O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 60 de 65

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O Assalto

Quinta Parte: Uma Última Janela

QUINTA PARTE

 

 

UMA ÚLTIMA JANELA

58

VENEZA

 

Durante os nove dias que se seguiram, o mundo da arte girou suavemente no seu eixo dourado, ignorando ditosamente as riquezas perdidas que não tardariam a fluir na sua direção. Foi então que, numa tarde abafada no princípio de agosto, o diretor-geral do Rijksmuseum Vincent van Gogh anunciou que os Girassóis, óleo sobre tela, 95 centímetros por 73 centímetros, voltara para casa. O diretor recusou dizer onde a obra-prima tinha sido encontrada ao certo, embora, mais tarde, se viesse a saber que fora deixada num quarto de hotel em Amesterdão. O quadro não sofrera qualquer dano durante o longo cativeiro; de facto, disse o diretor-geral, até parecia melhor do que na altura do roubo. O chefe da polícia holandesa ficou com os créditos da recuperação, embora não tivesse tido rigorosamente nada que ver com isso. Julian Isherwood, presidente do Comité para a Proteção da Arte, emitiu um comunicado hiperbólico em Londres, falando de «um grande dia para a humanidade e tudo o que é honrado e belo neste mundo». Nessa noite, foi visto na mesa habitual no Green’s Restaurant, acompanhado por Amanda Clifton, da Sotheby’s. Mais tarde, todos os que lá estavam iriam descrever a expressão dela como de encantamento. Constou que Oliver Dimbleby estava a ferver de inveja.

Só Julian Isherwood, o ajudante secreto de espiões, e de um espião em especial, sabia que estavam para chegar mais objetos valiosos. Iria passar-se outra semana, o tempo suficiente, dir-se-ia mais tarde, para a euforia por causa dos Girassóis ter esmorecido. Foi nessa altura que, num palazzo creme no centro de Roma, o general Cesare Ferrari, da Brigada de Arte, destapou três quadros, desaparecidos há muito tempo e agora recuperados: A Sagrada Família, de Parmigianino, Raparigas no Campo, de Renoir, e o Retrato de Uma Mulher, de Klimt. Mas o general não ficou por aqui. Anunciou também a recuperação de Praia em Pourville, de Monet, e Mulher com Leque, de Modigliani, juntamente com obras de Matisse, Degas, Picasso, Rembrandt, Cézanne, Delacroix e uma que podia ser ou não um Ticiano. A conferência de imprensa foi conduzida com todo o estilo e toda a exuberância que caracterizavam o general Ferrari, mas, no entanto, talvez tivesse sido mais memorável por aquilo que o detetive italiano não disse — especificamente, onde e como qualquer uma daquelas obras de arte fora descoberta. Aludiu vagamente a uma grande e sofisticada rede de ladrões, contrabandistas e recetadores e deu a entender que estavam a chegar mais quadros. Depois, escondendo-se atrás da proteção dada por uma investigação ainda em curso, dirigiu-se para a porta, parando o tempo suficiente para responder às perguntas obrigatórias sobre as perspetivas de se encontrar o alvo número um da Brigada de Arte: a Natividade com São Francisco e São Lourenço de Caravaggio.

— É odioso usar a palavra nunca — disse com tristeza, e abandonou a sala.

Os acontecimentos em Amesterdão e Roma contrastavam com as notícias da Áustria, onde as autoridades estavam a tentar desvendar um tipo de mistério diferente: o desaparecimento de duas pessoas, um homem de cinquenta e poucos anos e uma mulher de trinta e nove, de Linz, a antiga cidade comercial no Danúbio. O homem era Waleed al-Siddiqi, sócio minoritário num pequeno banco privado. A mulher era Jihan Nawaz, a gestora de conta do banco. A circunstância de ambos serem da Síria alimentou a especulação de ter havido atividade criminosa, tal como os movimentos de Jihan Nawaz no dia do desaparecimento. Tinha viajado de Linz para Genebra, segundo as autoridades, onde as câmaras de segurança do Hotel Métropole a tinham fotografado a entrar no quarto de Kemel al-Farouk, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Síria e assessor e conselheiro muito próximo do presidente desse país. Isso levou, inevitavelmente, a que se especulasse que Miss Nawaz era uma agente dos serviços secretos sírios; com efeito, uma revista alemã, antigamente bem reputada, publicou um longo artigo a acusá-la de ser uma espia dos serviços secretos sírios. A história morreu dois dias depois quando um parente de Hamburgo admitiu que os formulários alemães para a imigração não estavam completamente corretos. Ela não nascera em Damasco, como tinha ficado registado, mas na cidadezinha de Hama, onde as forças do regime lhe tinham assassinado a família inteira, em fevereiro de 1982. Jihan Nawaz não era uma agente do regime, disse o parente, mas uma fervorosa opositora.

