O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 33 de 65

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O Assalto

31. Jerusalém

31

 

JERUSALÉM

 

O repicar dos sinos da igreja acordou Gabriel de um sono sem sonhos. Ficou ali deitado um momento, sem se mexer nem ter a certeza absoluta de onde estava. Foi então que viu o retrato taciturno pintado por Leah a fitá-lo da parede e percebeu que estava no quarto do apartamento na Rua Narkiss. Saiu da cama sem fazer barulho, para não acordar Chiara, e foi para a cozinha pé ante pé. O único sinal do jantar que tinham tido na noite anterior era o cheiro forte e doce das flores a murcharem nas jarras. Em cima do balcão imaculado, encontrava-se uma cafeteira com êmbolo e uma lata de Lavazza. Gabriel pôs a chaleira no fogão e ficou a olhar para ela enquanto esperava que a água fervesse.

Bebeu o café na varanda e leu os jornais matutinos no BlackBerry. A seguir, entrou silenciosamente na casa de banho para fazer a barba e tomar um duche. Quando de lá saiu, Chiara ainda estava a dormir profundamente. Abriu o armário e ficou ali parado um momento, a pensar no que devia vestir. Concluiu que um fato não seria apropriado; poderia fazer com que as tropas achassem que já estava ao comando. Acabou por se decidir pela indumentária habitual: umas calças de ganga azuis desbotadas, um pulôver de algodão e um casaco de cabedal. Shamron tinha tido um uniforme próprio, pensou, e ele também iria ter.

Passavam poucos minutos das oito quando ouviu a coluna automóvel a interromper o silêncio da Rua Narkiss. Beijou Chiara delicadamente e depois foi ter com a limusina que o esperava lá fora. A viagem fê-lo atravessar Jerusalém, em direção a leste, até ao Portão de Dung, a entrada principal para o Bairro Judeu da Cidade Antiga. Passou pelos detetores de metais e, ladeado pelos guarda-costas, percorreu a praça ampla até à Muralha Ocidental, o muito controverso resquício da antiga barreira de retenção que em tempos rodeara o grande Templo de Jerusalém. Por cima da Muralha, brilhando à luz do sol do início da manhã, encontrava-se a dourada Cúpula do Rochedo, o terceiro santuário mais sagrado do islão. O conflito israelo-árabe tinha muitas particularidades, mas Gabriel chegara à conclusão de que tudo se resumia ao seguinte: duas religiões envolvidas numa luta até à morte pela mesma parcela de terra sagrada. Podia haver períodos de tranquilidade, meses ou mesmo anos sem bombas nem sangue; mas Gabriel temia que nunca houvesse paz verdadeira.

A parte da Muralha Ocidental que era visível da praça tinha 57 metros de largura e 19 de altura. Mas a verdadeira muralha de retenção ocidental do planalto do Monte do Templo era muito maior, indo 13 metros abaixo da praça e prolongando-se por mais de 400 metros até ao Bairro Muçulmano, onde se encontrava escondida atrás de estruturas residenciais. Depois de anos de escavações arqueológicas política e religiosamente tensas, era agora possível percorrer a pé quase toda a muralha pelo Túnel da Muralha Ocidental, uma passagem subterrânea que ligava a praça à Via Dolorosa.

A entrada para o túnel ficava do lado esquerdo da praça, não muito longe do Arco de Wilson. Gabriel entrou discretamente pela moderna porta de vidro e, com os guarda-costas logo atrás, desceu uma escada de alumínio estreita. Uma passagem recém-pavimentada prolongava-se pela base da muralha. Passando pelos gigantescos silhares herodianos, seguiu-a até chegar a uma parte do complexo do túnel escondida por uma cortina de plástico opaco. Do outro lado da cortina, encontrava-se uma vala de escavação onde uma única figura, um homem já perto da terceira idade, esgravatava a terra sob um cone de uma luz branca fraca. Pareceu não dar pela presença de Gabriel, o que não era o caso. Seria mais fácil surpreender um esquilo do que Eli Lavon.

