Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Os gordinhos
Quando tinha vinte e poucos anos, em vez de frequentar um curso de escrita criativa, trabalhei servindo mesas em uma lanchonete. Mais tarde, trabalhei em um bar. Também já fui babá, professora particular, ajudante em um rancho, cozinheira, professora de escola e vendedora de brechó e de livraria. Morava em apartamentos baratos, não tinha carro e usava roupas compradas de segunda mão. Trabalhava em todos os turnos, economizava meu salário, depois ia viajar por um tempo para aprender coisas novas. Queria conhecer pessoas e ouvir suas histórias. Dizem que os escritores devem escrever a respeito do que sabem, e tudo o que eu sabia era que ainda não sabia muita coisa, então parti em uma busca deliberada de material. Trabalhar na lanchonete foi ótimo, pois tinha acesso a dezenas de vozes diferentes todos os dias. Mantinha dois caderninhos nos bolsos traseiros: um para os pedidos dos clientes e o outro para seus diálogos. Trabalhar no bar foi ainda melhor, porque aqueles personagens quase sempre estavam levemente embriagados e, portanto, ainda mais dispostos a compartilhar suas narrativas. (Trabalhando no bar, aprendi não só que todo mundo tem uma história capaz de nos tocar o coração, mas também que todo mundo quer compartilhar essa história.) Mandava meus trabalhos para diversas publicações e, em troca, recebia uma coleção de cartas de recusa. Continuei escrevendo, apesar das rejeições. Trabalhava em meus contos sozinha no quarto — e também em estações de trem, escadarias, bibliotecas, parques e nos apartamentos de vários amigos, namorados e parentes. Enviava cada vez mais trabalhos para diferentes editoras e era sempre rejeitada, rejeitada, rejeitada.
Não gostava das cartas de recusa. Quem gostaria? Mas pensava a longo prazo: minha intenção era passar a vida toda em comunhão com a escrita e ponto nal. ( E como as pessoas na minha família vivem para sempre — tenho uma avó de 102 anos! —, achei que, aos vinte e poucos anos, era cedo demais para começar a entrar em pânico e achar que meu tempo estava acabando.) Sendo assim, os editores podiam me rejeitar quanto quisessem; eu não iria a lugar nenhum. Sempre que recebia essas cartas de recusa, portanto, permitia que meu ego dissesse em voz alta para quem quer que as tivesse assinado: “Pensa que consegue me desanimar? Ainda tenho mais uns oitenta anos para vencer você pelo cansaço! Existem pessoas que ainda nem nasceram e que vão me rejeitar algum dia, só para você ter ideia de por quanto tempo pretendo continuar insistindo”.
Depois guardava a carta e voltava a trabalhar.
Decidi jogar o jogo das cartas de recusa como se fosse uma grande e cósmica partida de tênis: alguém me lançava uma recusa e eu a rebatia imediatamente por cima da rede, enviando o trabalho para outra editora naquela mesma tarde. Minha política era: Você joga para mim, eu rebato diretamente para o universo.
Sabia que tinha que fazer assim, pois ninguém publicaria meu trabalho para mim. Não tinha nenhum defensor, nenhum agente, nenhum patrono, nenhum contato. ( Não só não conhecia ninguém que tivesse um emprego no mundo editorial como também não conhecia quase ninguém que tivesse um emprego, qualquer que fosse.) Sabia que ninguém bateria um dia em minha porta e diria: “Ouvimos dizer que mora aqui uma jovem escritora muito talentosa cujos trabalhos nunca foram publicados. Gostaríamos de ajudá-la a progredir em sua carreira”. Não, eu precisava me promover, e foi o que z. Repetidamente. Lembro-me de ter a clara sensação de que nunca conseguiria vencê-los pelo cansaço — aqueles guardiões sem rosto e sem nome do portão que eu incansavelmente sitiava. Talvez nunca cedessem. Talvez nunca me deixassem entrar. Talvez minha estratégia nunca funcionasse.
Não importava.
Não desistiria de jeito nenhum de meu trabalho só porque não estava “funcionando”. A questão não era essa. Eu sabia que as recompensas não podiam vir de resultados externos. Tinham de vir da alegria de desintrincar o trabalho em si e da consciência pessoal de que eu havia escolhido o caminho da devoção e estava sendo el a ele. Se algum dia tivesse a sorte de ser paga por meu trabalho, ótimo, mas, enquanto isso não acontecesse, sempre poderia conseguir dinheiro de outras formas. Existem muitas maneiras neste mundo de ganhar o su ciente para levar uma vida boa o bastante. Tentei várias delas e sempre consegui me virar bem.
Eu era feliz. Era uma completa desconhecida, mas era feliz.
Economizava meus salários, fazia viagens e tomava notas. Visitei as pirâmides do México e tomei notas. Pegava ônibus nos subúrbios de Nova Jersey e tomava notas. Fui ao Leste Europeu e tomei notas. Ia a festas e tomava notas. Fui ao Wyoming, trabalhei como cozinheira em um rancho e tomei notas.
Ainda antes de completar trinta anos, reuni alguns amigos que também queriam se tornar escritores e começamos nossa própria o cina literária. Duas vezes por mês, nos reuníamos por várias horas e líamos elmente os trabalhos uns dos outros. Por razões que já não recordo, nos intitulávamos Os gordinhos. Era a o cina literária mais perfeita do mundo — pelo menos a nossos olhos. Havíamos selecionado os participantes cuidadosamente, impedindo assim que os estraga-prazeres que costumam aparecer em muitas dessas o cinas pisassem nos sonhos dos outros. Estabelecíamos prazos e incentivávamos uns aos outros a enviar trabalhos às editoras. Passamos a conhecer as vozes e as di culdades de cada um dos participantes e ajudávamos uns aos outros a trabalhar para superar nossos obstáculos habituais especí cos. Comíamos pizza e ríamos.
A o cina dos gordinhos era produtiva, inspiradora e divertida. Era um lugar seguro, onde podíamos criar, explorar e expor nossa vulnerabilidade — e era totalmente grátis! ( Exceto a pizza, claro. Mas você entendeu aonde estou querendo chegar, certo? Podemos fazer esse tipo de coisa nós mesmos!)
OceanofPDF.com