Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Medo de salto alto
Fui apaixonada por um homem — na minha opinião, um escritor muito mais talentoso do que eu — que aos vinte e poucos anos decidiu desistir de tentar ser autor porque seus trabalhos nunca saíam tão primorosos no papel quanto os imaginava em sua cabeça. Considerava tudo aquilo frustrante demais. Não queria macular o ideal resplandecente que tinha em mente pondo no papel uma versão menos elegante.
Enquanto eu ralava para produzir meus contos desajeitados e decepcionantes, aquele jovem brilhante se recusava a escrever uma palavra sequer. Tentou até me deixar com vergonha de estar tentando escrever: os terríveis resultados não me doíam, não me ofendiam? Queria dar a entender com isso que possuía um senso de discernimento artístico mais puro do que o meu. A exposição a imperfeições — mesmo as próprias imperfeições — feria-lhe a alma. Sentia haver nobreza em sua escolha de nunca escrever um livro se não pudesse escrever um grande livro.
“Pre ro ser um belo fracasso a um sucesso de ciente”, dizia.
Pois eu não.
A imagem do artista trágico que abandona suas ferramentas para não car aquém de seus impecáveis ideais não tem o menor romantismo para mim. Não vejo esse caminho como heroico. Acho que é muito mais honroso continuar no jogo — mesmo que se esteja de fato perdendo — do que pedir licença para sair a m de não ferir sua delicada sensibilidade. No entanto, para permanecer no jogo, você precisa abandonar suas fantasias de perfeição.
Então vamos falar um pouco sobre perfeição.
O grande romancista americano Robert Stone disse certa vez, brincando, que possuía os dois piores defeitos imagináveis para um escritor: era preguiçoso e perfeccionista. De fato, esses são os ingredientes essenciais para a inércia e o sofrimento. Se quiser ser feliz em sua vida criativa, não cultive nenhuma dessas duas características. Pelo contrário, aprenda a ser um criador meia-boca profundamente disciplinado.
A primeira coisa a fazer é esquecer a perfeição. Não temos tempo para a perfeição. De qualquer forma, ela é inatingível: é um mito, uma armadilha, uma roda de hamster que vai fazê-lo correr até morrer. Como resumiu muito bem a escritora Rebecca Solnit: “Muitos de nós acreditam na perfeição, o que estraga todo o resto, pois o perfeito não é inimigo somente do que é bom, mas também do que é realista, possível e divertido”.
O perfeccionismo impede as pessoas de terminarem seus trabalhos e, o que é ainda pior, muitas vezes as impede de começarem seus trabalhos. Perfeccionistas com frequência decidem de antemão que o produto nal nunca será satisfatório, então nem se dão ao trabalho de começar a criar.
Porém, a artimanha mais diabólica do perfeccionismo é se disfarçar de virtude. Em entrevistas de emprego, por exemplo, as pessoas anunciam seu perfeccionismo como se fosse sua maior qualidade, orgulhando-se exatamente daquilo que as está impedindo de aproveitar ao máximo seu comprometimento com a vida criativa. Exibem o perfeccionismo como uma medalha de honra, como se fosse uma prova de seus gostos apurados e padrões re nados.
Minha opinião, contudo, é outra. Para mim, o perfeccionismo é apenas uma versão de luxo, haute couture, do medo. Acho que o perfeccionismo não passa do medo usando sapatos chiques e um casaco de vison, ngindo ser elegante quando, na verdade, está simplesmente apavorado. Pois debaixo daquela fachada brilhante, o perfeccionismo nada mais é do que um profundo mal-estar existencial que a rma repetidamente: “Não sou bom o su ciente nem nunca serei”.
O perfeccionismo é uma isca particularmente malé ca para as mulheres, que, a meu ver, se impõem padrões de desempenho ainda mais altos do que os homens. Há muitas razões pelas quais as vozes e os pontos de vista das mulheres não são mais amplamente representados nos campos criativos hoje em dia. Parte dessa exclusão se deve à boa e velha misoginia, mas também é verdade que — muito frequentemente — as próprias mulheres se abstêm de participar. Abstêm-se de compartilhar suas ideias, suas contribuições, sua liderança e seus talentos. Muitas mulheres ainda parecem acreditar que não têm direito a se pôr em evidência a menos que elas e seus trabalhos sejam perfeitos e estejam acima de qualquer tipo de crítica.
Por outro lado, apresentar trabalhos que estão longe de ser perfeitos raramente impede os homens de participar do diálogo cultural global. (Estou só comentando... ) E, aliás, não digo isso como uma crítica aos homens. Gosto dessa característica deles: sua absurda autocon ança, a maneira como decidem casualmente: “Bem, sou 41% quali cado para esse trabalho, então pode me dar o emprego!”. Sim, às vezes os resultados são ridículos e desastrosos, mas às vezes, estranhamente, funciona. Às vezes um homem que parece não estar pronto para a tarefa, não ser bom o su ciente para ela, de alguma forma desenvolve imediatamente seu potencial só pelo fato de ter dado um voto de con ança a si mesmo.
Gostaria que mais mulheres assumissem o risco de dar a si mesmas esses votos de con ança.
No entanto, já vi muitas fazerem o oposto. Já vi muitas criadoras brilhantes e talentosas dizerem: “Sou 99,8% quali cada para esse trabalho, mas, até ter dominado aquela última gota de competência, vou me abster, por via das dúvidas”.
Não faço a menor ideia de onde as mulheres tiraram essa noção de que precisam ser perfeitas para serem amadas ou bem-sucedidas. ( Rá rá rá! Brincadeirinha! É claro que sei de onde tiramos essa noção: de absolutamente todas as mensagens que sempre nos foram transmitidas pela sociedade! Muito obrigada, história da humanidade!) Mas nós, mulheres, precisamos abandonar esse hábito, e isso é algo que só nós podemos fazer. Precisamos entender que a busca da perfeição é uma nociva perda de tempo, pois nada jamais estará imune a críticas. Não importa quantas horas você tenha gastado tentando deixar alguma coisa impecável, alguém sempre conseguirá encontrar uma falha. ( Há gente por aí que ainda considera as sinfonias de Beethoven um pouco, digamos, barulhentas. ) Em determinado ponto, você precisa terminar seu trabalho e lançá-lo da maneira que está. Ainda que seja apenas para car livre para fazer outras coisas com o coração alegre e determinado.
O que é a verdadeira razão de tudo isso.
Ou deveria ser.
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