O Assalto
15. Córsega
15
CÓRSEGA
Afinal, o homem de quem Gabriel precisava para encontrar o Caravaggio tinha saído da ilha em negócios. Don Orsati não quis esclarecer se esses negócios diziam respeito a azeite ou sangue, disse apenas que ele iria regressar dentro de dois dias, três, no máximo. Deu a Gabriel uma pistola Tanfoglio e as chaves da villa que ficava no vale seguinte e onde iria esperar pelo homem. Gabriel conhecia bem a villa. Ficara lá com Chiara a seguir à última operação e tinha sido lá, na varanda pintalgada pelo sol, que soubera que ela estava grávida dos filhos dele. A casa só tinha um problema; para lá chegar, Gabriel precisava de passar pelas três oliveiras antigas junto às quais o malfadado bode de Don Casabianca, com as cores de um palomino, fazia a sua vigia eterna, desafiando todos aqueles que se atrevessem a invadir-lhe o território. O bode velho era, em geral, uma criatura malévola, mas parecia reservar um ódio especial em relação a Gabriel, com quem tivera inúmeros confrontos pejados de ameaças e insultos de parte a parte. No final do almoço, Don Orsati prometeu interceder a favor de Gabriel junto de Don Casabianca.
— Pode ser que ele possa chamar a fera à razão — acrescentou o don, num tom cético.
— Ou pode ser que possa transformar o bode numa carteira e num par de sapatos.
— Não se ponha com ideias — avisou o don. — Se tocar num pelo que seja da cabeça desse bode miserável, vai haver uma rixa.
— Então e se ele desaparecer simplesmente?
— A macchia não tem olhos — avisou o don de novo —, mas vê tudo.
Depois de dizer isso, desceu as escadas com Gabriel e acompanhou-o até ao carro. Gabriel seguiu a estrada para o interior, até esta passar a terra batida, e depois continuou nela um bocadinho mais; e quando chegou à curva apertada à esquerda, viu o bode de Don Casabianca atado a uma das três oliveiras antigas, com uma expressão de humilhação no focinho grisalho. Gabriel baixou o vidro da janela e, em italiano, lançou ao bode uma série de insultos relacionados com o aspeto do animal, os antepassados deste e a indignidade da situação em que se encontrava. A seguir, rindo-se, subiu a encosta da colina, em direção à villa.
Era pequena e arrumada, com um telhado de telhas vermelhas e janelas grandes que davam para o vale. Quando Gabriel entrou, percebeu de imediato que ele e Chiara tinham sido as últimas pessoas a lá ficar. O caderno de esboços dele estava em cima da mesinha de apoio, na sala de estar, e encontrou no frigorífico uma garrafa por abrir de Chablis que lhe tinha sido oferecida pelo ausente diretor de vendas de Don Orsati para a Europa Central. Já as prateleiras da despensa estavam vazias. Gabriel abriu as portas duplas para deixar entrar a brisa da tarde e sentou-se na varanda, a analisar o dossiê Caravaggio do general, até que o frio o obrigou a voltar para dentro. Por essa altura, passavam poucos minutos das quatro e o Sol parecia equilibrar-se sobre a orla do vale. Tomou um duche rápido, vestiu roupa lavada e foi de carro até à aldeia para fazer umas compras antes de as lojas fecharem.
Já havia uma povoação naquele canto isolado da Córsega desde os dias tenebrosos que se seguiram à queda do Império Romano, quando os vândalos devastaram a costa de forma tão implacável que os habitantes da ilha não tiveram outra escolha senão fugir para as colinas para sobreviver. Uma única rua antiga prolongava-se sinuosamente pelo meio de chalés e prédios de apartamentos até ir dar a uma ampla praça, no ponto mais alto da aldeia. Em três dos lados, havia lojas e cafés, e, no quarto, ficava a igreja antiga. Gabriel descobriu um lugar para estacionar e começou a dirigir-se para o mercado, mas decidiu que primeiro precisava de se fortificar com um café. Entrou num dos cafés e sentou-se a uma mesa onde podia ver os homens a jogar boules na praça, à luz de um candeeiro de ferro. Um dos homens reconheceu Gabriel como amigo de Don Orsati e convidou-o a participar no jogo. Gabriel fingiu que tinha o ombro dorido e, em francês, respondeu que preferia continuar como espectador. Não disse nada sobre o facto de ter de ir às compras. Na Córsega, eram as mulheres que ainda se encarregavam disso.
Foi nesse preciso momento que os sinos da igreja bateram as cinco horas da tarde. Passados uns minutos, a pesada porta de madeira abriu-se e um padre com uma sotaina preta surgiu diante das escadas da igreja. Ficou ali parado, a sorrir de modo benévolo, enquanto vários paroquianos, sobretudo velhas, avançavam em fila indiana para a praça. Uma das mulheres, após dar as boas-noites ao padre com um aceno de cabeça distraído, parou de repente, como se apenas ela estivesse consciente da existência de perigo. A seguir, recomeçou a andar e desapareceu pela entrada de uma casinha torta adjacente à reitoria.
