O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 28 de 65

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O Assalto

Terceira Parte: A Janela Aberta

TERCEIRA PARTE

 

A JANELA ABERTA

26

AVENIDA REI SAUL, TELAVIVE

 

O prédio de apartamentos que ficava na ponta da Avenida Rei Saul era pardacento, indistinto e, melhor do que tudo o resto, anónimo. Não havia nenhuma insígnia pendurada por cima da porta de entrada, nenhum letreiro em bronze a proclamar quem ocupava o edifício. Na verdade, não havia absolutamente nada que sugerisse que se tratava do quartel-general de um dos serviços secretos mais temidos e respeitados do mundo. No entanto, um exame mais atento da estrutura teria revelado a existência de um edifício dentro de outro edifício, com o seu próprio abastecimento de energia, a sua própria canalização de água e de esgotos e o seu próprio sistema de comunicações seguro. Os funcionários traziam duas chaves: uma abria uma porta não identificada no átrio de entrada, a outra fazia funcionar o elevador. Quem cometesse o pecado imperdoável de perder uma ou ambas as chaves era desterrado para o deserto da Judeia, sem que ninguém o voltasse a ver ou a ter notícias dele.

Havia funcionários que eram demasiado importantes, ou cujo trabalho era demasiado confidencial, para aparecerem no átrio de entrada. Entravam no edifício secretamente, pela garagem subterrânea, conforme Gabriel fez trinta minutos após o voo dele de Genebra ter aterrado no Aeroporto Ben-Gurion. A comitiva que o acompanhava incluía um veículo a rebentar pelas costuras com uma equipa de segurança fortemente armada. Calculou que se tratasse de um sinal do que o aguardava no futuro.

Dois dos seguranças entraram com ele no elevador, que o levou a todo o gás para o último andar do edifício. Depois do vestíbulo, atravessou uma porta protegida por código que o deixou numa antessala onde uma mulher de trinta e muitos anos se encontrava sentada a uma secretária moderna, com uma superfície preta reluzente. A secretária só tinha um candeeiro e um telefone com multilinhas seguro; a mulher tinha pernas muito compridas e bronzeadas. Na Avenida Rei Saul era conhecida como Cúpula de Ferro, devido à capacidade sem igual para recusar os pedidos indesejados para falar com o chefe. O seu nome verdadeiro era Orit.

— Está numa reunião — disse, olhando de soslaio para a luzinha vermelha a brilhar por cima da impressionante porta dupla do chefe. — Sente-se. Não vai demorar muito.

— E ele sabe que eu aqui estou?

— Sabe, sim.

Gabriel sentou-se no que era muito possivelmente o sofá mais desconfortável de Israel inteiro e fitou a luzinha vermelha que brilhava intensamente por cima da porta. A seguir, olhou para Orit, que lhe sorriu pouco à vontade.

— Quer que lhe traga alguma coisa? — perguntou.

— Um aríete — respondeu Gabriel.

Por fim, a luz lá acabou por passar do vermelho para verde. Gabriel levantou-se depressa e entrou discretamente no gabinete, ao mesmo tempo que os participantes da recém-terminada reunião saíam em fila por uma segunda porta. Reconheceu dois. Um era Rimona Stern, chefe da equipa do Departamento que se dedicava ao programa nuclear iraniano. O outro era Mikhail Abramov, um agente de campo e pistoleiro que já tinha trabalhado de perto com Gabriel numa série de operações de extrema importância. O fato que trazia indiciava uma promoção recente.

Quando a porta se fechou, Gabriel virou-se lentamente e ficou de frente para a outra única pessoa que se encontrava no gabinete. O homem estava ao lado de uma secretária grande de vidro fumado, segurando um dossiê aberto. Trazia um fato cinzento que parecia ser um número abaixo do dele e uma camisa branca, com um colarinho alto, muito na moda, que lhe fazia parecer ter a cabeça aparafusada aos ombros poderosos. Tinha óculos pequenos e sem armação, do género dos usados pelos empresários alemães que querem parecer jovens e estilosos. O cabelo, ou o que restava dele, era escasso e grisalho.

— Desde quando o Mikhail vai a reuniões no gabinete do chefe? — perguntou Gabriel.

— Desde que eu o promovi — respondeu Uzi Navot.

— A quê?

— Chefe adjunto das Operações Especiais.

Navot baixou o dossiê e fez um sorriso falso.

— Importas-te que faça mudanças quanto ao pessoal, Gabriel? Afinal de contas, ainda tenho mais um ano como chefe.

— Eu tinha planos para ele.

— Que tipo de planos?

— Por acaso, até o ia pôr à frente das Operações Especiais.

— O Mikhail? Ainda não está preparado, nem por sombras.

— Vai safar-se lindamente, desde que tenha um organizador de operações experiente a espreitar-lhe por cima do ombro.

— Uma pessoa como tu? — Gabriel ficou calado. — Então e em relação a mim? — perguntou Navot. — Já decidiste o que vais fazer?

— Depende inteiramente de ti.

— É óbvio que não.

