Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Fantasmas famintos
Você vai fracassar.
É uma droga e odeio ter que dizer isso, mas é verdade. Você assumirá riscos criativos que muitas vezes não darão em nada. Certa vez, joguei fora um livro inteiro que tinha escrito porque não deu certo. Trabalhei com a nco para terminá-lo, mas realmente não funcionou, então acabei jogando fora. ( Não sei por que não deu certo! Como é que posso saber? Por acaso sou alguma espécie de médica-legista de livros? Não tenho nenhum atestado com a causa do óbito. O negócio simplesmente não funcionou!) Fico triste quando fracasso, decepcionada. E a decepção pode fazer com que me sinta enojada de mim mesma ou mal-humorada com os outros. A esta altura da vida, porém, aprendi a lidar com a decepção sem mergulhar muito fundo em crises de vergonha, raiva ou inércia. Isso porque, com o passar do tempo, fui compreendendo qual é a parte de mim que sofre quando fracasso: apenas meu ego.
É simples assim.
Veja bem, não tenho nada contra o ego, de modo geral. Todos temos um. ( Alguns talvez tenham até dois.) Assim como o medo é necessário para a sobrevivência humana, o ego também é essencial para nos fornecer os contornos fundamentais da individualidade — para nos ajudar a proclamar nossa personalidade, de nir nossos desejos, entender nossas preferências e defender nossas fronteiras. O ego, em termos simples, é o que faz de cada um de nós o que somos. Sem ele, não passamos de coisas amorfas. Portanto, como a rma a socióloga e escritora Martha Beck: “Não saia de casa sem ele”.
Mas não deixe que seu ego assuma completamente o controle da situação, caso contrário ele acabará com a festa. Seu ego é um excelente criado, mas é péssimo senhor, pois a única coisa que quer é receber recompensas, recompensas e mais recompensas. E como nunca há recompensas su cientes para satisfazê-lo, ele sempre cará decepcionado. Se não for controlado, esse tipo de decepção pode acabar com você. Um ego desgovernado é o que os budistas chamam de “fantasma faminto”: sempre esfomeado, sempre uivando, carente e insaciável.
Dentro de todos nós existe uma versão dessa fome. Todos temos aquela presença lunática que vive no fundo de nossas entranhas e se recusa a se satisfazer com o que quer que seja. Eu tenho, você tem, todos nós temos. O que me salva é o seguinte: sei que não sou apenas um ego; sou também uma alma. E sei que minha alma não está nem aí para recompensas ou fracassos. Minha alma não é guiada por sonhos de louvor ou medo de críticas. Ela nem sequer possui uma linguagem para esse tipo de conceito. Quando cuido dela, minha alma é uma fonte de orientação muito mais ampla e fascinante do que meu ego jamais será, pois ela só deseja uma coisa: o encantamento. E, como a criatividade é o caminho mais e ciente para o encantamento, é nela que me refugio. A criatividade alimenta minha alma e acalma o fantasma faminto, me salvando assim da parte mais perigosa de mim mesma.
Então, sempre que aquela vozinha aguda de insatisfação surge dentro de mim, posso dizer: “Ah, meu ego! Aí está você, velho amigo!”. É a mesma coisa quando estou sendo criticada e me dou conta de que minha reação é me sentir insultada, angustiada, e car na defensiva. É apenas meu ego se in amando e testando seu poder. Nessas circunstâncias, aprendi a observar cuidadosamente minhas emoções acaloradas, mas tento não levá-las muito a sério, pois sei que foi só meu ego quem se feriu, nunca minha alma. É só meu ego que quer se vingar ou ganhar o maior prêmio. Ele é o único que quer começar uma guerra no Twitter contra um hater, ca emburrado por causa de um insulto ou decide desistir — acreditando ter toda a razão em estar indignado — porque não alcancei o resultado que queria.
Nesses momentos, sempre consigo estabilizar a vida retornando mais uma vez à minha alma. Pergunto a ela: “E o que é que você quer, minha querida?”.
A resposta é sempre a mesma: “Mais encantamento, por favor”.
Enquanto eu continuar seguindo nessa direção — rumo ao encantamento —, sei que minha alma sempre estará bem, que é o que importa. E como a criatividade ainda é para mim a maneira mais e caz de acessar o encantamento, é ela minha escolha. Escolho bloquear todas as distrações e os ruídos externos (e internos) e sempre voltar à criatividade. Pois, sem essa fonte de encantamento, sei que estou condenada. Sem ela, meu destino é vagar para sempre pelo mundo em um estado de perpétua insatisfação — nada além de um fantasma uivante, preso em um corpo feito de carne em lenta decomposição.
E isso, para mim, não serve.
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