Essa revelação depressa deu origem à conjetura de que Jihan Nawaz tinha estado a trabalhar não para o governo sírio mas para um dos serviços secretos ocidentais. A teoria ganhou consistência quando informações biográficas adicionais sobre o patrão desaparecido foram sendo divulgadas lentamente à imprensa, informações que insinuavam que estivera envolvido na ocultação e gestão dos ativos financeiros do presidente sírio. Depois apareceu um relatório de uma respeitável empresa dedicada à segurança informática sobre uma série de transações financeiras detetada numa monitorização de rotina da Internet. Parecia que vários milhares de milhões de dólares tinham sido tirados de bancos importantes um pouco por todo o mundo e depois transferidos para uma única localização num período de tempo invulgarmente curto. A empresa nunca foi capaz de apresentar uma estimativa correta da quantidade de dinheiro em causa, nem foi capaz de identificar os responsáveis. No entanto, conseguiu descobrir rastos de código espalhados pelo mundo. Todos os que analisaram o código ficaram estupefactos com a sua sofisticação. Não era coisa de piratas informáticos vulgares, disseram, mas de profissionais que trabalhavam para um governo. Um perito comparou-o ao worm Stuxnet que fora inserido na rede informática do programa de armas nucleares iraniano.

Foi nessa altura que o clarão de um holofote não desejado recaiu sobre os serviços secretos instalados num incaracterístico prédio de escritórios em Telavive. Os peritos viram uma prova irrefutável, um elo perfeito de capacidade e motivação, e, por uma vez, os peritos tiveram razão. Mas nenhum deles iria alguma vez ligar os movimentos de dinheiro suspeitos à recuperação recente de várias obras-primas da pintura que tinham sido roubadas, ou ao homem de estatura e constituição médias, o sol no meio de estrelas pequenas, que voltou para uma igreja em Veneza, na terceira quarta-feira de agosto. A plataforma de madeira no cimo do andaime estava exatamente como a deixara vários meses atrás: frascos com produtos químicos, um maço de algodão hidrófilo, um molho de cavilhas, uma lupa, dois candeeiros com lâmpadas de halogéneo potentes. Enfiou um CD da ópera La Bohème na aparelhagem portátil suja de tinta e começou a trabalhar. Molhar, girar, deitar fora… Molhar, girar, deitar fora…

 

Havia dias em que estava morto por acabar e dias em que esperava nunca acabar. Esse estado de espírito caprichoso desenrolava-se à frente da tela. Às vezes, trabalhava com a lentidão de Veronese; outras, com a pressa irrefletida de Vincent, como se estivesse a tentar capturar a essência do tema antes que este murchasse e morresse. Felizmente, não havia ninguém para assistir às oscilações pendulares do seu estado de espírito. Os outros elementos da equipa tinham completado os respetivos trabalhos durante a sua longa ausência. Estava sozinho na casa de outra fé, de outro povo.

A operação raramente lhe abandonava os pensamentos durante muito tempo. Via-a na mente como uma série de naturezas-mortas, paisagens e retratos: o espião caído em desgraça, o ladrão de arte, o assassino a soldo, a filha de Hama a escrever o nome dele na superfície de um lago. A rapariga que valia oito mil milhões de dólares… Nunca se arrependeu, nem uma única vez, da decisão de entregar o dinheiro em troca da liberdade dela. O dinheiro podia ganhar-se e perder-se, ser encontrado e congelado. Mas Jihan Nawaz, o único membro sobrevivente de uma família assassinada, era insubstituível. Era um original. Era uma obra-prima.

A Igreja de San Sebastiano estava programada para abrir ao público no dia 1 de outubro, o que queria dizer que Gabriel não tinha outra alternativa senão trabalhar desde a alvorada até ao crepúsculo sem interrupções. Na maior parte dos dias, Francesco Tiepolo passava por lá ao meio-dia com um saco de cornetti e um termos de café acabado de fazer. Se Gabriel se estivesse a sentir caridoso, deixava que Tiepolo fizesse um bocadinho de reconstrução, mas, na maior parte dos dias, o italiano limitava-se a espreitar por cima do ombro de Gabriel, suplicando-lhe que trabalhasse mais depressa. E, invariavelmente, interrogava com suavidade Gabriel sobre os planos para o futuro.