Gabriel pediu outro café. Depois mudou de ideias e acabou por pedir um copo de vinho tinto. O crepúsculo já não passava de uma recordação; as luzes brilhavam vivamente nas lojas e nas janelas da casinha torta ao lado da reitoria. Um rapaz de dez anos com longos cabelos encaracolados estava agora à porta, que se encontrava apenas uns centímetros aberta. Uma mão pequena e pálida emergiu dessa brecha, segurando um papel azul. O rapaz agarrou no papel e atravessou a praça com ele, até ao café, onde o pousou na mesa de Gabriel, junto ao copo de vinho tinto.
— O que se passa desta vez? — perguntou Gabriel.
— Ela não disse — respondeu o rapaz. — Nunca diz.
Gabriel deu umas moedas ao rapaz para ir comprar um doce e foi bebendo o vinho ao mesmo tempo que a noite caía em definitivo sobre a praça. Por fim, pegou no papel e leu a única linha que lá tinha sido escrita:
Posso ajudar-te a encontrar o que procuras.
Gabriel sorriu, enfiou o bilhete no bolso e deixou-se ficar sentado a beber o que restava do vinho. Depois levantou-se e atravessou a praça.
Estava à espera para o receber à entrada de casa, com um xaile à volta dos ombros delicados. Os olhos dela eram dois poços negros sem fundo; a cara era branca como farinha de padeiro. Lançou-lhe um olhar desconfiado e só depois lhe estendeu a mão. Estava quente e não pesava nada. Apertá-la era como segurar uma ave canora com cuidado.
— Sê bem-vindo de regresso à Córsega — disse.
— Como sabia que eu tinha voltado?
— Eu sei tudo.
— Então diga-me como eu cá cheguei.
— Não me insultes.
O ceticismo de Gabriel era um fingimento. Há muito que abandonara quaisquer dúvidas sobre a capacidade da velha para vislumbrar tanto o passado como o futuro. Ela apertou-lhe a mão com força e fechou os olhos.
— Estavas a viver na cidade da água com a tua mulher e a trabalhar numa igreja onde um grande pintor está enterrado. Sentias-te feliz, verdadeiramente feliz, pela primeira vez na vida. E foi então que uma criatura de um só olho apareceu vinda de Roma e…
— Muito bem — interrompeu Gabriel. — Já provou o que queria.
Largou a mão de Gabriel e apontou para a pequena mesa de madeira na sala de visitas. Em cima dela, estavam um prato raso com água e uma vasilha de azeite. Eram os instrumentos do ofício da mulher. A velha era uma signadora. Os corsos acreditavam que ela tinha o poder de curar quem estivesse infetado com o occhju, o mau-olhado. Em tempos, Gabriel desconfiara que ela não passava de uma simples ilusionista, mas há muito que já não era esse o caso.
— Senta-te — disse ela.
— Não — respondeu Gabriel.
— Porquê?
— Porque nós não acreditamos nessas coisas.
— Os israelitas?
— Sim — respondeu ele. — Os israelitas.
— Mas já fizeste isto.
— Porque me falou de coisas do meu passado, coisas que não podia minimamente saber.
— E por isso tiveste curiosidade, foi?
— Suponho que sim.
— E agora já não tens curiosidade?
A mulher sentou-se à mesa no lugar habitual e acendeu uma vela. Após um instante de hesitação, Gabriel sentou-se à frente dela. Empurrou a vasilha de azeite para o meio da mesa e cruzou as mãos obstinadamente. A velha fechou os olhos.
— A criatura de um só olho pediu-te para encontrares uma coisa por ela, certo?
— Certo — respondeu Gabriel.
— É um quadro, não é? Uma obra de um louco, de um assassino. Levaram-na de uma pequena igreja há muitos anos, numa ilha do outro lado do mar.
— Foi o Don Orsati quem lhe contou isso?
A velha abriu os olhos.
— Nunca falei com o don deste assunto.
— Continue.
— O quadro foi roubado por homens do mesmo género que o don, só que muito piores. Trataram-no muito mal. Ficou praticamente destruído.
— Mas o quadro ainda sobrevive?
— Sim — respondeu ela, assentindo com a cabeça devagar —, ainda sobrevive.
— E onde está agora?
— Perto.
— Perto de quê?
— Não está ao meu alcance dizer-te isso. Mas se realizares o teste do azeite e da água — acrescentou, olhando de relance para o meio da mesa —, talvez te possa ajudar. — Gabriel não se mexeu. — De que tens medo? — perguntou a velha.
— Da senhora — respondeu Gabriel com sinceridade.
— Tens a força de Deus. Porque havias de ter medo de uma pessoa débil e velha como eu?
— Porque a senhora também tem poderes.
— Poderes de visão — retorquiu ela. — Mas poderes terrenos, não.
— A capacidade para ver o futuro é uma grande mais-valia.
— Sobretudo para uma pessoa que tenha uma atividade como a tua.
— É verdade — concordou Gabriel, com um sorriso.
— Então porque não realizas o teste do azeite e da água? — Gabriel ficou calado. — Já perdeste muitas coisas — disse a velha, num tom afável. — Uma mulher, um filho, a tua mãe. Mas os teus dias de sofrimento já ficaram para trás.
