Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 8 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Pé na estrada

 

Aprendi a lidar com o medo da seguinte forma: há muito tempo decidi que, se quero a criatividade em minha vida — e quero —, preciso deixar espaço para o medo também.

Bastante espaço.

Decidi que seria necessário construir uma vida interior ampla o su ciente para que meu medo e minha criatividade pudessem coexistir de modo pací co, uma vez que, ao que tudo indica, estariam sempre juntos. Na verdade, acho que o medo e a criatividade são basicamente gêmeos siameses, como demonstra o fato de a criatividade não conseguir dar sequer um passo à frente sem que o medo esteja caminhando logo ali ao seu lado. O medo e a criatividade dividiram o mesmo útero, nasceram ao mesmo tempo e ainda compartilham alguns órgãos vitais. É por isso que precisamos ser cuidadosos em relação à maneira como lidamos com o medo, pois percebi que, quando as pessoas tentam aniquilá-lo, com frequência acabam inadvertidamente assassinando a criatividade por tabela.

Então não tento aniquilar meu medo. Não declaro guerra contra ele. Em vez disso, dou-lhe bastante espaço. Um espaço enorme. Todos os dias. Estou dando espaço para o medo neste exato momento. Permito que meu medo viva, respire e estique as pernas confortavelmente. Parece-me que quanto menos luto contra meu medo, menos ele contra-ataca. Quando consigo relaxar, o medo relaxa também. Na verdade, convido o medo a vir comigo aonde quer que eu vá. Tenho até um discurso acolhedor preparado para ele, que faço pouco antes de embarcar em um novo projeto ou em uma nova aventura.

É mais ou menos assim: “Querido Medo, a Criatividade e eu estamos prestes a pegar a estrada juntas. Sei que você virá conosco, pois sempre o faz. Reconheço que você acredita ter um trabalho importante a desempenhar na minha vida e que leva esse trabalho a sério. Ao que parece, seu trabalho é me deixar completamente em pânico sempre que estou prestes a fazer qualquer coisa interessante — e, aliás, você faz um excelente trabalho. Então que à vontade para continuar a fazê-lo caso considere absolutamente necessário. Mas também estarei fazendo meu trabalho durante esta viagem, que é dar duro e permanecer focada. E a Criatividade estará fazendo o trabalho dela, que é permanecer estimulante e inspiradora. Há espaço su ciente no carro para todos nós, então que à vontade, mas entenda uma coisa: a Criatividade e eu somos as únicas que vamos tomar decisões durante o percurso. Reconheço e respeito o fato de que você é parte desta família, e, portanto, nunca o excluirei de nossas atividades, mas ainda assim suas sugestões nunca serão seguidas. Você tem direito a um lugar no carro e a se manifestar, mas não tem direito a voto. Você não pode tocar nos mapas; não pode sugerir desvios de rota; não pode mudar a temperatura do ar-condicionado. Cara, nem encoste no rádio. Mas acima de tudo, meu querido e velho amigo, você está terminantemente proibido de dirigir.”

E lá vamos nós — eu, minha criatividade e meu medo —, lado a lado para sempre, avançando mais uma vez em direção ao território assustador, porém maravilhoso, do resultado incerto.

 

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