Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 61 de 90

Páginas do PDF

Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Sucesso

 

Durante todos aqueles anos que passei dando um duro danado em meus dois empregos xos e ainda encontrando tempo para me dedicar à escrita, sabia que não havia nenhuma garantia de que alguma coisa daquilo funcionaria.

Sempre soube que poderia não conseguir o que desejava, que poderia nunca me tornar uma autora publicada. Nem todo mundo alcança uma posição confortável de sucesso no mundo das artes. A maioria não consegue isso. E embora eu sempre tenha acreditado no pensamento mágico, nunca fui ingênua a ponto de achar que simplesmente desejar o sucesso faria com que ele acontecesse. Ter talento pode não ser su ciente para que aconteça. Dedicação pode não ser su ciente. Até incríveis contatos pro ssionais — que, em todo caso, eu não tinha — podem não ser su cientes.

A vida criativa é mais estranha do que outras atividades mais mundanas. As regras comuns não se aplicam. Na vida normal, se você é bom em alguma coisa e se esforça, é provável que alcance o sucesso. Em empreendimentos criativos, talvez não. Ou talvez você tenha sucesso por algum tempo, depois nunca mais volte a alcançá-lo. Podem lhe oferecer recompensas em uma bandeja de prata e, ao mesmo tempo, puxar seu tapete. Você pode ser adorado por um tempo, depois sair de moda. Outras pessoas menos inteligentes podem tomar seu lugar como queridinhas da crítica.

A deusa protetora do sucesso criativo às vezes parece uma senhora rica e caprichosa que mora em uma enorme mansão em uma colina distante e toma decisões estranhíssimas a respeito de quem deve receber sua fortuna. Às vezes contempla charlatões e ignora os talentosos. Exclui de seu testamento pessoas que a serviram lealmente durante toda a vida e dá uma Mercedes para aquele menino bonitinho que cortou sua grama certa vez. Muda de ideia com frequência. Tentamos descobrir seus motivos, mas eles permanecem ocultos. Nunca é obrigada a nos dar explicações. Em resumo, a deusa do sucesso criativo pode aparecer para você ou não. É melhor, então, não contar com ela nem vincular sua de nição de felicidade pessoal a seus caprichos.

Talvez seja melhor reconsiderar sua de nição de sucesso, e ponto nal.

Pessoalmente, decidi desde cedo manter o foco na dedicação ao trabalho acima de tudo. Esse seria meu critério de autoavaliação. Sabia que o sucesso convencional dependeria de três fatores — talento, sorte e disciplina — e que dois deles nunca estariam sob meu controle. A aleatoriedade genética já havia determinado a porção de talento que me seria alocada e a aleatoriedade do destino decidiria minha sorte. A única parte sobre a qual eu tinha algum controle era minha disciplina. Reconhecendo isso, o melhor plano parecia ser trabalhar feito uma condenada. Era minha única jogada possível, então joguei com tudo.

Veja bem, trabalhar duro não garante nada nas áreas criativas. (Nada garante nada nas áreas criativas.) Mas não consigo deixar de acreditar que essa disciplina dedicada é a melhor abordagem. Você ama o que faz e o faz ao mesmo tempo com seriedade e leveza? Então pelo menos saberá que tentou e que — qualquer que seja o resultado — trilhou um caminho nobre.

Tenho uma amiga, aspirante a musicista, que certo dia recebeu da irmã alguns questionamentos bastante razoáveis: “O que acontece se você não conseguir tirar nada disso? E se você seguir sua paixão para sempre, mas o sucesso nunca vier? Como é que você vai se sentir tendo desperdiçado toda a sua vida por nada?”.

Minha amiga deu uma resposta igualmente razoável: “Se você não consegue enxergar o que já estou tirando disso, nunca vou conseguir lhe explicar”.

Quando é por amor, fazemos de um jeito ou de outro.

 

OceanofPDF.com