Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Confiança de malandro
Acredito que o impulso humano original para a criatividade nasceu puramente da energia do malandro. Claro! A criatividade quer virar o mundo trivial de cabeça para baixo e do avesso, o que é exatamente o que um malandro sabe fazer melhor. Mas, em algum ponto no decorrer dos últimos séculos, a criatividade foi sequestrada pelos mártires e desde então vem sendo mantida como refém em um campo de sofrimento. Para mim, essa reviravolta deixou a arte se sentindo muito triste. Sem dúvida, deixou muitos artistas se sentindo muito tristes.
Eu diria que está na hora de devolver a criatividade aos malandros.
O malandro é obviamente uma gura fascinante e subversiva. Mas, para mim, o mais maravilhoso em um bom malandro é que ele con a. Pode parecer contraintuitivo sugerir isso, pois tendemos a enxergar o malandro como alguém esquivo e de caráter duvidoso, mas na verdade é cheio de con ança. Con a em si mesmo, obviamente. Con a na própria astúcia, no direito de estar aqui, na capacidade de se sair bem em qualquer situação. Em certa medida, claro, também con a nas outras pessoas (no sentido em que serão alvos fáceis para sua esperteza) . Porém, acima de tudo, o malandro con a no universo: em seu caos, sua desordem e seu eterno fascínio. Por isso não sofre de ansiedade indevida. Con a em que o universo está sempre brincando e, especi camente, que quer brincar com ele.
Um bom malandro sabe que, se lançar alegremente uma bola em direção ao cosmos, ela será rebatida para ele. Talvez seja rebatida com força, talvez meio torta, talvez volte em uma saraivada de projéteis digna de um desenho animado ou talvez só retorne no meio do ano seguinte — porém, mais cedo ou mais tarde, aquela bola será jogada de volta para ele. O malandro espera que a bola retorne, a apanha quando chega e a lança mais uma vez em direção ao vazio, só para ver o que acontecerá. E adora fazer isso, pois (com toda sua esperteza) entende a única grande verdade cósmica que o mártir (com toda sua seriedade) nunca conseguirá compreender: tudo isso não passa de um jogo.
Um grande, maravilhoso e estranho jogo.
O que não é problema nenhum, porque o malandro gosta do estranho.
O estranho é seu ambiente natural.
O mártir odeia o estranho. O mártir quer matar o estranho. E, ao fazer isso, com frequência acaba se matando também.
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