Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 3 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Uma existência mais ampla

 

Quando falo aqui de “viver criativamente”, entenda que não estou necessariamente falando de buscar uma vida que seja dedicada pro ssional ou exclusivamente às artes. Não estou dizendo que você precisa virar poeta e ir morar no topo de uma montanha na Grécia, que precisa se apresentar no Carnegie Hall ou vencer a Palma de Ouro em Cannes. (Mas, se quiser tentar qualquer um desses feitos, vá em frente. Adoro ver as pessoas dando o máximo de si.) Não; quando falo de “viver criativamente”, estou falando de maneira mais ampla. Estou falando de viver uma vida mais motivada pela curiosidade do que pelo medo.

Um dos exemplos mais legais de vida criativa que vi nos últimos anos veio de minha amiga Susan, que começou a fazer patinação artística aos quarenta anos. Para ser mais precisa, na verdade ela já sabia patinar. Tinha participado de competições de patinação artística quando criança e sempre amara fazê-lo, mas abandonou o esporte durante a adolescência, quando cou claro que não tinha talento su ciente para se tornar uma campeã. ( Ah, a adorável adolescência, quando os “talentosos” são o cialmente separados do resto do rebanho, colocando assim todo o fardo dos sonhos criativos da sociedade nos frágeis ombros de algumas poucas almas seletas e condenando todo o resto a viver uma existência mais banal, livre de inspiração! Que sistema...) Durante os 25 anos seguintes, minha amiga Susan não patinou. Para que se dar ao trabalho se você não pode ser a melhor? Então ela completou quarenta anos. Estava cansada, inquieta. Sentia-se apagada e pesada. Fez um exame de consciência, como costumamos fazer nessas datas. Perguntou-se quando tinha sido a última vez que se sentira realmente leve, alegre e — sim — criativa na própria pele. Para seu espanto, percebeu que havia décadas que não se sentia assim. Na verdade, a última vez que experimentara esses sentimentos tinha sido na adolescência, na época em que ainda fazia patinação artística. Ficou chocada ao descobrir que havia se negado essa prática tão estimulante por tanto tempo e curiosa para ver se ainda era algo que amava.

Resolveu então se render à curiosidade. Comprou um par de patins, encontrou um rinque e contratou um treinador. Ignorou a voz interior que lhe dizia que estava sendo autocomplacente e ridícula por fazer essa loucura. Bloqueou os sentimentos de extremo desconforto por ser a única mulher de meia-idade no rinque em meio a todas aquelas minúsculas e levíssimas meninas de nove anos.

Simplesmente foi lá e fez.

Três vezes por semana, Susan acordava antes do amanhecer e, ainda sonolenta, antes de ir trabalhar, patinava. E patinava, e patinava, e patinava. E, sim, continuava amando patinar, tanto quanto sempre amara. Talvez até mais do que nunca, pois agora, já adulta, nalmente tinha maturidade su ciente para apreciar o valor da própria alegria. Patinar fazia com que se sentisse viva, imune ao passar do tempo. Deixou de sentir que era nada além de uma consumidora, nada além da soma de suas obrigações e de seus deveres diários. Estava fazendo algo por si, algo para si.

Era uma reviravolta. Literalmente uma reviravolta, rodopiando sobre o gelo e ganhando vida novamente — reviravolta após reviravolta após reviravolta...

Observe que minha amiga não largou o emprego, não vendeu a casa, não se afastou de todo mundo nem se mudou para Toronto a m de treinar setenta horas por semana com um rigoroso treinador olímpico. E não, esta história não termina com ela ganhando uma medalha. Não precisa. Na verdade, esta história não termina, pois Susan ainda pratica patinação artística diversas vezes por semana — simplesmente porque patinar ainda é para ela a melhor maneira de revelar certa beleza e transcendência em sua vida, que não parecem estar acessíveis de outra maneira. E Susan quer passar o tempo que for possível nesse estado de transcendência enquanto ainda está aqui na Terra.

E isso é tudo.

É isso que chamo de viver criativamente.

E, embora os caminhos e os resultados da vida criativa variem muito de pessoa para pessoa, uma coisa eu garanto: uma vida criativa é uma vida mais ampla. É uma vida maior, mais feliz e muito, muito mais interessante. Viver dessa maneira — contínua e obstinadamente trazendo à tona as joias escondidas dentro de você — é uma arte em si.

Porque é na vida criativa que sempre estará a Grande Magia.

 

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