O Assalto

Daniel Silva · Capítulo 24 de 65

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O Assalto

22. Île Saint-Louis, Paris

22

 

ÎLE SAINT-LOUIS, PARIS

 

— Gostava de começar esta conversa, senhor Bartholomew, dando-lhe os meus parabéns. O senhor e os seus amigos realizaram uma operação impressionante em Amesterdão.

— E como sabe que não fiz isso sozinho?

— Não é o género de coisa que se faça sozinho. Com certeza que teve ajuda — acrescentou Sam. — Como aquele seu amigo que falou ao telefone comigo. Ele fala francês muito bem, mas não é francês, pois não?

— E que diferença é que isso faz?

— Uma pessoa gosta de saber minimamente com quem está a negociar.

— Isto não é o Harrods, meu caro.

Sam perscrutou a rua com a languidez de um turista que tinha visitado demasiados museus demasiado depressa.

— Ele anda algures por aqui, não anda?

— Não faço ideia.

— E há mais gente?

— Muito mais.

— E, mesmo assim, pediram-me para vir sozinho.

— É o vendedor quem manda no mercado.

— Já ouvi dizer.

Sam recomeçou a examinar a rua. Continuava com o chapéu de palha e os óculos escuros postos, o que lhe deixava apenas a metade inferior da cara visível. Tinha a barba muito bem feita e estava perfumado com critério. As maçãs do rosto eram altas e proeminentes, o queixo, recortado, os dentes, sem irregularidades e branquíssimos. Não tinha cicatrizes nem tatuagens nas mãos. Não trazia anéis nos dedos nem pulseiras nos pulsos, só um grande Rolex de ouro para indicar que era um homem de posses. Possuía os maneirismos refinados de um árabe de boas famílias, mas com um lado mais duro.

— E também já ouvi dizer outras coisas — continuou Sam passado um momento. — As pessoas que já viram a mercadoria dizem que conseguiu tirá-la de Amesterdão com o mínimo de danos.

— Nenhuns, na verdade.

— E também já ouvi dizer que há polaroides.

— E onde ouviu isso?

Sam fez um sorriso desagradável.

— Isto vai demorar muito mais tempo do que é necessário se insistir em prosseguir com estes jogos, senhor Bartholomew.

— Uma pessoa gosta de saber minimamente com quem está a negociar — respondeu Keller mordazmente.

— Está a pedir-me informações sobre o homem que eu represento, senhor Bartholomew?

— Nem me passaria pela cabeça tal coisa.

Seguiu-se um silêncio.

— O meu cliente é um homem de negócios — disse Sam por fim. — Bastante bem-sucedido, muito rico. E também é um amante das artes. Coleciona imenso, mas tal como acontece com vários colecionadores importantes, encontra-se frustrado com o facto de já só haver à venda muitíssimo poucos quadros bons. Anda interessado em adquirir um Van Gogh há muitos anos. E o senhor tem neste momento um que é muitíssimo bom. O meu cliente gostava de ficar com ele.

— Tal como muitas outras pessoas. — Isso não pareceu afetar Sam. — Então e o senhor? — perguntou passado um momento. — Porque não me fala um bocadinho de si?

— Ganho a vida a roubar quadros.

— E é inglês?

— Receio bem que sim.

— Sempre gostei dos ingleses.

— Não vou levar isso a mal.

Surgiu um empregado, que entregou uma ementa a cada um. Sam pediu uma garrafa de água mineral; Keller, um copo de vinho que não fazia tenções de beber.

— Deixe-me esclarecer-lhe desde já uma coisa — disse ele quando voltaram a ficar a sós. — Não estou interessado em drogas, armas, raparigas ou num condomínio em Boca Raton, na Florida. Só quero saber de dinheiro vivo.

— E de quanto dinheiro estamos a falar, senhor Bartholomew?

— Tenho uma oferta de vinte milhões em cima da mesa.

— De que sabor?

— Euros.

— E é uma oferta firme?

— Adiei a venda para me encontrar consigo.

— Mas que lisonjeador. E porque havia de fazer uma coisa dessas?

— Porque ouvi dizer que o seu cliente, seja ele quem for, é um homem com bolsos fundos.

— Muito fundos.

Outro sorriso, só ligeiramente mais agradável do que o primeiro.

— Então e como prosseguimos, senhor Bartholomew?

— Preciso de saber se está interessado ou não em bater a oferta que está em cima da mesa.

— Estou.

— Por quanto?

