O Assalto
32. Avenida Rei Saul, Telavive
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AVENIDA REI SAUL, TELAVIVE
Começaram a busca investigando não o filho mas o pai: o homem que tinha governado a Síria desde 1970 até morrer de ataque cardíaco em 2000. Nascera nas montanhas de Djebel Ansari, no Noroeste da Síria, em outubro de 1930, na aldeia de Qurdaha. Tal como as outras aldeias da região, Qurdaha pertencia aos alauitas, seguidores de um minúsculo e perseguido ramo xia do islão e que a maioria dos sunitas considerava serem hereges. Qurdaha não tinha mesquita nem igreja, nem sequer um único café ou loja, mas a chuva caía dos céus trinta dias por ano e havia uma fonte de água mineral, numa gruta lá perto, a que os habitantes da aldeia chamavam ‘Ayn Zarqa. O nono de onze filhos, vivia numa casa de pedra de duas assoalhadas, com um patiozinho na parte da frente, com terra batida, e, logo ao lado, uma pequena extensão de lama para os animais. O avô, uma celebridade menor na aldeia, com jeito para utilizar os punhos e pistolas, era conhecido como Al-Wahhish, o Selvagem, por em tempos ter espancado um lutador ambulante turco. O pai era capaz de enfiar uma bala numa mortalha de cigarro a cem passos de distância.
Em 1944, saiu de Qurdaha para ir para a escola na cidadezinha costeira de Latakia. Foi lá que se começou a envolver na política, filiando-se no novo Partido Árabe Socialista Baath, um movimento secular que procurava terminar com a influência ocidental no Médio Oriente por via de um socialismo pan-árabe. Em 1951, entrou para uma academia militar em Alepo, um percurso tradicional para um alauita a tentar escapar-se das amarras da pobreza das montanhas, e, em 1964, já comandava a força aérea síria. Após um golpe de Estado baathista, em 1966, tornou-se ministro da Defesa sírio, cargo que exerceu durante a desastrosa guerra da Síria com Israel, em 1967, altura em que perdeu o domínio dos montes Golã. Apesar do fracasso catastrófico das forças que chefiava, tornar-se-ia presidente da Síria no espaço de apenas três anos. Num sinal do que o futuro traria, referiu-se como «movimento corretivo» ao golpe de Estado sem derramamento de sangue que o levou ao poder.
Foi uma ascensão que pôs fim a um longo ciclo de instabilidade política na Síria, mas com um elevado preço a pagar pelo povo sírio e pelo resto do Médio Oriente. Cliente da União Soviética, o regime era um dos mais perigosos da região. O presidente apoiou elementos radicais do movimento palestiniano — Abu Nidal agiu com impunidade desde Damasco durante anos — e equipou o exército com todas as novidades em matéria de defesas aéreas, tanques e soldados soviéticos. A própria Síria tornou-se uma prisão gigantesca, onde os faxes foram proibidos e uma palavra mal medida acerca do presidente resultava numa viagem até Mezzeh, a infame prisão no cimo de uma colina, na zona oeste de Damasco. Quinze serviços de segurança espiavam o povo sírio ao mesmo tempo que se espiavam uns aos outros. Estavam todos nas mãos dos alauitas, tal como o exército sírio. Um complexo culto da personalidade cresceu à volta do presidente e da família. A cara dele, com uma testa curva e tez adoentada, avultava sobre todas as praças e surgia nas paredes de todos os edifícios públicos do país. A mãe, uma camponesa, era adorada quase como se fosse uma santa.
No entanto, no espaço de uma década após a subida ao poder, grande parte da maioria sunita do país já não via com bons olhos ser governada por um camponês alauita de Qurdaha. As bombas explodiam regularmente em Damasco e, em junho de 1979, um membro da Irmandade Muçulmana matou pelo menos cinquenta cadetes alauitas no refeitório da academia militar de Alepo. Um ano mais tarde, militantes islâmicos lançaram um par de granadas ao presidente durante uma cerimónia diplomática em Damasco — altura em que o estouvado irmão do presidente declarou guerra aberta à Irmandade e aos respetivos apoiantes muçulmanos sunitas. Um dos seus primeiros atos foi enviar unidades das Companhias de Defesa, os guardiões do regime, para a prisão de Palmira, no deserto. De acordo com as estimativas, oitocentos prisioneiros políticos foram chacinados nas celas.