Navot deixou cair o dossiê em cima da secretária e carregou num botão do painel de comando que fez as persianas começarem a descer lentamente sobre as janelas à prova de bala que iam do chão até ao teto. Ficou ali em silêncio durante um momento, aprisionado por grades de sombra. Gabriel teve um vislumbre de um retrato pouco agradável do seu próprio futuro, um homem cinzento numa jaula cinzenta.

— Tenho de admitir — soltou Navot — que tenho imensa inveja de ti. O Egito está a entrar numa guerra civil, a Al-Qaeda domina uma extensão de território que vai de Fallujah até ao Mediterrâneo e um dos conflitos mais sangrentos dos tempos modernos está em plena ebulição na nossa fronteira norte. E, mesmo assim, ainda tens tempo para andar atrás de uma obra-prima roubada para o governo italiano.

— A ideia não foi minha, Uzi.

— Ao menos, podias ter tido a cortesia de pedir a minha aprovação quando o homem dos Carabinieri veio ter contigo.

— E ter-ma-ias dado?

— Claro que não.

Navot passou lentamente pela comprida mesa de reuniões, a caminho da confortável zona de estar. Havia imagens de estações televisivas do mundo inteiro a passar sem som nos monitores de vídeo na parede; e havia jornais do mundo inteiro meticulosamente dispostos em cima da mesinha de apoio.

— Ultimamente, a polícia tem andado bastante ocupada na Europa — disse ele. — Um britânico expatriado assassinado no lago Como, uma obra-prima do Van Gogh roubada e agora isto.

Pegou num exemplar do Die Welt e mostrou-o a Gabriel.

— Um árabe morto no meio de Estugarda. Três acontecimentos sem ligação aparente, mas com uma coisa em comum. — Navot deixou cair o jornal em cima da mesinha. — Gabriel Allon, o futuro chefe dos serviços secretos israelitas.

— Duas coisas, por acaso.

— E qual é a segunda?

— A LXR Investments of Luxembourg.

— E quem é o dono da LXR?

— O pior homem do mundo.

— E esse tipo está na folha de pagamentos do Departamento?

— Não, Uzi — respondeu Gabriel, com um sorriso. — Ainda não.

 

Navot conhecia os pormenores gerais da busca de Gabriel do Caravaggio desaparecido, pois tinha-a acompanhado à distância: reservas de avião, despesas com cartões de crédito, travessias de fronteiras, pedidos de propriedades seguras, relatos nas notícias de uma obra-prima que se sumira. Naquele momento, sentado no gabinete que em breve seria seu, Gabriel completou-lhe o quadro, começando com a convocatória efetuada pelo general Ferrari, em Veneza, e terminando com a morte de um homem chamado Sam, em Estugarda — um homem que tinha acabado de pagar vinte e cinco milhões de euros pelos Girassóis, óleo sobre tela, 95 centímetros por 73 centímetros, da autoria de Gabriel Allon. A seguir, mostrou as três páginas da carta que Jack Bradshaw lhe tinha deixado no Freeport de Genebra.

— O nome verdadeiro do Sam era Samir Basara. O Bradshaw conheceu-o quando estava a trabalhar em Beirute. O Samir era o protótipo do fura-vidas. Drogas, armas, raparigas, todas as coisas que tornavam a vida interessante num sítio como Beirute, nos anos oitenta. Só que afinal o Samir não era realmente libanês. O Samir era da Síria e estava a trabalhar para os serviços secretos sírios.

— E ainda estava a trabalhar para eles quando o mataram?

— Completamente — respondeu Gabriel.

— A fazer o quê?

— A comprar arte roubada.

— Ao Jack Bradshaw?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— O Samir e o Bradshaw reativaram a relação deles há catorze meses num almoço em Milão. O Samir tinha uma proposta de negócio. Disse que tinha um cliente, um empresário rico do Médio Oriente, que estava interessado em adquirir quadros. Passadas umas semanas, o Bradshaw recorreu aos contactos que tinha nos cantos escuros do mundo da arte para conseguir um Rembrandt e um Monet, que por acaso tinham sido roubados. Mas isso não incomodou o Samir. Aliás, até gostou bastante. Deu ao Bradshaw cinco milhões de dólares e disse-lhe para arranjar mais.

— E como pagava os quadros?

— Enviava o dinheiro para a empresa do Bradshaw por via de uma coisa chamada LXR Investments of Luxembourg.

— E quem é o dono da LXR Investments?

— Já lá vou chegar — respondeu Gabriel.

— E por que razão o Sam queria quadros roubados?

— Também já lá vou chegar. — Gabriel olhou para a carta. — Foi nesta altura que o Jack Bradshaw começou a comprar coisas a torto e a direito para o novo cliente ricaço… uns quantos Renoir, um Matisse, um Corot que tinha sido roubado do Montreal Museum of Fine Arts, em 1972. E também adquiriu vários quadros italianos importantes que não eram para ter saído do país. Mas, mesmo assim, o Samir não estava satisfeito. Disse que o cliente queria uma coisa grande. E foi então que o Bradshaw sugeriu o santo graal dos quadros desaparecidos.

