se ia adensando à volta deles. Gabriel começou por obrigar o general a aceitar uma omertà e ameaçou-o com represálias se essa jura de silêncio fosse alguma vez quebrada. A seguir, contou-lhe tudo o que acontecera desde a última vez que se tinham encontrado, começando pela morte de Samir Basara, em Estugarda, e acabando com a descoberta, e entrega final, de oito mil milhões de dólares em ativos pertencentes ao presidente da Síria.

— Calculo que isto tenha alguma coisa que ver com aqueles dois banqueiros sírios que desapareceram na Áustria — disse o general quando Gabriel acabou.

— Quais banqueiros sírios?

— Vou considerar que isso é um sim. — Bebeu um pouco do vinho. — Então, o Jack Bradshaw recusou-se a entregar o Caravaggio porque os sírios mataram a única mulher que ele amou? É isso que me está a dizer? — Gabriel assentiu lentamente com a cabeça e observou um par de estudantes yeshiva de casaco preto a atravessar a praça. — Agora já sei porque me obrigou a jurar que não referia o nome do Bradshaw durante a conferência de imprensa — estava a dizer o general. — Não queria que eu arrastasse o nome dele na lama postumamente. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — Queria que ele descansasse em paz.

— Ele merece isso.

— Porquê?

— Porque o torturaram impiedosamente e ele não lhes disse o que tinha feito ao quadro.

— Acredita na redenção, Allon?

— Sou restaurador — respondeu Gabriel.

O general sorriu.

— E os quadros que descobriu no Freeport de Genebra? — perguntou. — Como os conseguiu tirar da Suíça tão discretamente?

— Com a ajuda de um amigo.

— Um amigo suíço?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— Não sabia que tal coisa fosse possível. — Desta vez, foi Gabriel quem sorriu. Os estudantes yeshiva entraram num sottoportego e desapareceram. A praça estava vazia, excetuando duas crianças, um rapaz e uma rapariga, que estavam a atirar uma bola um ao outro sob o olhar atento dos pais. — A pergunta é — disse o general espreitando para dentro do copo de vinho — o que o Jack Bradshaw fez com o Caravaggio.

— Calculo que o tenha posto num sítio qualquer onde achava que ninguém o iria descobrir.

— Talvez — respondeu o general. — Mas não é isso que se diz por aí.

— E o que tem ouvido dizer?

— Que ele o deu a guardar a alguém.

— Alguém no lado desonesto do ramo?

— É difícil dizer. Mas como deve supor — acrescentou o general muito depressa —, agora há outras pessoas à procura dele. O que quer dizer que é imperativo que o encontremos primeiro. — Gabriel ficou calado. — Nem sequer se sente tentado, Allon?

— O meu envolvimento neste caso chegou oficialmente ao fim.

— Parece que, desta vez, está mesmo a falar a sério.

— E estou.

A família das quatro pessoas foi-se embora, deixando o campo deserto. O silêncio pesado parecia perturbar o general. Olhou para as luzes que brilhavam nas janelas da Casa Israelitica di Riposo e abanou a cabeça devagarinho.

— Não compreendo porque quer viver num gueto — disse.

— É um bairro simpático — respondeu Gabriel. — O mais simpático de Veneza, se quer a minha opinião.