Mas foi na cidade de Hama, um foco de atividade da Irmandade Muçulmana nas margens do rio Orontes, que o regime demonstrou até onde seria capaz de ir para garantir a sobrevivência. Com o país à beira de uma guerra civil, as Companhias de Defesa entraram na cidade ao início da manhã de 2 de fevereiro de 1982, com várias centenas de agentes da temível polícia secreta Mukhabarat. O que se seguiu foi o pior massacre dos tempos modernos no Médio Oriente, um frenesim de mortes, tortura e destruição que durou um mês e deixou no mínimo vinte mil pessoas mortas e uma cidade reduzida a escombros. O presidente nunca negou o massacre nem procurou fugir ao número de mortos. Aliás, deixou que a cidade ficasse durante meses em ruínas para que não se esquecessem do que aconteceria a quem se atrevesse a desafiá-lo. No Médio Oriente, passou a estar na moda uma nova expressão: as Regras de Hama.
O presidente nunca mais voltou a enfrentar uma ameaça séria. Com efeito, num plebiscito presidencial de 1991, conquistou 99,9 por cento dos votos, o que levou um comentador sírio a assinalar que nem Alá se teria saído tão bem. Contratou um arquiteto famoso para lhe construir um sumptuoso palácio presidencial e, conforme a saúde se foi deteriorando, começou a pensar num sucessor. O estouvado irmão mais novo tentou usurpar o poder quando o presidente ficou incapacitado pela doença e o resultado foi o exílio. O adorado filho mais velho, soldado e campeão de hipismo, morreu violentamente num desastre de automóvel. Sobrava apenas o filho do meio, um afável oftalmologista educado em Londres para assumir o comando do negócio da família.
Os primeiros anos de governação foram repletos de esperança e expectativas. Concedeu aos concidadãos acesso à Internet e permitiu-lhes viajar para fora do país sem precisarem de assegurar primeiro autorização por parte do governo. Jantava em restaurantes com a mulher, uma pessoa que gostava de se vestir bem, e libertou várias centenas de prisioneiros políticos. Hotéis de luxo e centros comerciais alteraram a linha dos telhados das enfadonhas Damasco e Alepo. Os cigarros ocidentais, outrora proibidos pelo pai, começaram a aparecer nas prateleiras das lojas sírias.
Depois, surgiu a grande Primavera Árabe. Os sírios deixaram-se ficar a observar enquanto a velha ordem se desmoronava à volta deles, como se tivessem uma premonição do que estava a caminho. Foi então que, em março de 2011, quinze jovens se atreveram a pintar grafítis antirregime na parede de uma escola em Daraa, uma pequena povoação agrícola a noventa e seis quilómetros para sul de Damasco. A Mukhabarat foi lesta a prender os rapazes e aconselhou os pais que fossem para casa fazer mais filhos, já que nunca mais iam voltar a ver aqueles. Daraa explodiu em manifestações de protesto, que se espalharam rapidamente a Homs, Hama e, por fim, a Damasco. No espaço de um ano, a Síria estaria mergulhada numa guerra civil a toda a escala. E o filho, tal como o pai antes dele, seguiria as Regras de Hama.
Mas onde estava o dinheiro? O dinheiro que durante duas gerações tinha sido saqueado do tesouro público sírio. O dinheiro que tinha sido retirado de empreendimentos estatais sírios e canalizado para os bolsos do presidente e dos parentes alauitas de Qurdaha. Uma parte encontrava-se escondida dentro de uma empresa chamada LXR Investments of Luxembourg e foi lá que Gabriel e a equipa iniciaram as investigações. Que, inicialmente, foram bem-educadas e, por isso mesmo, completamente insatisfatórias. Uma pesquisa simples na Internet revelou que a LXR não tinha site na Internet e que não aparecera em nenhuma notícia nem comunicado de relações públicas, tanto comercial ou outro. Havia uma pequena referência no registo comercial luxemburguês, mas em que não apareciam nomes de investidores nem diretores da LXR — apenas uma morada, que se revelou ser das instalações de um advogado de direito das empresas. Para Eli Lavon, o investigador financeiro mais experiente da equipa, era evidente que a LXR era um caso clássico de um instrumento utilizado por alguém que queria investir dinheiro anonimamente. Era uma não-entidade, uma empresa fantasma, uma fachada dentro de uma fachada.
Ampliaram a pesquisa de modo que incluísse os registos comerciais da Europa Ocidental. E quando isso mal trouxe resultados, vasculharam os registos fiscais e imobiliários de todos os países onde tais documentos se encontrassem disponíveis. Nenhuma dessas pesquisas produziu correspondências, com exceção do Reino Unido, onde ficaram a saber que a LXR Investments era a arrendatária oficial de um prédio comercial na King’s Road, no bairro de Chelsea, que estava ocupado por uma conhecida empresa de roupa feminina. O advogado que representava a LXR no Reino Unido trabalhava para uma pequena sociedade localizada em Southwark, em Londres. Chamava-se Hamid Khaddam. Tinha nascido em novembro de 1964, na aldeia de Qurdaha, na Síria.
