Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Um pouco de perspectiva
Bem, antes de nos empolgarmos demais, quero fazer uma pausa e pedir que você considere todas as conclusões negativas que eu poderia ter tirado a respeito desse incidente caso estivesse a m de arruinar minha vida.
A pior conclusão a que eu poderia ter chegado — e também a mais destrutiva — seria a de que Ann Patchett havia roubado minha ideia. Isso teria sido absurdo, claro, pois Ann nunca sequer ouvira falar de minha ideia, e, além disso, é o ser humano mais ético que já conheci. No entanto, as pessoas tiram conclusões abomináveis como essa o tempo todo. Convencem-se de que foram roubadas quando, na verdade, isso não aconteceu. Esse pensamento vem de uma deplorável lealdade à noção de escassez — da crença de que o mundo é um lugar de carência e de que nunca haverá o su ciente de tudo para todos. O lema dessa mentalidade é: Alguém roubou o que era para ser meu. Se eu tivesse decidido assumir essa postura, certamente teria perdido minha querida nova amiga. Também teria me afundado em um estado de ressentimento, inveja e culpa.
Outra possibilidade teria sido voltar a raiva contra mim mesma. Poderia ter pensado: Está vendo? Essa é a maior prova de que você é uma inútil, Liz, porque nunca cumpre suas promessas. Esse romance queria ser seu, mas você estragou tudo, porque é preguiçosa, estúpida e não serve para nada, e sempre volta a atenção para a coisa errada. É por isso que você nunca será uma grande escritora.
Finalmente, poderia ter voltado meu ódio contra o destino. Poderia ter dito: Eis aqui a prova de que Deus gosta mais de Ann Patchett do que de mim. Pois Ann é a romancista eleita e eu — como sempre suspeitei nos momentos mais sombrios — não passo de uma impostora. O destino zomba de mim enquanto a cobre de glórias. Sou o bobo da fortuna, e ela, sua queridinha. E essa é a eterna injustiça e tragédia da minha existência amaldiçoada.
Mas não z nada dessa bobagem.
Em vez disso, optei por ver aquilo como um pequeno milagre. Sentime grata e surpresa por ter desempenhado um papel — por menor que fosse — nesse estranho desenrolar de eventos. Era o mais próximo que já me sentira da feitiçaria, e não estava disposta a desperdiçar aquela experiência incrível me prendendo a mesquinharias. Enxerguei o ocorrido como uma prova rara e esplêndida de que minhas crenças mais esdrúxulas sobre criatividade poderiam de fato ser verdade: de que as ideias são entes vivos, de que estão sempre em busca do colaborador humano mais disponível, de que têm vontade consciente, de que se movem de uma alma para outra e de que sempre tentarão encontrar o canal mais rápido e e ciente para chegar à terra (assim como fazem os raios).
Além disso, estava agora inclinada a acreditar que as ideias são também espirituosas, pois o que ocorreu entre mim e Ann não foi apenas fenomenal, mas também curiosa e encantadoramente engraçado.
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