Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 50 de 90

Páginas do PDF

Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

O balde vazio

 

Continuei trabalhando.

Continuei escrevendo.

Meu trabalho continuou não sendo publicado, mas isso não me importava, pois estava me educando.

O maior benefício de meus anos de trabalho solitário e disciplinado foi que comecei a reconhecer os padrões emocionais da criatividade — ou, melhor, comecei a reconhecer meus padrões. Passei a ver que havia ciclos psicológicos em meu processo criativo e que esses ciclos eram sempre muito parecidos.

“Ah”, aprendi a dizer quando inevitavelmente começava a me desanimar de um projeto apenas algumas semanas após o ter iniciado cheia de entusiasmo. “Esta é a parte do processo em que eu gostaria de nunca ter decidido me dedicar a essa ideia. Eu me lembro disso. Sempre passo por essa fase.”

Ou: “Esta é a parte em que digo a mim mesma que nunca mais vou escrever uma frase decente”.

Ou: “Esta é a parte em que co me criticando por ser uma preguiçosa inútil”.

Ou: “Esta é a parte em que começo a car apavorada, imaginando que as críticas serão péssimas — se este negócio for publicado algum dia”.

Ou, depois de terminar o projeto: “Esta é a parte em que entro em pânico, achando que nunca mais vou conseguir produzir nada”.

Após anos de trabalho e dedicação, contudo, descobri que, se continuasse com o processo e não entrasse em pânico, podia superar com segurança cada estágio de ansiedade e passar para o nível seguinte. Tentava me encorajar com lembretes de que esses medos eram reações humanas completamente naturais à interação com o desconhecido. Quando conseguia me convencer de que devia de fato estar ali — de que somos destinados a colaborar com a inspiração e a inspiração quer trabalhar conosco —, normalmente conseguia superar meu campo minado emocional sem explodir antes de terminar o projeto.

Nesses momentos, podia quase ouvir a criatividade falando comigo enquanto me deixava levar pelo medo e pela dúvida.

Fique comigo, ela dizia. Volte para mim. Con e em mim.

Decidi con ar nela.

Minha maior expressão de alegria obstinada tem sido a persistência dessa con ança.

Um comentário especialmente elegante a respeito desse instinto foi feito por Seamus Heaney, ganhador do prêmio Nobel, que a rmou que, quando se está aprendendo a escrever poesia, não se deve esperar que ela seja boa de imediato. O aspirante a poeta está constantemente descendo um balde só até a metade de um poço e voltando sem nada além de ar.

Após muitos anos de prática, explicou Heaney, “a corda inesperadamente se retesa: você mergulhou em águas que continuarão a seduzi-lo, a trazê-lo de volta. Você penetrou no reservatório de si mesmo”.

 

OceanofPDF.com