— Imagino que lhe podia oferecer qualquer coisa insignificante, como por exemplo mais quinhentos mil, mas o meu cliente não gosta de leilões.

Fez uma pausa e a seguir perguntou:

— Vinte e cinco milhões chegam para tirar o quadro de cima da mesa?

— Chegam com certeza, Sam.

— Ótimo — retorquiu ele. — Então, talvez seja boa altura para me mostrar as polaroides.

 

As polaroides estavam no porta-luvas de um Mercedes alugado que se encontrava estacionado numa rua sossegada por trás de Notre-Dame. Keller e Sam foram até lá e entraram para o carro, com Keller a sentar-se ao volante e Sam no lugar do passageiro. Keller revistou-o rápida mas minuciosamente e só depois abriu o porta-luvas para sacar de lá as fotografias. Ao todo, eram quatro — uma de corpo inteiro e três de pormenor. Sam passou-as em revista com uma expressão cética.

— Parece um bocadinho o Van Gogh que está pendurado em cima da cama do meu quarto de hotel.

— Mas não é.

Fez uma cara que mostrava que não estava convencido.

— O quadro que está nesta fotografia pode ser uma cópia. E o senhor pode ser um vigarista espertalhão que anda a tentar aproveitar-se do roubo de Amesterdão.

— Tire os óculos escuros e veja melhor, Sam.

— E é o que pretendo fazer.

Devolveu as fotos a Keller.

— Preciso de ver isso ao vivo e não em fotografias.

— Não estou à frente de nenhum museu, Sam.

— Ou seja?

— Não posso mostrar o Van Gogh a toda a gente que o queira ver. Preciso de saber se quer mesmo adquiri-lo ou não.

— Já lhe ofereci vinte e cinco milhões de euros em dinheiro vivo por ele.

— Oferecer vinte e cinco milhões é fácil, Sam. Passá-los para a mão de outra pessoa é que já é bastante diferente.

— O meu cliente é um homem extraordinariamente rico.

— Então tenho a certeza de que não o mandou para Paris de mãos a abanar.

Keller voltou a guardar as fotografias no porta-luvas e fechou-o com força.

— É assim que funciona o seu esquema? Diz que só mostra o quadro se vir primeiro o dinheiro e depois rouba-o?

— Se eu tivesse algum esquema, você e o seu cliente já teriam ouvido falar disso.

Sam não teve resposta para dar.

— Não consigo arranjar mais do que dez mil em dinheiro vivo assim tão em cima da hora.

— Vou precisar de ver um milhão.

Sam soltou um risinho trocista, como que a querer dizer que um milhão estava fora de questão.

— Se quer ver um Van Gogh por menos de um milhão — disse Keller —, pode ir ao Louvre ou ao Musée d’Orsay. Mas se quer ver o meu Van Gogh, vai ter de me mostrar o dinheiro.

— Não é seguro andar pelas ruas de Paris com essas quantias.

— Algo me diz que você sabe muito bem tomar conta de si.

Sam soltou um suspiro de capitulação.

— Onde e quando?

— Saint-Germain-des-Prés, amanhã às duas da tarde. Sem amigos. Nem pistolas.

Sam saiu do carro sem dizer mais uma palavra e foi-se embora.

 

Atravessou o Sena para a Margem Direita e percorreu a Rue de Rivoli, passando pela ala norte do Louvre, em direção ao Jardim das Tulherias. Passou grande parte do tempo ao telefone e, por duas vezes, executou dois exemplos rudimentares das artes do ofício da espionagem para perceber se o estavam a seguir. Ainda assim, não pareceu reparar que Gabriel se encontrava cinquenta metros atrás dele.

Antes de chegar ao Jeu de Paume, cortou para a Rue Saint-Honoré e entrou numa loja de luxo que vendia dispendiosos produtos de cabedal para homem. Saiu de lá passados dez minutos, com uma nova pasta que levou até uma sucursal do HSBC Private Bank, no Boulevard Haussmann. Esteve lá dentro vinte e dois minutos certos e, quando voltou a aparecer, a pasta parecia mais pesada do que quando tinha entrado. Seguiu rapidamente para a Place de la Concorde e depois atravessou a entrada imponente do Hôtel de Crillon. Assistindo ao longe a tudo, Gabriel sorriu. Para o representante do Senhor Peixe Graúdo, só do bom e do melhor. Quando se começou a ir embora, ligou a Keller para lhe dar as novidades. Iam a jogo, disse-lhe. Iam sem dúvida a jogo.