— Os meus inimigos nunca vão tentar matar a minha mulher?
— Não lhe vai acontecer nada, nem a ela nem aos teus filhos.
A velha apontou com a cabeça para a vasilha de azeite. Desta vez, Gabriel molhou o indicador no azeite e deixou que caíssem três gotas na água. Segundo as leis da física, o azeite deveria ter-se acumulado num único glóbulo. Em vez disso, despedaçou-se num sem-número de gotículas e, passado pouco tempo, já não havia vestígio dele.
— Estás infetado com o occhju — declarou a velha com grande seriedade. — O melhor que tens a fazer é deixar-me expulsá-lo do teu organismo.
— Prefiro tomar duas aspirinas.
A velha espreitou para dentro do prato da água com o azeite.
— O quadro de que andas à procura é uma representação do Menino Jesus, não é assim?
— É.
— É bastante curioso que um homem como tu ande à procura do Nosso Senhor e Salvador.
Uma vez mais, baixou os olhos na direção do prato com a água e o azeite.
— O quadro já saiu da ilha do outro lado do mar. Está com um aspeto diferente do que tinha antes.
— Em que sentido?
— Foi restaurado. O homem que fez esse trabalho já morreu. Mas isso já tu sabes.
— Um dia ainda vai ter de me mostrar como faz isso.
— Não é coisa que se possa ensinar. É uma dádiva de Deus.
— E onde está o quadro agora?
— Não te consigo dizer.
— E quem o tem?
— Está para lá dos meus poderes dar-te o nome dele. A mulher pode ajudar-te a encontrá-lo.
— Qual mulher?
— Não te consigo dizer. Mas não deixes que lhe aconteça nada, senão perdes tudo.
A cabeça da velha tombou-lhe para o ombro; a profecia tinha-a esgotado. Gabriel enfiou várias notas por baixo do prato com a água e o azeite.
— Tenho mais uma coisa para te dizer antes de ires embora — anunciou a velha quando Gabriel se levantou.
— E o que é?
— A tua mulher já não está na cidade da água.
— E quando aconteceu isso? — perguntou Gabriel.
— Quando estavas com a criatura de um só olho na cidade perto do mar.
— E onde está ela agora?
— Está à tua espera — respondeu a velha — na cidade da luz.
— Mais alguma coisa?
— Sim — disse ela, com as pálpebras cerradas. — Já não resta muito tempo de vida ao velho. Faz as pazes com ele antes que seja tarde demais.
A mulher tinha razão pelo menos numa coisa; segundo parecia, Chiara já não estava de facto em Veneza. Quando Gabriel lhe ligou para o telemóvel, tiveram uma conversa curta e ela disse-lhe que se estava a sentir bem e que estava outra vez a chover. Gabriel foi ver rapidamente como estava o tempo em Veneza e viu que os últimos dias tinham sido de sol. Quando telefonou para o apartamento, ninguém atendeu, e o pai, o inescrutável rabi Zolli, parecia ter uma lista de desculpas convenientes para explicar por que razão a filha não se encontrava no gabinete. Tinha ido às compras, tinha ido à livraria do gueto, tinha ido visitar os velhos ao lar. «Eu digo-lhe para ela te ligar mal volte.» Shalom, Gabriel. Gabriel interrogou-se se o bonito guarda-costas do general estaria envolvido no desaparecimento de Chiara ou se também teria sido enganado. Suspeitou que fosse esse o caso. Chiara estava mais bem treinada e era mais experiente do que qualquer monte de músculos dos Carabinieri.
Gabriel foi à aldeia duas vezes nos dois dias, primeiro de manhã, para o pão e para o café, e depois à tarde, para um copo de vinho no café perto do jogo de boules. Em ambos os casos, viu a signadora a sair da igreja depois da missa. No primeiro dia, ela ignorou-o. Mas, no segundo, o rapaz dos cabelos encaracolados apareceu-lhe à frente da mesa, com mais um bilhete. Pelos vistos, o homem de quem Gabriel estava à espera iria chegar de ferry a Calvi no dia seguinte. Gabriel ligou a Don Orsati, que confirmou ser verdade.
— Como sabia? — perguntou o don.
— A macchia não tem olhos — respondeu Gabriel cripticamente, interrompendo a ligação.
Passou a manhã seguinte a dar os últimos retoques no plano que tinha concebido para encontrar o Caravaggio desaparecido. Depois, ao meio-dia, foi a pé até às três oliveiras antigas e soltou o bode de Don Casabianca, libertando-o da corda que o prendia. Uma hora mais tarde, viu um Renault amolgado com porta traseira a subir pelo vale numa nuvem de poeira. Quando o carro se aproximou das três oliveiras antigas, o bode velho pôs-se à frente dele, em ar de desafio. Ouviu-se o som de uma buzina e, pouco tempo depois, o vale ecoou com insultos grosseiros e ameaças de violência indescritível. Gabriel entrou na cozinha e abriu o Chablis. O Inglês tinha regressado à Córsega.