Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 70 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

O ensino da dor

 

Infelizmente, a história de Katie não é incomum.

Muitas pessoas criativas foram ensinadas a suspeitar do prazer e só con ar no sofrimento. Há diversos artistas que acreditam que a angústia é a única experiência emocional verdadeiramente autêntica. Podem ter tirado essa ideia sombria de qualquer lugar; é uma crença comum aqui no mundo ocidental, com nossas heranças emocionais pesadas de sacrifício cristão e romantismo germânico, que dão crédito excessivo aos méritos da agonia.

Não con ar em nada além do sofrimento, no entanto, é um caminho perigoso. Para começar, o sofrimento é famoso por matar artistas. E, mesmo quando não os mata, a dependência da dor pode deixá-los em tal estado de transtorno mental que acabam parando completamente de trabalhar. ( Meu ímã de geladeira preferido diz: “Já sofri o bastante. Quando é que a minha arte vai melhorar?”.) Talvez você também tenha sido ensinado a acreditar na escuridão.

É possível até que esses ensinamentos tenham vindo de pessoas criativas que você amava e admirava. Foi certamente o meu caso. Quando estava no ensino médio, um professor de inglês que eu adorava certa vez me disse: “Você é uma escritora talentosa, Liz. Mas, infelizmente, nunca terá sucesso, porque não sofreu o su ciente na vida”.

Que coisa horrível de se dizer!

Em primeiro lugar, o que é que um homem de meia-idade sabe a respeito do sofrimento de uma adolescente? Provavelmente eu tinha sofrido mais naquele dia apenas durante o intervalo do almoço do que ele sofrera a vida inteira. E, além disso, desde quando a criatividade é uma competição de sofrimento?

Eu admirava aquele professor. Imagine se tivesse acreditado piamente em suas palavras e decidido partir em uma espécie de busca byroniana de atribulações que me legitimassem como artista. Felizmente, não z isso. Meus instintos me levaram na direção oposta, em busca da leveza, da diversão, de um relacionamento com a criatividade mais pautado na con ança. Mas tive sorte. Há muitos que partem, de fato, nessa cruzada sombria e, às vezes, de propósito. “Todos os meus heróis musicais eram viciados em drogas e quero ser como eles”, disse minha querida amiga Rayya Elias, uma compositora talentosa que lutou contra o vício da heroína por mais de uma década. Durante esse período, foi presa, morou na rua e foi internada em hospitais psiquiátricos — e parou completamente de compor.

Rayya não é a única artista a ter confundido a autodestruição com um compromisso sério com a criatividade. O saxofonista Jackie McLean contava que, durante a década 1950, em Greenwich Village, vira dezenas de jovens aspirantes a músicos começarem a usar heroína para imitar seu herói, Charlie Parker. E ainda mais impressionante, segundo McLean, era o fato de que muitos jovens jazzistas ngiam ser viciados em heroína (“de olhos entreabertos, fazendo aquela pose largada”) , ainda que o próprio Charlie Parker implorasse às pessoas que não imitassem aquele seu aspecto mais trágico. No entanto, talvez seja mais fácil usar heroína — ou até ngir romanticamente usar heroína — do que se dedicar de coração à sua arte.

O vício não faz o artista. Raymond Carver, por exemplo, sabia disso por experiência própria. Era alcoólatra e nunca conseguiu se tornar o escritor que precisava ser — nem mesmo para tratar do assunto do alcoolismo — até largar a bebida. Segundo ele, “qualquer artista que seja alcoólatra é um artista apesar do alcoolismo, não graças a ele”.

Concordo. Acredito que nossa criatividade cresça como erva daninha na calçada: das brechas entre nossas patologias, não das próprias patologias. Mas muitas pessoas acham que é o contrário. Por isso encontramos com frequência artistas que deliberadamente se apegam ao sofrimento, aos vícios, medos e demônios. Eles têm medo de perder a identidade caso se desprendam de toda essa angústia. Pense na famosa frase de Rilke: “Se meus demônios me abandonarem, temo que meus anjos desapareçam também”.

Rilke era um poeta glorioso, e essa frase é de uma elegância ímpar, mas também denota sérios transtornos emocionais. Infelizmente, já a ouvi sendo citada inúmeras vezes por pessoas criativas como desculpa para não largarem a bebida, não se consultarem com um terapeuta, não fazerem um tratamento para a depressão ou a ansiedade, não lidarem com seus problemas sexuais ou de relacionamento, ou basicamente se recusarem a buscar qualquer tipo de cura e crescimento pessoal — porque não querem perder seu sofrimento, que de alguma forma associaram e confundem com a criatividade.

As pessoas têm, de fato, uma estranha con ança em seus demônios.

 

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