Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Casa dos espelhos
Escrevi um livro que acidentalmente se tornou um enorme best-seller e, durante alguns anos, foi como se eu estivesse morando na casa dos espelhos de um parque de diversões.
Acredite, nunca tive a intenção de escrever um best-seller. Mesmo que tentasse, não saberia como. ( Um bom exemplo disso é o fato de eu ter escrito seis livros — todos com a mesma paixão e o mesmo esforço — e cinco deles decididamente não terem sido enormes best-sellers.) Sem dúvida, não senti, enquanto escrevia Comer, rezar, amar, que estava produzindo o maior trabalho da minha vida ou o mais importante. Só sabia que, para mim, escrever algo tão pessoal era diferente de tudo que já havia feito. Imaginei que as pessoas fossem zombar do livro por ser tão sincero. Mas o escrevi mesmo assim, porque, por razões pessoais, precisava escrevê-lo ( e também porque estava curiosa para ver se conseguiria transpor para o papel de maneira adequada minhas experiências emocionais ). Nunca me ocorreu que meus pensamentos e sentimentos pudessem se cruzar de maneira tão intensa com os pensamentos e sentimentos de tantas outras pessoas.
Vou lhe contar uma história para você ver como eu não tinha a menor noção, enquanto escrevia o livro, do sucesso que ele faria. Durante uma das viagens narradas em Comer, rezar, amar, me apaixonei por aquele brasileiro chamado Felipe, com quem agora sou casada. Em determinado momento — pouco depois do início do nosso namoro —, perguntei se ele se importaria que eu escrevesse a respeito dele em minhas memórias. “Bem, depende”, disse ele. “O que está em jogo?”
“Nada”, respondi. “Acredite, ninguém lê meus livros.”
Mais de 12 milhões de pessoas acabaram lendo aquele livro.
E porque tanta gente o leu e tanta gente discordou dele, em determinado ponto Comer, rezar, amar deixou de ser um livro propriamente dito e se tornou uma imensa tela na qual milhões de pessoas projetavam suas emoções mais intensas. Essas emoções iam desde ódio absoluto até adulação cega. Recebi cartas dizendo Odeio tudo a respeito de você, e outras que diziam Você escreveu minha bíblia.
Imagine se eu tivesse tentado criar uma de nição de mim mesma com base em qualquer uma dessas reações. Não tentei. E essa é a única razão pela qual Comer, rezar, amar não me tirou de meu caminho como escritora: graças à profunda convicção que sempre tive de que os resultados do meu trabalho não têm muito a ver comigo. Só posso me encarregar de produzir a obra em si. Já é um trabalho difícil o su ciente. Recuso-me a assumir tarefas adicionais, como tentar policiar o que os outros pensam a respeito de meus livros depois que deixam minha escrivaninha.
Além disso, me dei conta de que seria absurdo e imaturo de minha parte esperar que eu tivesse direito a uma voz mas outras pessoas não. Se posso expressar minha verdade interior, então meus críticos também podem expressar as deles. Nada mais justo. A nal de contas, se você se aventura a criar algo e a compartilhar sua criação com o resto do mundo, é possível que provoque acidentalmente algum tipo de reação. Esta é a ordem natural da vida: o eterno inspirar e expirar de ação e reação. Mas você de nitivamente não tem controle sobre a reação — mesmo quando essa reação é pura e simplesmente bizarra.
Um dia, por exemplo, uma mulher me abordou em uma livraria e disse: “Comer, rezar, amar mudou a minha vida. Você me inspirou a largar meu marido violento e a me libertar. Tudo por causa daquele momento no seu livro — aquele momento em que você descreve como conseguiu uma ordem judicial de afastamento contra seu ex-marido porque estava cansada da violência dele e não ia mais tolerar aquilo”.
Ordem judicial de afastamento? Violência?
Isso nunca aconteceu! Nem no meu livro nem na minha vida real! Não haveria nem como ler essa narrativa nas entrelinhas de minhas memórias, pois tudo isso não poderia estar mais longe da verdade. Contudo, aquela mulher subconscientemente inserira aquela história — sua própria história — em minhas memórias porque, imagino, precisava fazê-lo. (Talvez tenha sido mais fácil para ela, de alguma forma, acreditar que seu surto de determinação e força tinha vindo de mim e não de si mesma. ) Qualquer que tenha sido sua motivação emocional, no entanto, ela se inseriu em minha história e, nesse processo, apagou a narrativa que eu havia escrito de fato. Por mais estranho que possa parecer, acho que tinha todo o direito de fazer isso. Acho que essa mulher tem pleno direito de interpretar meu livro como quiser. Depois que ele caiu em suas mãos, a nal, tudo nele passou a pertencer a ela, não mais a mim.
Reconhecer essa realidade — de que a reação não pertence a você — é a única maneira sã de criar. Se as pessoas gostarem do que você criou, ótimo. Se o ignorarem, que pena. Se o interpretarem de maneira errada, não se preocupe. E se simplesmente odiarem o que você criou? Se o atacarem com críticas mordazes, insultarem sua inteligência, difamarem seus motivos e arrastarem seu nome pela lama?
Apenas sorria e sugira — da maneira mais educada que puder — que vão fazer sua própria arte, pô!
E continue fazendo a sua.
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