Habitava numa vivenda, no bairro londrino de Tower Hamlets, com a mulher, Aisha, nascida em Bagdade, e três filhas adolescentes, que já estavam demasiado ocidentalizadas para o gosto dele. Apanhava o metro para o emprego todas as manhãs, embora por vezes, quando chovia ou estava atrasado, se desse ao pequeno luxo de ir de táxi. Os escritórios da sociedade de avogados ficavam num pequeno edifício em tijolo, na Great Suffolk Street, bastante longe das moradias elegantes de Knightsbridge e Mayfair. Ao todo, eram oito advogados — quatro sírios, dois iraquianos, um egípcio e um jovem e espalhafatoso jordano que afirmava ainda ser da família dos governantes hachemitas do seu país. Hamid Khaddam era o único alauita. Tinha uma televisão no escritório, que estava sempre a transmitir a Al Jazeera. No entanto, recebia a maior parte das notícias lendo blogues do Médio Oriente em árabe. Todos com uma inclinação editorial pró-regime.
Mostrava-se cuidadoso na vida pessoal e profissional, mas não cuidadoso ao ponto de perceber que estava a ser alvo de um ataque dos serviços secretos que era tão abrangente como discreto. Teve início na manhã depois de a equipa ter descoberto o nome dele, quando Mordecai e Oded caíram de paraquedas em Londres, com passaportes canadianos nos bolsos e malas cheias dos instrumentos, bem disfarçados, do ofício. Durante dois dias, vigiaram-no à distância. E depois, na manhã do terceiro, Mordecai, com os seus dedos ágeis, conseguiu apoderar-se por breves instantes do telemóvel de Khaddam enquanto este ia de metro na Central Line, de Mile End para Liverpool Street. O software que Mordecai introduziu no sistema operativo do aparelho deu à equipa acesso em tempo real ao correio eletrónico, às mensagens de texto, aos contactos, às fotografias e às comunicações de voz de Khaddam. E também transformou o aparelho num transmissor a tempo inteiro, o que queria dizer que onde quer que Hamid Khaddam fosse, a equipa iria com ele. E, mais ainda, fora-lhes concedida entrada para a rede informática da sociedade e para o computador de secretária que Hamid Khaddam tinha em casa. Nas palavras de Eli Lavon, era a dádiva que não parava de dar.
Os dados iam fluindo do telemóvel de Khaddam para um computador da base de Londres e da base de Londres seguiam de forma segura para o Covil de Gabriel, nas profundezas da Avenida Rei Saul. Era aí que a equipa os analisava minuciosamente, número de telemóvel atrás de número de telemóvel, endereço de correio eletrónico atrás de endereço de correio eletrónico, nome atrás de nome. A LXR Investments apareceu num e-mail para um advogado sírio, em Paris, e num segundo e-mail, enviado a um contabilista de Bruxelas. A equipa seguiu as duas linhas de investigação, mas o fio desfez-se muito antes de chegar a Damasco. Efetivamente, não encontraram nada no conjunto desse material que desse a entender que Khaddam estivesse em contacto com quaisquer elementos do regime sírio ou da alargada família do presidente. Lavon declarou que ele era um elemento de pouca monta que tratava de recados financeiros a mando de uma autoridade mais importante. Aliás, disse que era possível que o insignificante advogado sírio estabelecido em Londres nem sequer soubesse para quem estava a trabalhar.
E, por isso mesmo, continuaram a escavar e a analisar tudo cuidadosamente enquanto iam discutindo e, à volta deles, o resto da Avenida Rei Saul os observava e aguardava com impaciência. As regras da compartimentação significavam que apenas um punhado de agentes mais destacados se encontravam a par da natureza do trabalho deles, mas o fluxo de dossiês que ia passando da Investigação para a Sala 456C iluminava claramente o percurso que estavam a seguir. Não demorou muito para que se espalhasse a notícia do regresso de Gabriel ao edifício. E também não era segredo que Bella Navot, a mulher do rival que Gabriel derrotara, estava a trabalhar fielmente ao lado dele. Floresceram os rumores. Rumores de que Navot se estava a preparar para entregar as rédeas a Gabriel antes do final do mandato. Rumores de que Gabriel e o primeiro-ministro estavam na realidade a tentar apressar a saída de Navot. E até correu o rumor de que Bella se pretendia divorciar do marido assim que ele fosse despojado dos adornos do poder. Tudo isso conheceu um fim na tarde em que Gabriel e os Navot foram vistos a almoçar prazenteiramente na sala de jantar do diretor. Navot estava a comer peixe escalfado com legumes cozidos a vapor, sinal de que tinha aderido uma vez mais às draconianas restrições alimentares impostas por Bella. De acordo com os rumores, seguramente que não se submeteria à vontade de uma mulher que pretendesse deixá-lo.