— O Caravaggio?

Gabriel assentiu com a cabeça.

— E onde estava?

— Continuava na Sicília, nas mãos da Cosa Nostra. O Bradshaw foi a Palermo tratar do negócio. Passados aqueles anos todos, os mafiosi até ficaram contentes por se livrarem do quadro. O Bradshaw fê-lo entrar clandestinamente na Suíça, no meio de um carregamento de carpetes. Escusado será dizer que o retábulo não estava em lá grande estado quando chegou. Ficou com cinco milhões de euros do Samir como sinal e contratou um falsificador francês para pôr a Natividade outra vez apresentável. Mas aconteceu uma coisa antes de poder finalizar a venda.

— E o que foi?

— Descobriu quem estava a comprar realmente os quadros.

— E quem era?

Antes de responder, Gabriel voltou a uma pergunta que Navot tinha feito uns minutos antes. Por que razão estava o cliente rico de Samir Basara à procura de quadros roubados? Para responder a isso, Gabriel explicou-lhe primeiro as quatro categorias fundamentais de ladrões de arte: o amante de arte sem dinheiro, o falhado incompetente, o profissional e o membro do crime organizado. Este último, afirmou, era responsável pela maior parte dos roubos mais importantes. Por vezes, tinha um comprador à espera, mas era frequente os quadros roubados acabarem por ser utilizados como uma forma de dinheiro do submundo, cheques de viagem para a classe criminosa. Um Monet, por exemplo, podia servir de garantia para um carregamento de armas russas; um Picasso, para heroína turca. Mais tarde ou mais cedo, alguma das pessoas por quem o quadro ia passando acabaria por resolver receber o dinheiro a que tinha direito, normalmente com a ajuda de um recetador com conhecimentos como Jack Bradshaw. Um quadro no valor de 200 milhões de dólares no mercado legal valeria 20 milhões no mercado negro. Vinte milhões que nunca poderiam ser localizados, acrescentou Gabriel. Vinte milhões que nunca poderiam ser congelados pelos governos dos Estados Unidos e da União Europeia.

— Estás a ver onde quero chegar com isto, Uzi?

— E quem é ele? — perguntou Uzi de novo.

— É um homem que tem presidido a uma guerra civil bastante desagradável, um homem que tem recorrido sistematicamente à tortura, fogo de artilharia indiscriminado e ataques com armas químicas contra o próprio povo. Viu o Hosni Mubarak ser enfiado numa jaula e o Muammar Khadafi linchado por uma populaça sedenta de sangue. Por isso, anda preocupado com o que lhe poderá acontecer se for derrubado, razão pela qual pediu ao Samir Basara para preparar um pequeno pé-de-meia para ele e para a família.

— Estás a dizer que o Jack Bradshaw andava a vender quadros roubados ao presidente da Síria?

Gabriel olhou para as imagens que passavam nos monitores de vídeo na parede de Navot. O regime tinha acabado de bombardear um bairro de Damasco nas mãos dos rebeldes. O número de mortos era incalculável.

 

— O presidente sírio e o clã dele têm uma fortuna de milhares de milhões — disse Navot.

— É verdade — respondeu Gabriel. — Mas os americanos e a União Europeia andam a congelar os ativos dele e os dos assessores mais próximos onde quer que os encontrem. Até a Suíça já congelou ativos sírios no valor de centenas de milhões.

— Mas a maior parte dessa fortuna continua por aí algures.

— Por enquanto — retorquiu Gabriel.

— E porque não barras de ouro ou cofres-fortes cheios de dinheiro? Porquê quadros?

— Imagino que ele também tenha ouro e dinheiro. Afinal de contas, como qualquer consultor para investimento te dirá, a diversidade é a chave para o êxito a longo prazo. Mas se fosse eu que estivesse a aconselhar o presidente sírio — acrescentou Gabriel —, dizia-lhe para investir em ativos fáceis de esconder e de transportar.

— Quadros? — perguntou Navot.

Gabriel assentiu com a cabeça.

— Se comprar um quadro no mercado negro por cinco milhões, pode vendê-lo mais ou menos pelo mesmo preço, descontando as comissões para o intermediário, claro. É um preço bastante pequeno a pagar por dezenas de milhões em dinheiro impossível de localizar.

— Muito engenhoso.

— Nunca ninguém os acusou de serem estúpidos, só impiedosos e brutais.

— E quem matou o Samir Basara?

— Se tivesse de arriscar um palpite, diria que foi uma pessoa que o conhecia. — Gabriel fez uma pausa e depois acrescentou: — Uma pessoa que estava sentada no banco de trás do carro quando carregou no gatilho.

— Uma pessoa dos serviços secretos sírios?

— É assim que costuma funcionar.

— E porque o mataram?

— Se calhar, sabia demasiado. Ou, se calhar, estavam zangados com ele.

— Porquê?

— Por ter deixado que o Jack Bradshaw descobrisse demasiadas coisas sobre as finanças pessoais da família do presidente.

— E o que sabia ele?

Gabriel mostrou a carta e respondeu:

— Imenso, Uzi.