Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 86 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Pinte sua bicicleta

 

O poeta, escritor e crítico australiano Clive James tem uma história perfeita sobre como certa vez, durante um período particularmente ruim de seca criativa, foi levado a escrever novamente.

Após um enorme fracasso ( uma peça escrita para os palcos londrinos, que não só foi massacrada pela crítica como também arruinou nanceiramente sua família e lhe custou vários amigos queridos), James se afundou em um pântano de depressão e vergonha. Depois que a peça saiu de cartaz, não fazia nada além de car sentado no sofá, olhando para a parede, envergonhado e humilhado, enquanto a esposa se virava para segurar as pontas e cuidar da família. Ele não conseguia imaginar como encontraria a coragem para voltar a escrever.

Após um longo período de depressão, contudo, as lhas pequenas de James

nalmente interromperam seu processo de luto com um pedido trivial.

Perguntaram ao pai se ele poderia fazer alguma coisa para deixar suas bicicletas de segunda mão um pouco mais bonitas. Cumprindo seu dever de pai (ainda que não estivesse muito contente) , James atendeu ao pedido. Forçou-se a deixar o sofá e deu início ao projeto.

Primeiro, pintou cuidadosamente as bicicletas de vermelho vivo. Depois, cobriu o raio das rodas de prateado e pôs listras enviesadas nos suportes dos bancos. Mas não parou por aí. Quando a tinta secou, começou a espalhar centenas de minúsculas estrelinhas prateadas e douradas pelas bicicletas, formando um campo de constelações primorosamente detalhadas. As meninas foram cando impacientes para que ele terminasse, mas James se deu conta de que simplesmente não conseguia parar de pintar estrelas (“estrelas de quatro pontas, de seis pontas e as raríssimas estrelas de oito pontas com pontinhos em volta” ). Era um trabalho incrivelmente grati cante. Quando por m terminou, as lhas saíram pedalando suas novas bicicletas mágicas, encantadas com o resultado, enquanto aquele grande homem cou lá sentado, se perguntando que diabos faria em seguida.

No dia seguinte, as lhas trouxeram para casa outra garotinha da vizinhança, que perguntou ao sr. James se ele poderia pintar estrelas na bicicleta dela também. Ele topou. Con ou no pedido. Seguiu a pista. Quando terminou, outra criança apareceu, depois outra e mais outra. Logo havia uma

la de crianças, todas esperando para que suas humildes bicicletas fossem

transformadas em obras de arte estelares.

E foi assim que um dos mais importantes escritores de sua geração passou várias semanas sentado na entrada da garagem, pintando milhares e milhares de minúsculas estrelinhas nas bicicletas de todas as crianças da vizinhança. E, ao fazer isso, foi lentamente descobrindo algo. Percebeu que “o fracasso tem uma função. Ele faz com que você se pergunte se realmente quer seguir produzindo”. Para sua surpresa, James percebeu que a resposta era sim. Realmente queria continuar produzindo. Naquele momento, tudo o que queria produzir eram belas estrelinhas em bicicletas de crianças. Mas, enquanto fazia isso, algo cicatrizava dentro de si. Algo estava voltando à vida. Pois quando a última bicicleta foi redecorada e todas as estrelas em seu cosmos pessoal foram diligentemente pintadas de volta em seu lugar, Clive James por

m teve o seguinte pensamento: Escreverei sobre isso um dia.

E, naquele momento, estava livre.

O fracasso partira; o criador retornara.

Ao fazer outra coisa — e ao fazê-la de todo o coração —, encontrara o caminho de volta do inferno da inércia e em direção à Grande Magia.

 

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