Passou mais um momento até Lavon olhar para cima e sorrir. Tinha cabelo ralo impossível de pentear e uma cara insípida, quase anónima, que mesmo o mais talentoso dos retratistas teria dificuldade em captar num quadro. Eli Lavon era mais um fantasma do que um homem, um camaleão que facilmente passava despercebido e depressa era esquecido. Shamron dissera uma vez que ele era capaz de desaparecer enquanto apertava a mão a alguém. Não estava muito longe da verdade.

Gabriel tinha trabalhado com Lavon pela primeira vez durante a Ira de Deus, a operação clandestina dos serviços secretos israelitas destinada a caçar e matar os autores do massacre das Olimpíadas de Munique. No léxico do Departamento, fundado no hebraico, Lavon tinha sido um ayin, um especialista a seguir pessoas e artista de vigilância. Ao longo de três anos, perseguira os terroristas do Setembro Negro pela Europa e pelo Médio Oriente, muitas vezes perigosamente perto. Essa atividade tinha-o deixado com inúmeras perturbações de ansiedade, incluindo um estômago reconhecidamente instável que o continuava a apoquentar.

Quando a unidade se separou, em 1975, Lavon instalou-se em Viena, onde abriu um pequeno escritório de investigação chamado Reclamações e Investigações Relativas ao Tempo de Guerra. Atuando com orçamentos exíguos, conseguiu localizar milhões de dólares correspondentes a bens saqueados durante o Holocausto e desempenhou um papel importante na obtenção de uma indemnização de muitos milhares de milhões de dólares por parte dos bancos suíços. Foi uma atividade que lhe granjeou poucos admiradores em Viena e, em 2003, uma bomba explodiu-lhe no escritório, matando duas jovens funcionárias. Destroçado, regressou a Israel para se dedicar ao primeiro amor, a arqueologia. Atualmente, era professor adjunto de arqueologia bíblica na Universidade Hebraica de Jerusalém e participava regularmente em escavações pelo país. Tinha passado grande parte dos últimos dois anos a examinar com toda a atenção o solo do Túnel da Muralha Ocidental.

— Quem são os teus amiguinhos? — perguntou, olhando de soslaio para os guarda-costas que se encontravam na borda da vala de escavação.

— Dei com eles a deambular pela praça, perdidos.

— Não estão a estragar nada, pois não?

— Nunca se atreveriam.

Lavon baixou os olhos e retomou o trabalho.

— O que tens aí? — perguntou Gabriel.

— Uns trocos.

— E quem os deixou aí?

— Uma pessoa que estava chateada com o facto de os Persas estarem prestes a conquistar Jerusalém. É óbvio que estava com pressa.

Lavon esticou o braço e ajustou o ângulo da lâmpada de trabalho. O fundo da trincheira reluziu com o brilho dos pedaços de ouro lá encrustados.

— O que é isso? — perguntou Gabriel.

— Trinta e seis moedas de ouro da época bizantina e um medalhão grande com uma menorá. São a prova de que havia judeus a viver neste sítio antes de os muçulmanos conquistarem Jerusalém, em 638. Para a maioria dos arqueólogos bíblicos, isto seria a descoberta de uma vida. Mas para mim, não.

Lavon olhou para Gabriel e acrescentou:

— Nem para ti.

Gabriel olhou por cima do ombro, para os silhares da Muralha. Um ano antes, numa câmara secreta a 51 metros abaixo da superfície do Monte do Templo, ele e Lavon tinham descoberto vinte e dois pilares do Templo de Jerusalém de Salomão, provando assim, sem sombra de dúvida, que o antigo santuário judaico, descrito no Livro dos Reis e no Livro das Crónicas, existira de facto. E também descobrira uma bomba gigantesca que, a ter sido detonada, teria destruído todo o planalto sagrado. Atualmente, os pilares faziam parte de uma exposição com grandes medidas de segurança, no Museu de Israel. Um precisara de uma limpeza especial antes de poder ser apresentado, pois estava manchado com o sangue de Lavon.

