O Assalto
38. Attersee, Áustria
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ATTERSEE, ÁUSTRIA
Instalaram-na no lugar de honra da sala de estar, com Dina, a falsa amiga, à esquerda e Gabriel, a autoridade anónima de Berlim em matéria fiscal, à direita. Uzi Navot ofereceu-lhe comida, que ela não quis, e chá, que aceitou. Serviu-lho ao estilo árabe, meio doce, num copo pequeno. Permitiu-se dar um pequeno gole, soprou ligeiramente à superfície e pousou o copo com cuidado na mesa à sua frente. A seguir, descreveu uma tarde de outono, em 2010, em que reparou num anúncio, numa publicação do ramo bancário, de oferta de emprego em Linz. Na altura, trabalhava embrenhada na sede de Hamburgo de um banco alemão importante e andava a explorar discretamente outras opções. Viajou para Linz na semana seguinte e foi entrevistada por Herr Weber. Depois atravessou o corredor, passando por dois guarda-costas, para uma reunião particular com o senhor Al-Siddiqi. Que a efetuou integralmente em árabe.
— E ele referiu o facto de também ser de origem síria? — perguntou Gabriel.
— Não foi preciso.
— Os sírios têm um sotaque característico?
Ela assentiu com a cabeça.
— Sobretudo quando vêm das montanhas de Djebel Ansari.
— Essas montanhas ficam no oeste da Síria? Perto do Mediterrâneo?
— Exato.
— E as pessoas que lá vivem são na sua maioria alauitas, não é assim?
Ela hesitou e, a seguir, assentiu com a cabeça lentamente.
— Peço desculpa, Jihan, mas sou meio novato no que toca aos assuntos do Médio Oriente.
— Como a maioria dos alemães.
Aceitou a repreensão dela com um sorriso conciliatório e depois retomou as perguntas.
— E ficou com a sensação de que o senhor Al-Siddiqi era alauita? — indagou.
— Era óbvio.
— E a Jihan é alauita?
— Não — respondeu ela —, não sou alauita.
Não forneceu mais nenhum pormenor autobiográfico e Gabriel também não o pediu.
— São os alauitas que mandam no seu país, não são?
— Sou uma cidadã alemã que vive na Áustria — respondeu ela.
— Permite-me que reformule a pergunta?
— Por favor.
— A família que manda na Síria é alauita, não é assim, Jihan?
— É.
— E os alauitas ocupam os cargos mais importantes no exército e nos serviços de segurança sírios.
Ela esboçou um sorriso.
— Se calhar, você não é assim tão novato quanto isso.
— Aprendo depressa.
— Obviamente.
— E o senhor Al-Siddiqi contou-lhe que era da família do presidente?
— Deu a entender, sim — respondeu ela.
— E isso preocupou-a?
— Foi antes da Primavera Árabe. — Fez uma pausa antes de acrescentar: — Antes da guerra.
— E os dois guarda-costas à porta do gabinete? — perguntou Gabriel. — De que modo os justificou ele?
— Disse-me que fora raptado em Beirute vários anos antes e que o tinham feito refém.
— E acreditou?
— Beirute é uma cidade perigosa.
— Já lá esteve?
— Nunca.
Gabriel examinou o dossiê de novo.
— O senhor Al-Siddiqi deve ter ficado muito impressionado consigo — disse passado um momento. — Ofereceu-lhe logo emprego, a ganhar o dobro do que ganhava no banco em Hamburgo.
— E como é que sabe isso?
— Estava na sua página do Facebook. Disse a toda a gente que estava ansiosa por começar de novo. Os seus colegas de Hamburgo organizaram-lhe uma festa de despedida num restaurante todo chique à beira-rio. Se quiser, posso mostrar-lhe as fotos.
— Não é necessário — retorquiu ela. — Lembro-me bem dessa noite.
— E quando chegou a Linz, o senhor Al-Siddiqi tinha um apartamento à sua espera, não foi? Estava completamente apetrechado: produtos de cama e mesa, pratos, panelas e tachos, até os eletrodomésticos.
— Fazia parte do meu pacote de remuneração.
Gabriel levantou os olhos do dossiê e franziu o sobrolho.
— E não achou estranho?
— Ele disse que queria que a minha transição fosse o mais indolor possível?
— A palavra que ele usou foi essa? Indolor?
— Sim.
— E o que pediu o senhor Al-Siddiqi em troca?
— Lealdade.
— Só isso?
— Não — respondeu ela. — Disse-me que eu nunca podia falar a ninguém dos assuntos do Bank Weber.
