O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 58 de 65

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O Assalto

56. Annecy, França

56

ANNECY, FRANÇA

 

Gabriel e Eli Lavon fizeram uma última viagem juntos, com Gabriel ao volante e Lavon no lugar do passageiro, enervado e preocupado como de costume. Seguiram para oeste, atravessando a fronteira francesa, e depois para sul, pela região rural da Alta Saboia, em direção a Annecy. Estava quase a anoitecer quando chegaram; Gabriel deixou Lavon ao pé da prefeitura e estacionou o carro perto da Igreja de Saint-François de Sales. Uma linda estrutura branca no molhe do rio Thiou fazia lembrar a Gabriel a Igreja de San Sebastiano, em Veneza. Espreitou para o interior, perguntando a si mesmo se iria ver um restaurador solitário parado à frente de um Veronese, e depois dirigiu-se para um café ali perto, chamado Savoie Bar. Era um sítio despretensioso, com uma ementa simples e umas quantas mesas dispostas sob um toldo cor de vinho. A uma das mesas, encontrava-se sentado Christopher Keller. Estava novamente com a cabeleira loura luxuriante e os óculos azuis de Peter Rutledge, o mestre ladrão de arte que nunca existiu. Gabriel sentou-se à frente dele e pousou o BlackBerry em cima da mesa; e quando, finalmente, um empregado se aproximou, pediu um café crème.

— Tenho de confessar — disse Keller passados uns instantes — que não esperava que esta acabasse assim.

— E como esperavas que acabasse, Christopher?

— Contigo a segurar o Caravaggio, claro.

— Não podemos ter tudo. Além disso, descobri uma coisa muito melhor do que o Caravaggio. E mais valiosa também.

— A Jihan?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— A rapariga que vale oito mil milhões de dólares — murmurou Keller.

— Oito vírgula dois — respondeu Gabriel. — Mas quem está a contar?

— E não tens mesmo dúvidas?

— Em relação a quê?

— A fazer um acordo.

— Nenhumas.

Nesse preciso momento, Eli Lavon passou por eles na praça e foi juntar-se a Yaakov no café na porta ao lado. Mikhail e Yossi estavam estacionados numa rua estreita chamada Rue Grenette. Oded estava a observar o carro de uma mesa na obrigatória tasca de kebabs.

— São bons rapazes — comentou Keller enquanto observava a praça. — Todos eles. Não tiveram culpa nenhuma. Dirigiste uma boa operação em Linz, Gabriel. Alguma coisa deve ter corrido mal no fim.

Gabriel não deu qualquer resposta a não ser olhar para o BlackBerry.

— Onde está ele? — perguntou Keller.

— A pouco mais de um quilómetro e meio a norte da cidade e a aproximar-se depressa.

— Acho que vou gostar disto.

— Algo me diz que o Waleed não vai achar o mesmo. — Gabriel voltou a pousar o BlackBerry em cima da mesa, olhou para Keller e sorriu. — Lamento ter-te metido nisto tudo — disse.

— Por acaso, não o teria perdido por nada deste mundo.

— Afinal, talvez ainda haja esperança para ti, Christopher. De facto, até conseguiste não matar ninguém desta vez.

— Tens a certeza de que não matámos ninguém?

— Ainda não.

Gabriel voltou a olhar para o BlackBerry. A luz vermelha a piscar tinha-se deslocado para dentro dos limites da cidade de Annecy.

— Continua a vir na nossa direção? — perguntou Keller. Gabriel assentiu com a cabeça. — Se calhar, devias deixar que fosse eu a tratar das negociações.

— E porque havia eu de fazer isso?

— Porque é capaz de não ser boa ideia deixar que vejam a tua cara. Afinal de contas — acrescentou Keller —, até este momento, não sabem que o Departamento está envolvido seja de que maneira for.

— A não ser que o tenham arrancado à Jihan à pancada. — Keller não disse nada. — Agradeço a oferta, Christopher, mas isto é uma coisa que tenho de ser eu a fazer. Além disso — acrescentou Gabriel —, quero que o carniceirozinho e os capangas dele saibam que estive por trás disto. Algo me diz que isso me vai facilitar o trabalho quando assumir a direção do Departamento.

— Não vais mesmo levar isto avante, pois não?

— Não tenho grande escolha no assunto.

— Todos escolhemos a vida que levamos. — Keller fez uma pausa e depois acrescentou: — Até eu.

Gabriel deixou que o silêncio se instalasse entre os dois.

— A minha oferta continua de pé — disse finalmente.

— Trabalhar para ti no Departamento?

— Não — respondeu Gabriel. — Podes trabalhar para o Graham Seymour no MI6. Ele dá-te uma nova identidade, uma nova vida. Podes voltar para casa. E, o mais importante, podes dizer aos teus pais que ainda estás vivo. O que lhes fizeste é uma coisa terrível. Se não gostasse tanto de ti, ia pensar que eras um verdadeiro…

— E achas que ia resultar? — perguntou Keller, interrompendo-o.

— O quê?

— Eu como agente do MI6?

— E porque não?

— Gosto de viver na Córsega.

— Então, ficas com uma casa lá.

— O dinheiro não ia ser, nem de perto nem de longe, tão bom.

— Pois não — concordou Gabriel —, mas tu já tens muito dinheiro.

— Ia ser uma grande mudança.

— Às vezes, uma mudança é bom.

Keller fingiu que estava a pensar.

— A verdade é que nunca gostei de matar pessoas, sabes? É apenas uma coisa em que sou bom.

— Sei exatamente como te sentes, Christopher.

Gabriel voltou a olhar para o BlackBerry.

— Onde está ele?

— Perto — respondeu Gabriel. — Muito perto.

— Onde? — tornou a perguntar Keller.

Gabriel indicou com a cabeça a Rue Grenette.

— Ali mesmo.