Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
O medo é chato
No decorrer dos anos, muitas vezes me perguntei o que nalmente me fez parar de fazer o papel de Maria Medrosa quase de um dia para o outro. Sem dúvida, essa evolução envolveu muitos fatores (o fator mãe durona, o fator crescimento ), mas acho que o principal foi o seguinte: no m, percebi que meu medo era chato.
Veja bem, meu medo sempre tinha sido chato para todas as outras pessoas, mas foi só lá pelo meio da adolescência que se tornou, en m, chato até para mim. Acho que meu medo se tornou chato para mim pela mesma razão pela qual a fama se tornou chata para Jack Gilbert: porque era a mesma coisa todos os dias.
Por volta dos quinze anos, de alguma maneira entendi que meu medo não tinha nenhuma variedade, nenhuma profundidade, nenhuma substância. Percebi que meu medo nunca mudava, nunca empolgava, nunca oferecia uma reviravolta surpreendente ou um nal inesperado. Meu medo era uma música de uma só nota. Na verdade, uma música de uma só palavra — e essa palavra era “PARE!”. Meu medo nunca teve nada de mais interessante ou sutil para oferecer do que aquela única palavra enfática, repetida ad in nitum: “PARE, PARE, PARE, PARE !”.
O que signi ca que meu medo sempre tomou decisões previsivelmente chatas, como um livro do gênero Enrola e Desenrola que sempre acaba do mesmo jeito: em nada.
Também me dei conta de que meu medo era chato porque era idêntico ao medo de todas as outras pessoas. Percebi que a música do medo de todo mundo tinha exatamente a mesma letra entediante: “PARE, PARE, PARE, PARE!”. É verdade, o volume pode variar de uma pessoa para outra, mas a música em si nunca muda, porque todos nós, humanos, somos equipados com o mesmo kit de medo básico quando estamos sendo preparados nos úteros de nossas mães. E não só os humanos: se você passar a mão sobre uma placa de Petri contendo um girino, ele se encolherá sob a sombra da mão. Esse girino não pode escrever poesia, não pode cantar e nunca conhecerá o amor, o ciúme ou o triunfo. Tem o cérebro do tamanho de um ponto nal, mas sabe direitinho ter medo do desconhecido.
Pois bem, eu também sei.
Todos nós sabemos. Mas não há nada de particularmente atraente nisso. Está entendendo o que quero dizer? Você não ganha nenhum crédito especial por saber como ter medo do desconhecido. Em outras palavras, o medo é um instinto muito antigo e vital em termos evolutivos... mas não é algo particularmente inteligente.
Durante toda a minha curta vida de a ições, tinha me xado em meu medo como se fosse a coisa mais interessante a respeito de mim, quando na verdade era a mais banal. Na realidade, o medo era provavelmente a única coisa 100% banal a respeito de mim. Tinha dentro de mim uma criatividade original, uma personalidade original, sonhos, perspectivas e aspirações originais. Mas não havia nada de original no meu medo. Não era nenhuma espécie de objeto artesanal raro; não passava de um artigo produzido em massa, disponível nas prateleiras de qualquer grande supermercado.
E era em torno disso que eu queria construir toda a minha identidade?
Do instinto mais chato que eu possuía?
De um re exo induzido pelo pânico? Um re exo que até um girino idiota tem?
Não.
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