Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Marco Aurélio intervém
O diário de Marco Aurélio, imperador romano do século II, me serve de inspiração há anos. O sábio imperador lósofo nunca escreveu suas meditações com a intenção de que fossem publicadas, mas co feliz por terem sido. Para mim é um estímulo ver esse homem brilhante, 2 mil anos atrás, tentando manter sua motivação para ser criativo, corajoso e curioso. Suas frustrações e seus autoelogios soam incrivelmente contemporâneos (ou talvez apenas eternos e universais) . Podemos ouvi-lo lidando com as mesmas questões com as quais todos precisamos lidar na vida: Por que estou aqui? Qual é meu propósito? Como estou criando obstáculos para mim mesmo? Qual é a melhor maneira de realizar meu destino?
Gosto especialmente de ver Marco Aurélio lutar contra seu perfeccionismo para voltar a escrever, quaisquer que sejam os resultados. “Faz agora o que a natureza requer”, escreve a si mesmo. “Começa, se deixam, e não olha em torno a ver se alguém o saberá. Não espera A República de Platão; satisfaz-se com um progresso ainda que mínimo; considera que não é pouca coisa o resultado desse progresso.”
Pelo amor de Deus, me diga que não sou a única a achar cativante e animador o fato de que um lendário lósofo romano precisava se tranquilizar dizendo a si mesmo que não há problema em não ser Platão.
Sério, Marco, não há problema nenhum!
Continue trabalhando.
Pelo mero ato de criar algo — qualquer coisa — você pode acabar produzindo uma obra magní ca, eterna ou importante (como fez Marco Aurélio, no m das contas, com suas Meditações ). Por outro lado, talvez isso não aconteça. Mas se sua vocação é produzir, precisa continuar produzindo mesmo assim, para poder viver seu potencial criativo ao máximo — e também para se manter são. A nal, ter uma mente criativa é como ter um cão pastor como animal de estimação: ele precisa se exercitar, do contrário vai lhe causar uma quantidade escandalosa de problemas. Dê a sua mente um trabalho a fazer ou ela acabará encontrando um, e você pode não gostar do trabalho inventado por ela (comer o sofá, cavar um buraco na sala de estar, morder o carteiro etc.). Levei anos para aprender isso, mas cheguei à conclusão de que se não estou ativamente criando algo, é provável que esteja ativamente destruindo algo (a mim mesma, um relacionamento ou minha paz de espírito) .
Acredito piamente que precisamos todos encontrar algo para fazer na vida que nos impeça de comer o sofá. Quer façamos disso uma pro ssão ou não, precisamos de uma atividade que vá além do trivial e que nos leve além dos papéis convencionais e limitadores que desempenhamos na sociedade (mãe, funcionário, vizinho, irmão, chefe etc.) . Todos precisamos de algo que ajude a nos esquecermos de nós mesmos por um tempo — esquecer momentaneamente nossa idade, nosso sexo, nossa origem socioeconômica, nossos deveres, fracassos e tudo que perdemos e estragamos. Precisamos de algo que nos leve além de nós mesmos a ponto de nos fazer esquecer de comer, de fazer xixi, de aparar a grama, de guardar rancor de inimigos, de car ruminando inseguranças. A oração pode fazer isso por nós, assim como o serviço comunitário, o sexo, exercícios físicos e até o abuso de substâncias químicas (embora com terríveis consequências). Mas a vida criativa também pode. Talvez a maior bênção da criatividade seja esta: ao absorver nossa atenção por um período curto e mágico, consegue nos aliviar temporariamente do terrível fardo de sermos quem somos. E o melhor de tudo é que, ao m de sua aventura criativa, você terá um suvenir, algo que você fez, algo para lembrá-lo para sempre de seu encontro breve, porém transformador, com a inspiração.
É isto que meus livros são para mim: suvenires de viagens que z, nas quais consegui ( abençoadamente) escapar de mim mesma por um tempo.
Um estereótipo persistente da criatividade é o de que ela enlouquece as pessoas. Discordo. Não expressar a criatividade é que enlouquece as pessoas. ( “Aquilo que tendes vos salvará se o manifestardes. Aquilo que não tendes em vosso interior vos matará se não o tiverdes dentro de vós.” — Evangelho de Tomé. ) Manifeste, portanto, o que tem dentro de si, quer seja bem-sucedido ou fracasse. Faça-o, quer o produto nal ( seu suvenir) seja uma porcaria ou um tesouro, independentemente de ser amado ou odiado pelos críticos ( ou os críticos simplesmente nunca ouvirem falar em você ). Faça-o, quer as pessoas entendam ou não.
Não precisa ser perfeito e você não precisa ser Platão.
Tudo não passa de um instinto, um experimento, um mistério; então comece.
Comece onde quer que esteja. De preferência, agora mesmo.
E se a grandeza acidentalmente tropeçar em você, que ela o encontre empenhado em seu trabalho.
Empenhado e mentalmente são.
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