Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Um coração deslumbrado
E quanto à maneira como Ann Patchett enxergou o que aconteceu entre nós? Como percebeu o curioso milagre do romance sobre a Floresta Amazônica que havia quicado em minha cabeça e ido parar na dela?
Bem, Ann é uma alma muito mais racional do que eu, mas até ela sentiu que algo bastante sobrenatural tinha ocorrido. Mesmo ela sentiu que aquela inspiração havia escapado de mim e — com um beijo — pousado nela. Nas cartas seguintes que me escreveu, teve a generosidade de sempre se referir a seu romance sobre a Floresta Amazônica como “nosso romance sobre a Floresta Amazônica”, como se fosse a “mãe de aluguel” de uma ideia concebida por mim.
Isso foi muito amável da parte dela, mas não é verdade. Como qualquer pessoa que tenha lido Estado de graça sabe muito bem, aquela história magní ca pertence inteiramente a Ann Patchett. Ninguém mais poderia ter escrito aquele romance como ela o fez. Seria mais correto dizer que eu fui a mãe substituta que manteve a ideia protegida durante alguns anos enquanto ela procurava seu verdadeiro colaborador de direito. Quem sabe quantos outros autores aquela ideia já havia visitado no decorrer dos anos antes de ir parar sob meus cuidados por um tempo, até nalmente encontrar Ann? ( Boris Pasternak descreveu o fenômeno nestas belas palavras: “Nenhum livro de verdade tem uma primeira página. Como o farfalhar da oresta, é concebido só Deus sabe onde, cresce e rola, despertando a oresta densa e selvagem, até que de repente... começa a falar ao mesmo tempo com todas as copas das árvores”.) Tudo o que sei ao certo é que esse romance queria muito ser escrito e só parou de rolar e procurar quando nalmente encontrou a autora que estava pronta e disposta a assumi-lo — não mais tarde, não algum dia, não em alguns anos, não quando as coisas melhorassem ou quando a vida casse mais fácil, mas naquele momento.
Então aquela se tornou a história de Ann.
Tudo o que me restou dela foi um coração deslumbrado e a sensação de viver em um mundo extraordinário, cheio de mistérios. Como disse o físico britânico Sir Arthur Eddington sobre o funcionamento do universo: “Há algo desconhecido fazendo algo que não sabemos o que é”.
Mas a melhor parte é que não preciso saber o que é.
Não exijo uma tradução do desconhecido. Não preciso entender o que tudo isso signi ca, onde as ideias são concebidas originalmente ou por que a criatividade funciona de maneira tão imprevisível. Não preciso saber por que às vezes conseguimos conversar livremente com a inspiração e outras vezes damos um duro danado sozinhos e não produzimos nada. Não preciso saber por que hoje uma ideia decidiu visitar você e não a mim. Ou por que visitou nós dois. Ou por que nos abandonou.
Nenhum de nós tem como saber nada disso, pois esse é um dos grandes enigmas do universo.
Tudo o que sei ao certo é que é assim que quero passar minha vida: colaborando da melhor maneira que puder com forças de inspiração que não tenho como ver, comprovar, controlar ou entender.
Devo admitir que é um ramo de trabalho estranho.
Mas não consigo pensar em uma maneira melhor de passar os dias.
1 Romancista, ensaísta e poeta americana. (N. T.)
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