Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Pinte seu boi
Durante boa parte da história da humanidade, portanto, a grande maioria das pessoas produziu arte em momentos roubados, usando retalhos de tempo emprestado e, muitas vezes, ainda por cima, com materiais furtados ou descartados. ( Nas maravilhosas palavras do poeta irlandês Patrick Kavanagh: “Está vendo ali Um esplendor criado Por um só indivíduo / A partir de resíduos”. ) Certa vez, encontrei um homem na Índia que não tinha nada de valor além de um boi com dois belos chifres. Para celebrar o boi, o homem havia pintado um dos chifres de rosa-shocking e o outro de azul-turquesa. Depois colou sininhos na ponta de cada chifre, para que, quando o animal balançasse a cabeça, seus chifres coloridos zessem um alegre barulhinho tilintante.
Esse homem trabalhador, que tinha sérias di culdades nanceiras, só possuía um bem de valor, mas o havia enfeitado ao máximo, usando os materiais que conseguira arranjar: um pouco de tinta para parede, um tiquinho de cola e uns sinos. Graças a sua criatividade, agora tinha o boi mais interessante da cidade. Mas para quê? Ora, por que não? Porque um boi decorado é melhor do que um boi não decorado, obviamente! ( Prova disso é que, onze anos depois, o único animal de que me lembro claramente ter visto durante minha visita àquela aldeiazinha indiana é aquele boi magni camente adornado.) Seria esse então o ambiente ideal para se criar — precisando fazer arte a partir de “resíduos” e quando sobra tempo? Provavelmente não. Ou talvez não seja de todo mau. Talvez não importe, pois é assim que as coisas sempre foram feitas. A maioria das pessoas nunca tem tempo, recursos, apoio ou recompensas su cientes... e ainda assim persistem em criar. Persistem porque sua vocação é criar, qualquer que seja o custo.
Dinheiro ajuda, claro. Mas se dinheiro fosse a única coisa necessária para que as pessoas levassem vidas mais criativas, os super-ricos seriam os pensadores mais imaginativos, produtivos e originais entre nós, e esse simplesmente não é o caso. Os ingredientes essenciais para a criatividade continuam sendo exatamente os mesmos para todo mundo: coragem, encantamento, permissão, persistência, con ança. E esses elementos são acessíveis a todos. O que não quer dizer que uma vida criativa seja sempre fácil; apenas que é sempre possível.
Li uma carta de cortar o coração que Herman Melville escreveu a seu grande amigo Nathaniel Hawthorne, reclamando que não conseguia encontrar tempo para trabalhar em seu livro sobre aquela baleia porque “as circunstâncias estão sempre me puxando para um lado ou para outro”. Melville a rma que gostaria de ter um longo período livre para criar (ao qual se refere como “o estado de calma, de imperturbabilidade, do crescer silencioso da grama, em que um homem sempre deveria compor”), mas que esse tipo de luxo simplesmente não lhe é possível. Estava acabado, estressado e não conseguia encontrar tempo para escrever em paz.
Não conheço nenhum artista (bem-sucedido ou não, amador ou pro ssional ) que não gostaria de ter esse tipo de tempo. Não conheço nenhuma alma criativa que não sonhe com dias de calma e tranquilidade durante os quais possa trabalhar sem interrupção enquanto a grama cresce em silêncio. De alguma forma, porém, isso é algo que ninguém parece conseguir alcançar. Ou, se o alcançam (por meio de uma bolsa, por exemplo, da generosidade de um amigo ou de uma residência artística ), o idílio é apenas temporário. Depois a vida sempre volta correndo. Mesmo as pessoas criativas mais bem-sucedidas que conheço reclamam de nunca terem todo o tempo de que precisam para dedicar à exploração criativa onírica e livre de pressões. As demandas da realidade estão constantemente batendo à porta e as perturbando. Talvez em algum outro planeta ou em outra vida esse tipo de ambiente de trabalho paradisíaco de fato exista, mas aqui na Terra ele é bastante raro.
Melville, por exemplo, nunca teve esse tipo de ambiente.
Ainda assim, conseguiu de alguma forma escrever Moby Dick.
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