— O Uzi telefonou-me ontem à noite — disse Lavon passado um momento. — Disse-me que eras capaz de aparecer.

— E explicou-te porquê?

— Disse qualquer coisa sobre um Caravaggio desaparecido e uma empresa chamada LXR Investments. Disse que estavas interessado em adquiri-la, tal como ao resto da Evil Incorporated.

— E achas que pode ser feito?

— Há limites para o que é possível fazer do exterior. Mais tarde ou mais cedo, vais precisar da ajuda de alguém que te possa arranjar as chaves do reino.

— Então vamos encontrar essa pessoa.

— Vamos?

Quando Gabriel não respondeu, Lavon debruçou-se e começou a esgravatar a terra em redor de uma das moedas antigas.

— O que precisas que eu faça?

— O que estás a fazer neste preciso momento, sem tirar nem pôr — respondeu Gabriel. — Mas quero que te sirvas de um computador e de um balancete em vez de uma colher de trolha e de um pincel.

— Nos tempos que correm, prefiro uma colher de trolha e um pincel.

— Eu sei, Eli, mas não consigo fazer isto sem ti.

— Não vai haver nada de violências, pois não?

— Não, Eli, é claro que não.

— Dizes sempre isso, Gabriel.

— E?

— Há sempre violência.

Gabriel baixou-se e desligou a lâmpada da fonte de energia. Lavon continuou a trabalhar, às escuras, por mais um momento. A seguir, levantou-se, limpou as mãos às calças e trepou para fora da vala.

 

Solteiro inveterado, Lavon tinha um pequeno apartamento no bairro de Talpiot, em Jerusalém, logo à saída da Estrada de Hebron. Pararam lá apenas para ele poder mudar de roupa e depois seguiram pelo Bab al-Wad até à Avenida Rei Saul. Após entrarem no edifício pela garagem subterrânea, desceram três lanços de escadas e percorreram um corredor vazio até chegarem a uma porta com o número 456C. A sala que se encontrava do lado de lá tinha sido em tempos um local de despejo para computadores obsoletos e mobília gasta, utilizado muitas vezes pelo pessoal da noite para escapadelas românticas. Agora, era conhecida pela Avenida Rei Saul inteira simplesmente como o Covil de Gabriel.

O código secreto do teclado automático era a versão numérica da data de nascimento de Gabriel, supostamente o segredo mais bem protegido do Departamento. Com Lavon a espreitar-lhe por cima do ombro, Gabriel marcou o código no teclado e abriu a porta. Lá dentro, estava Dina Sarid, uma mulher pequena e de cabelo escuro com um ar de viúva precoce. Uma base de dados humana, era capaz de recitar a hora, o lugar, os autores e o número de mortos de todos os atos de terrorismo cometidos contra alvos israelitas e ocidentais. Dina tinha dito uma vez a Gabriel que sabia mais sobre os terroristas do que estes sobre si próprios. E Gabriel acreditara.

— Onde estão os outros? — perguntou.

— Enfiados na divisão de Pessoal.

— O que está a atrasar as coisas?

— Pelos vistos, os chefes das divisões estão em processo de revolta.

Dina fez uma pausa e depois acrescentou:

— É o que acontece a um serviço secreto quando se fica a saber que o chefe já não vai durar muito.

— Se calhar, eu devia ir lá acima dar uma palavrinha aos chefes das divisões.

— Aguenta uns minutos.

— As coisas têm andado muito más?

— Preparei uma lista de agentes da Al-Qaeda que se instalaram aqui ao lado, na Síria, jihadistas mundiais da pior espécie, que precisam de ser postos fora de circulação permanentemente. E adivinha lá o que acontece sempre que eu proponho uma operação?

