Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 79 de 90

Páginas do PDF

Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Não é seu bebê

 

Quando as pessoas falam de seus trabalhos criativos, muitas vezes referem-se a eles como “meu bebê”, o que é o extremo oposto de encarar as coisas com leveza.

Uma semana antes do lançamento de seu novo romance, uma amiga me disse: “Estou me sentindo como se estivesse pondo meu bebê no ônibus da escola pela primeira vez e tenho medo de que os garotos mais velhos impliquem com ele”. ( Truman Capote descreveu a sensação de maneira ainda mais áspera: “Terminar um livro é como se você levasse seu lho para o quintal e desse um tiro nele”. ) Gente, por favor, não confundam seus trabalhos criativos com crianças humanas, está bem?

Esse tipo de pensamento só traz profundas dores psíquicas. É sério. Porque se você acreditar honestamente que o trabalho é seu bebê, terá sérias di culdades para cortar 30% dele algum dia, e isso é algo que talvez precise fazer. Além disso, se alguém criticar ou corrigir seu bebê, sugerir que talvez seja necessário modi cá-lo completamente, ou tentar comprar ou vender seu bebê no mercado aberto, você não conseguirá lidar com a situação. É possível que não consiga lançar seu trabalho nem compartilhá-lo. A nal, como é que aquele pobre bebezinho indefeso sobreviverá sem você para cuidar dele?

Seu trabalho criativo não é seu bebê; aliás, o mais plausível seria que você fosse considerado o bebê dele. Fui formada por tudo que já escrevi. Cada projeto me amadureceu de uma maneira diferente. Sou a pessoa que sou hoje precisamente graças ao que produzi e ao que minhas produções zeram de mim. A criatividade me criou e me fez adulta, a começar pela minha experiência com “Peregrinos”, que me ensinou como não agir feito um bebê.

Tudo isso é para dizer que, sim, no m consegui espremer por milagre uma versão encurtada de “Peregrinos” na edição de novembro de 1993 da Esquire. Algumas semanas depois, por acaso do destino, Terry McDonell (meu defensor ) acabou de fato deixando seu cargo de editor-chefe da revista. Os contos e artigos que deixou para trás nunca viram a luz do dia. O meu teria

cado entre eles, enterrado em uma cova rasa, caso eu não tivesse concordado

em fazer aqueles cortes.

Felizmente, z os cortes, e por conta deles a história cou interessante e diferente, e consegui minha grande oportunidade. Meu conto atraiu a atenção da agente literária com quem fechei contrato e que vem guiando minha carreira com graça e precisão há mais de vinte anos.

Quando me lembro daquele incidente, estremeço só de pensar no que quase perdi. Se tivesse sido mais orgulhosa, em algum lugar no mundo hoje ( provavelmente no fundo da minha gaveta) haveria um conto chamado “Peregrinos”, de dez páginas, que ninguém teria lido. Continuaria puro e intocado, como um bloco de granito polido, e eu talvez ainda estivesse trabalhando em um bar.

Também acho interessante que, depois que “Peregrinos” foi publicado na Esquire, eu nunca mais tenha pensado muito a respeito dele. Não era a melhor coisa que eu escreveria em toda a vida. Nem de longe. Ainda tinha muito trabalho pela frente e decidi pôr mãos à obra. “Peregrinos” não era uma relíquia sagrada, a nal de contas. Era apenas uma coisa — uma coisa que eu havia feito e amado, depois mudado, refeito e amado ainda assim, então publicado e posto de lado para poder passar a outras coisas.

Graças a Deus, não permiti que aquele conto se tornasse minha ruína. Ter feito de minha escrita algo tão inviolável a ponto de precisar defender sua santidade até a morte teria sido um ato de martírio triste e autodestrutivo. Em vez disso, depositei minha con ança na leveza, na exibilidade, na

malandragem. Por me dispor a encarar o trabalho com leveza, aquele conto tornou-se não uma cova, mas uma porta para uma nova vida; uma vida maravilhosa e muito mais ampla.

Tenha cuidado com sua dignidade, é o que estou tentando dizer.

Ela nem sempre é sua amiga.

 

OceanofPDF.com