Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Tristram Shandy intervém
Tente também se apresentar à sua criatividade como alguém sexy, alguém com quem vale a pena passar o tempo. Sempre amei isso no romance A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, escrito pelo britânico Laurence Sterne, ensaísta, romancista e homem de sociedade do século XVIII. No romance, Tristram fazia algo que, para mim, é uma maravilhosa cura para o bloqueio criativo: vestia suas roupas mais elegantes e assumia ares principescos, atraindo assim ideias e inspirações graças a sua fabulosa aparência.
Mais especi camente, eis o que Tristram alegava fazer quando se sentia “estúpido” e bloqueado, quando os pensamentos “erguiam-se pesadamente e passavam como goma [por sua] pena”: em vez de car lá sentado, deprimido, olhando para a folha em branco, pulava da cadeira, pegava uma lâmina nova e se barbeava. (“Como Homero conseguia escrever com uma barba tão longa, não faço ideia.” ) Em seguida, empreendia uma elaborada transformação: “Troco minha camisa, ponho um casaco melhor, mando buscar minha peruca mais nova, ponho no dedo meu anel de topázio e, em resumo, me visto da cabeça aos pés da maneira mais elegante possível”.
Assim, vestido de forma impecável, Tristram se pavoneava pelo aposento, apresentando-se ao universo da criatividade da maneira mais atraente possível, como um galante pretendente e um sujeito con ante. Um truque encantador, sem dúvida, mas o melhor de tudo é que de fato funcionava. De acordo com Tristram, “basta que um homem se vista para que suas ideias se vistam ao mesmo tempo; e se ele se veste como um cavalheiro, cada uma delas se apresenta à sua imaginação”.
Sugiro que você tente esse truque em casa.
Eu mesma já o experimentei algumas vezes, quando estou me sentindo especialmente desleixada e inútil e quando percebo que minha criatividade está se escondendo de mim. Vou até o espelho e digo com rmeza: “É claro que a criatividade está se escondendo, Elizabeth! Olhe só para você!”.
Então me dou um trato. Tiro o pijama que estou usando há dias, aquele maldito elástico do cabelo oleoso e tomo um banho. Não faço a barba, claro, mas pelo menos depilo as pernas. Visto uma roupa limpa, escovo os dentes e lavo o rosto. Ponho até batom (e olhe que eu nunca uso batom!). Removo o entulho da escrivaninha, abro a janela e às vezes acendo uma vela perfumada. De vez em quando até ponho perfume! Não costumo usar perfume nem para sair para jantar, mas abro uma exceção para tentar seduzir a criatividade e trazê-la de volta para o meu lado. (Segundo Coco Chanel, “uma mulher que não usa perfume não tem futuro”.) Tento sempre me lembrar de que estou tendo um caso com minha criatividade. Faço um esforço para me apresentar à inspiração como alguém para quem você olharia e pensaria: Eu teria um caso com ela; não como alguém que está andando pela casa a semana inteira com as cuecas samba-canção do marido porque se entregou totalmente. Eu me arrumo da cabeça aos pés ( assim com Tristram Shandy) e volto à minha tarefa. Sempre funciona. Juro por Deus. Se tivesse uma peruca empoada como a de Tristram, também a usaria eventualmente.
O truque é ngir até conseguir.
Em outras palavras, vista-se de acordo com o romance que quer escrever.
Seduza a Grande Magia e ela sempre voltará para você, assim como um corvo se sente atraído por objetos brilhantes.
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