— E com boas razões.
Ela ficou calada.
— E quanto tempo demorou a perceber que o Bank Weber não era um banco privado normal, Jihan?
— Comecei a desconfiar logo bem cedo — respondeu ela. — Mas quando chegámos à primavera, já tinha praticamente a certeza.
— E o que aconteceu na primavera?
— Quinze rapazes de Daraa pintaram uns grafítis na parede de uma escola. E o senhor Al-Siddiqi começou a ficar muito nervoso.
Durante os seis meses seguintes, explicou, ele andou sempre de um lado para o outro — Londres, Bruxelas, Genebra, Dubai, Hong Kong, Argentina, às vezes tudo na mesma semana. O aspeto dele começou a deteriorar-se. Emagreceu; ficou com círculos negros debaixo dos olhos. As preocupações com a segurança aumentaram exponencialmente. Quando estava no gabinete, o que era raro, a televisão estava sempre a transmitir a Al Jazeera.
— Andava a acompanhar a guerra? — perguntou Gabriel.
— Obsessivamente — respondeu Jihan.
— E tinha preferências?
— O que acha?
Gabriel não respondeu. Jihan bebericou o chá pensativamente antes de desenvolver o tema.
— Estava furioso com os americanos por terem apelado para o presidente sírio para se afastar — disse por fim. — Disse que aquilo era igualzinho ao Egito. Disse que iam lamentar o dia em que permitissem que ele fosse afastado.
— Porque a Al-Qaeda ia tomar conta da Síria?
— Sim.
— E a Jihan? Escolheu algum lado na guerra?
Ela ficou calada.
— Com certeza que o senhor Al-Siddiqi deve ter tido curiosidade em saber a sua opinião.
Outro silêncio. Deu uma olhadela nervosa à sala, às paredes, ao teto. Era a doença síria, pensou Gabriel. O medo nunca os largava.
— Aqui está em segurança, Jihan — disse Gabriel baixinho. — Está entre amigos.
— Estou?
Olhou para as caras que a rodeavam. O cliente que não era cliente. A vizinha que não era vizinha. Os três funcionários do fisco que não eram funcionários do fisco.
— Uma pessoa não exprime o que verdadeiramente acha à frente de um homem como o senhor Al-Siddiqi — disse passado um momento. — Sobretudo se essa pessoa tiver família que ainda vive na Síria.
— Tinha medo dele?
— E com boas razões.
— E por isso disse-lhe que tinha a mesma opinião que ele acerca da guerra.
Ela hesitou, antes de acabar por assentir com a cabeça, lentamente.
— E tem, Jihan?
— A mesma opinião que ele?
— Sim.
Outra hesitação. Outra olhadela nervosa à sala. Por fim, disse:
— Não, não tenho a mesma opinião que o senhor Al-Siddiqi acerca da guerra.
— Apoia os rebeldes?
— Apoio a liberdade.
— É jihadista?
Ergueu o braço despido e retorquiu:
— Pareço-lhe jihadista?
— Não — respondeu Gabriel, sorrindo perante a demonstração. — Parece-me uma mulher perfeitamente moderna e ocidentalizada que considera sem dúvida que a conduta do regime sírio é repugnante.
— E considero.
— Então porque continuou ao serviço de um homem que apoia um regime que anda a assassinar os próprios cidadãos?
— Às vezes, também pergunto a mim mesma a mesma coisa.
— O senhor Al-Siddiqi fez pressão para que ficasse?
— Não.
— Então, se calhar, ficou por causa do dinheiro. Afinal de contas, estava a pagar-lhe o dobro do que ganhava no emprego anterior.
Gabriel fez uma pausa e inclinou a cabeça para o lado pensativamente.
— Ou, se calhar, ficou por outra razão, Jihan. Se calhar, ficou por ter curiosidade em saber o que se estava a passar atrás daquela porta fechada à chave e daquele escudo formado pelos guarda-costas. Se calhar, tinha curiosidade em saber por que razão o senhor Al-Siddiqi andava a viajar tanto e a emagrecer tanto.
Ela hesitou e depois disse:
— Se calhar, até tinha.
— E sabe o que o senhor Al-Siddiqi anda a fazer?
— Anda a gerir o dinheiro de um cliente muito especial.
— E sabe o nome desse cliente?
— Sei.
— E como descobriu?
— Por acidente.
— Que tipo de acidente?
— Esqueci-me da carteira no trabalho uma noite — respondeu. — E quando voltei lá para a ir buscar, ouvi uma coisa que não devia ter ouvido.