Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
O sanduíche de merda
Aos vinte e poucos anos, eu tinha um amigo que, assim como eu, também era aspirante a escritor. Lembro-me de como ele costumava mergulhar em períodos sombrios de depressão pela falta de sucesso e pela incapacidade de publicar seus trabalhos. Emburrava e se enfurecia.
“Não quero car sentado sem fazer nada”, resmungava. “Quero que tudo isso traga algum resultado. Quero que esse se torne o meu trabalho!”
Mesmo na época, eu já achava que havia algo errado na atitude dele.
Veja bem, meus trabalhos também não estavam sendo publicados e eu também estava ávida. Amaria ter todas as coisas que ele queria: sucesso, recompensas, a rmação. Estava bastante familiarizada com decepções e frustrações. No entanto, me lembro de pensar que aprender a superar as decepções e frustrações é parte do trabalho de uma pessoa criativa. Parecia-me que lidar com a frustração era um aspecto fundamental do ofício de artista — talvez o aspecto mais fundamental. A frustração não é uma interrupção do processo criativo; a frustração é o processo. A parte divertida (aquela em que você tem a impressão de simplesmente não estar trabalhando) vem quando se está criando algo esplêndido, tudo está indo às mil maravilhas, todo mundo ama seu trabalho e você está nas nuvens. Mas esses momentos são raros. Você não pula de um momento maravilhoso para outro. A maneira como você se vira entre esses momentos maravilhosos, quando as coisas não estão indo tão bem, demonstra quanto você se dedica a sua vocação e quão bem-equipado está para as estranhas exigências da vida criativa. O verdadeiro trabalho está em conseguir manter a sanidade durante todas as fases de criação.
Recentemente, li um blog fabuloso, de um escritor chamado Mark Manson. Segundo ele, o segredo para encontrar seu propósito na vida é responder à seguinte pergunta com total honestidade: “Qual seu sabor preferido de sanduíche de merda?”.
O que Manson quer dizer é que toda atividade — por mais maravilhosa, empolgante e glamorosa que possa parecer a princípio — vem com a própria variedade de sanduíche de merda, seus próprios efeitos colaterais indesejados. Como escreve Manson com profunda sabedoria: “Tudo tem seus altos e baixos”. Você só precisa decidir com que tipo de baixos está disposto a lidar. Então a questão não é tanto “O que você ama fazer?”, mas sim “O que você ama fazer o su ciente para conseguir suportar os aspectos mais desagradáveis do trabalho?”.
Manson oferece a seguinte explicação: “Se você quer ser artista pro ssional, mas não está disposto a ver seu trabalho rejeitado centenas, talvez milhares de vezes, estará acabado antes mesmo de começar. Se quer ser um advogado
gurão, mas não consegue aguentar oitenta horas de trabalho por semana,
tenho más notícias para você”.
Porque se você ama e quer algo o su ciente — o que quer que seja —, não se importa em comer o sanduíche de merda que vem de quebra.
Se você realmente quer ter um bebê, por exemplo, não se importará com o enjoo matinal.
Se realmente quer ser sacerdote, não se importará em escutar os problemas dos outros.
Se realmente ama fazer apresentações ao vivo, aceitará os desconfortos e inconvenientes de viver na estrada.
Se realmente quer ver o mundo, estará disposto a se arriscar a ser vítima de um batedor de carteiras em um trem.
Se realmente quer praticar patinação artística, não se importará em acordar antes do amanhecer nas manhãs frias para ir ao rinque.
Meu amigo a rmava que queria ser escritor de todo o coração, mas no nal das contas não queria comer o sanduíche de merda que fazia parte do pacote. Amava escrever, sem dúvida, mas não o su ciente para suportar a ignomínia de não obter os resultados que queria, quando queria. Não desejava se empenhar tanto em nada que não fosse lhe garantir algum grau de sucesso material.
O que signi ca, em minha opinião, que só queria ser escritor de meio coração.
E, claro, logo acabou desistindo.
O que me deixou de olho em seu sanduíche de merda comido pela metade. Minha vontade era de perguntar: “Você ainda vai querer ou posso terminar?”.
Porque eu amava tanto o trabalho, que estaria disposta até a comer o sanduíche de merda de outra pessoa se pudesse com isso passar mais tempo escrevendo.
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