— Estamos prestes a receber uma encomenda para uma coisa boa — disse uma tarde enquanto uma tempestade se abatia sobre a cidade. — Uma coisa importante.

— Importante a que ponto? — perguntou Gabriel.

— Não estou autorizado a dizê-lo.

— Igreja ou scuola?

— Igreja — respondeu Tiepolo. — E o retábulo tem o teu nome lá escrito. — Gabriel sorriu e continuou a pintar em silêncio. — Nem sequer te sentes tentado?

— Chegou a altura de ir para casa, Francesco.

— A tua casa é aqui — respondeu Tiepolo. — Devias criar os teus filhos em Veneza. E quando morreres, enterramos-te sob um cipreste, em San Michele.

— Não sou assim tão velho, Francesco.

— Mas também já não és assim tão novo.

— Não tens nada melhor para fazer? — perguntou Gabriel enquanto passava o pincel da mão direita para a esquerda.

— Não — respondeu Tiepolo, sorrindo. — O que poderia ser melhor do que ver-te a pintar?

Os dias ainda continuavam quentes e carregados de humidade, mas à noitinha, uma brisa da lagoa tornava a cidade tolerável. Gabriel ia buscar Chiara ao gabinete e levava-a a jantar. A meio de setembro, já estava de seis meses, tendo passado a altura em que era possível manter o segredo da gravidez em relação à pequena, mas tagarela, comunidade judaica. Gabriel achava que Chiara nunca estivera mais bonita. A pele resplandecia, os olhos cintilavam como pó dourado e, mesmo quando não se sentia confortável, parecia incapaz de ter outra expressão que não fosse um grande sorriso. Por natureza, era uma planeadora, uma fazedora de listas, e todas as noites, ao jantar, falava sem parar de todas as coisas que precisavam de fazer. Tinham decidido ficar em Veneza até à última semana de outubro, primeira de novembro, o mais tardar. Depois, voltariam para Jerusalém a fim de preparar o apartamento da Rua Narkiss para o nascimento das crianças.

— Eles vão precisar de nomes, sabes? — disse Gabriel, ao fim da tarde, quando passeavam ao longo da Zattere, ao lusco-fusco.

— A tua mãe tinha um nome lindo.

— Pois tinha — respondeu Gabriel. — Mas Irene não é propriamente um nome adequado para um rapaz.

— Então, se calhar, devíamos chamar Irene à rapariga.

— Boa ideia.

— E o rapaz?

Gabriel ficou calado. Era demasiado cedo para começar a escolher um nome para o rapaz.

— Falei com o Ari hoje de manhã — disse Chiara passado um momento. — Como deves imaginar, está um bocado ansioso para que voltemos a casa.

— Disseste-lhe que primeiro tenho de acabar o Veronese?

— Disse.

— E?

— Ele não compreende por que razão um retábulo vos há de manter separados numa altura destas.

— Porque o retábulo é capaz de ser o último que vou ter para restaurar.

— Se calhar — disse Chiara.

Caminharam em silêncio durante uns momentos. Gabriel perguntou:

— E como te pareceu ele?

— O Ari? — Ele assentiu com a cabeça. — Não muito bem, para dizer a verdade. — Olhou para ele com uma expressão séria e perguntou:

— Sabes alguma coisa que eu não saiba?

— A signadora disse-me que ele já não tem muito tempo.

— E disse-te mais alguma coisa que eu deva saber?

— Sim — respondeu ele. — Disse-me que não faltava muito.

Por essa altura, setembro já ia adiantado e Gabriel estava a ficar irremediavelmente atrasado.

Num gesto simpático. Tiepolo ofereceu-lhe um pequeno prolongamento do prazo, mas Gabriel recusou-o teimosamente; não queria que o último restauro na sua adorada cidade de água e quadros fosse lembrado apenas por não o ter conseguido acabar no tempo combinado. E, por isso, barricou-se na igreja sem nada que o distraísse e trabalhou com uma energia e uma velocidade que não teria pensado serem possíveis. Retocou a Virgem e o Menino Jesus num único dia e, na última tarde, arranjou a cara de um anjo menino de cabelo encaracolado que estava a espreitar por cima de uma nuvem celestial para a terra sofredora lá em baixo. O rapaz parecia-se demasiado com Dani e, enquanto trabalhava, Gabriel chorou de mansinho. Quando finalmente acabou, secou os pincéis e a cara e ficou parado à frente da tela enorme, com uma mão no queixo e a cabeça ligeiramente inclinada para o lado.

— Está acabado? — perguntou Francesco Tiepolo, que o observava da base do andaime.

— Sim — respondeu Gabriel. — Acho que está.