O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 57 de 65

Páginas do PDF

O Assalto

55. Alta Saboia, França

55

 

ALTA SABOIA, FRANÇA

 

Trouxeram-lhe uma taça de água gelada para a mão. A taça era grande e de prata. O choque do frio entorpeceu-lhe bastante a dor, mas não a raiva que fervia dentro dela. Homens iguais a Omari tinham-lhe tirado tudo — a família, a vida, a cidade. Agora, ao fim de muito tempo, tinha a oportunidade de o confrontar. E talvez, pensou, de o vencer.

— Um cigarro? — perguntou ele e ela respondeu que sim, aceitaria outra simpática mercê do assassino.

Ele pôs-lhe um Marlboro entre os lábios entreabertos e acendeu-o. Ela deu uma passa e depois, desajeitadamente, tirou-o com a mão esquerda.

— Estás confortável, Jihan?

Ela tirou a mão direita da taça de água gelada, mas não disse nada.

— Isso não teria acontecido se me tivesses dito a verdade.

— Não me deu grande possibilidade.

— Estou a dar agora.

Jihan resolveu reagir com lentidão à pressa dele. Voltou a dar uma passa no cigarro e exalou uma nuvem de fumo em direção ao teto decorado do presidente.

— E se eu lhe disser o que sei? O que acontece depois?

— Podes ir embora à vontade.

— Ir embora para onde?

— A decisão é tua.

Voltou a enfiar a mão na água lentamente.

— Desculpe, senhor Omari — disse —, mas como pode imaginar não dou muito crédito a nada do que diga.

— Nesse caso, calculo que não tenha outro remédio senão partir-te a outra mão.

Outro sorriso cruel.

— E depois parto-te as costelas e os ossos todos da cara.

— O que quer de mim? — perguntou ela passados uns instantes.

— Quero que me digas tudo o que sabes sobre o Waleed al-Siddiqi.

— Nasceu na Síria. Ganhou muito dinheiro. Comprou uma participação num pequeno banco privado de Linz.

— E sabes por que razão ele comprou o banco?

— Usa-o como plataforma para investir dinheiro e esconder ativos para clientes poderosos do Médio Oriente.

— Sabes alguns nomes?

— Só um — respondeu ela, olhando em redor da sala.

— E como descobriste a identidade do cliente?

— Foi o próprio senhor Al-Siddiqi quem me disse.

— E porque havia ele de te dizer uma coisa dessas?

— Suponho que me queria impressionar.

— E sabes onde o dinheiro é investido?

— Zurique, Lichenstein, Hong Kong, Dubai, os sítios todos do costume.

— Então e os números das contas? Também os sabes?

— Não — respondeu ela, abanando a cabeça. — Só o senhor Al-Siddiqi sabe os números das contas.

Pousou a mão sobre o coração.

— Traz as informações aqui, num caderno de notas encadernado em pele preta.

 

O senhor Omari estava a preparar-se para perguntar a Jihan qual era a natureza da relação dela com Waleed al-Siddiqi quando o telemóvel vibrou suavemente. Escutou em silêncio durante uns instantes, soltou um grunhido e desligou a chamada. Depois fez um sinal com a cabeça ao jovem motorista e cúmplice, que enfiou o capuz preto na cabeça de Jihan e a levou, escadas abaixo, para a cela. E deixaram-na lá, com a mão a latejar e os pensamentos numa corrida desenfreada devido ao medo. Se calhar, já estava morta. Ou, se calhar, pensou, afinal sempre os tinha vencido.