— Nada.

Dina assentiu com a cabeça lentamente.

— Estamos completamente paralisados — explicou. — Andamos a marcar passo na altura em que nos podemos dar menos ao luxo disso.

— Mas isso vai acabar, Dina.

Foi então que a porta se abriu e Rimona Stern entrou na sala. Mikhail Abramov apareceu depois a passos largos, seguido passados uns minutos por Yaakov Rossman, que parecia já não dormir há um mês. Pouco tempo depois, surgiram dois versáteis agentes de campo chamados Mordecai e Oded e, por último, Yossi Gavish, uma figura alta e já meio calva, com roupa de bombazina e tweed. Yossi era um dos principais agentes dentro da Investigação, o nome que o Departamento dava à sua divisão analítica. Nascido em Londres, na zona de Golders Green, tinha estudado em Oxford e ainda falava hebraico com um sotaque inglês pronunciado.

Nos corredores e salas de conferência da Avenida Rei Saul, os oito homens e mulheres que se encontravam na sala subterrânea eram conhecidos pelo nome de código Barak, a palavra hebraica para relâmpago, devido à capacidade de se reunirem e atacarem rapidamente. Eram um serviço dentro de outro serviço, uma equipa de agentes sem igual nem medo. Ao longo da sua existência, fora por vezes necessário dar entrada a gente de fora — uma jornalista de investigação britânica, um bilionário russo, a filha de um homem que tinham matado —, mas nunca haviam permitido que outro agente do Departamento se juntasse a essa irmandade. Por isso mesmo, mostraram-se todos surpreendidos quando, às dez em ponto, Bella Navot surgiu à entrada da sala. Vinha vestida para uma reunião, com um fato de calças e casaco cinzento, e trazia uma série de dossiês encostados ao peito. Ficou ali parada à porta um momento, como se estivesse à espera que a convidassem para entrar, e depois, sem dizer uma única palavra, sentou-se ao lado de Yossi, numa das mesas de trabalho.

Se a equipa se sentiu incomodada com a presença de Bella, não o demonstrou. Gabriel levantou-se e dirigiu-se para o último quadro preto em toda a Avenida Rei Saul. Estavam lá escritas quatro palavras: o sangue nunca dorme. Apagou-as de uma só vez e, no lugar delas, escreveu três letras: lxr. A seguir, relatou à equipa a extraordinária sequência de acontecimentos que tinha acelerado a reunião deles, começando pelo assassínio de um espião britânico tornado contrabandista de arte chamado Jack Bradshaw e terminando com a carta que o mesmo deixara a Gabriel no cofre-forte do Freeport de Genebra. Ao morrer, Bradshaw tinha tentado expiar os pecados revelando a Gabriel a identidade do homem que andava a comprar quadros roubados às carradas: o presidente assassino da Síria. E também fornecera a Gabriel o nome da empresa-fachada que esse presidente utilizara nas compras: a LXR Investments of Luxembourg. Sem dúvida que a LXR era apenas uma pequena estrela numa galáxia de riqueza à escala mundial, sendo que grande parte se encontrava escondida por baixo de camadas de empresas-fachada e testas de ferro. Mas uma rede de riqueza, tal como uma rede de terroristas, tinha de ter um cabecilha talentoso no que respeitava a operações para poder funcionar. O presidente confiara o dinheiro da família a Kemel al-Farouk, o guarda-costas do pai, o capanga que torturara e matara a mando do regime. Mas Kemel não era capaz de gerir o dinheiro sozinho, com a NSA e respetivos parceiros a monitorizarem cada passo que dava. Havia algures um homem de confiança — um advogado, um banqueiro, um familiar — com capacidade para movimentar esses ativos a bel-prazer. Iam servir-se da LXR para o descobrir. E Bella Lavon ia conduzi-los passo a passo.