Mas não havia maneira de negar que o Departamento ganhara nova vida nos dias que se seguiram ao regresso de Gabriel. Era como se o edifício inteiro estivesse a limpar as teias de aranha depois de um longo período de inatividade em matéria de operações. Havia a sensação de um ataque iminente, ainda que as tropas não fizessem ideia de onde iria acontecer esse ataque nem que forma assumiria. Até Bella parecia afetada pela mudança que tinha atingido o serviço dirigido pelo marido. Mudou de aspeto radicalmente. Trocou os fatos à Fortune 500 por calças de ganga e uma camisola e começou a apanhar o cabelo num desleixado rabo de cavalo digno de uma universitária. Era assim que Gabriel se lembraria sempre dela, a jovem e entusiasta analista de sandálias e camisa amarrotada, a labutar à secretária muito depois de todas as outras pessoas terem dado o dia por terminado e ido para casa. Não era à toa que Bella era considerada a maior especialista do país em questões relacionadas com a Síria; trabalhava mais do que qualquer outra pessoa e não precisava de coisas como comer ou dormir. E também possuía uma vontade implacável de ser bem-sucedida, fosse no campo académico ou no interior da Avenida Rei Saul. Gabriel sempre se tinha interrogado se, com os anos, um bocadinho dos baathistas não teria passado para ela. Bella era uma matadora nata.
Era uma reputação que a precedia, obviamente, e foi por isso compreensível que, de início, a equipa tivesse mantido uma distância cortês. Mas a pouco e pouco foram deixando cair as defesas e passados uns dias já a tratavam como se ela tivesse estado com eles desde o princípio. Quando a equipa começava uma das suas lendárias discussões, Bella ficava invariavelmente do lado que saía vencedor. E quando se reuniam à noite para o tradicional jantar de família, Bella deixava o marido fazer o que queria e juntava-se a eles. Tinham por hábito não falar do caso às refeições, por isso discutiam o lugar de Israel num mundo árabe em mudança. Tal como as grandes potências ocidentais, Israel sempre preferira os tiranos árabes às gentes das ruas árabes. Nunca estabelecera a paz com um democrata árabe, só com ditadores e potentados. Durante várias décadas, os tiranos tinham providenciado um pouco de estabilidade no plano regional, mas com um preço terrível para as pessoas que viviam sob o jugo deles. Os números não mentiam e Bella, estudiosa do regime mais cruel da região, era capaz de os recitar de cor. Apesar da gigantesca riqueza em petróleo, um quinto do mundo árabe sobrevivia com menos de dois dólares por dia. Sessenta e cinco milhões de árabes, a maioria mulheres, não sabiam ler nem escrever e havia milhões sem qualquer tipo de instrução. Outrora pioneiros nos campos da matemática e da geometria, os Árabes tinham-se atrasado calamitosamente em relação ao mundo desenvolvido no que dizia respeito à investigação científica e tecnológica. Ao longo do milénio precedente, os árabes tinham traduzido menos livros do que a Espanha num único ano. Em muitas partes do mundo árabe, o Alcorão era o único livro que interessava.
Mas como, perguntou Bella, se tinha chegado a isso? Seguramente que o islamismo radical desempenhara o seu papel, mas o dinheiro também. Dinheiro que os ditadores e os potentados gastaram consigo próprios e não com o povo. Dinheiro que saía do mundo árabe para os bancos privados de Genebra, de Zurique e do Liechtenstein. Dinheiro que Gabriel e a equipa andavam desesperadamente a tentar encontrar. À medida que os dias se arrastavam, foram batendo em muros de tijolo, becos sem saída, buracos secos e portas que não conseguiam abrir. E foram lendo os e-mails de um insignificante advogado londrino chamado Hamid Kaddham e ouvindo com atenção enquanto ele fazia o dia a dia normal: viagens de metro, reuniões com clientes sobre assuntos importantes e não tanto, desavenças triviais com os sócios pan-árabes. E ouviram-no também a regressar todas as noites à vivenda de Tower Hamlets onde vivia na companhia de quatro mulheres. Numa dessas noites, teve uma discussão escaldante com a filha mais velha sobre o comprimento da saia que ela queria levar para uma festa onde estariam rapazes. Tal como a rapariga, a equipa mostrou-se agradecida quando o telemóvel o interrompeu. A conversa durou dois minutos e dezoito segundos. Quando terminou, Gabriel e a equipa perceberam que tinham encontrado por fim o homem que procuravam.