Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
A caça ao tesouro
Deixe-me dar um exemplo de onde a caça ao tesouro da curiosidade pode levá-lo.
Já contei a história do maior romance que nunca escrevi: aquele livro sobre a selva amazônica que deixei de lado e que nalmente pulou de minha consciência para a de Ann Patchett. Aquele livro era um projeto passional. A ideia me veio em uma onda cerebral de inspiração e entusiasmo físico e emocional. Mas, quando me deixei distrair pelas exigências da vida e parei de trabalhar no livro, ele me deixou.
É assim que costuma acontecer, e foi, de fato, assim que aconteceu.
Depois que aquela ideia foi embora, não tive outra onda cerebral de inspiração e entusiasmo físico e emocional logo de cara. Fiquei esperando que uma grande ideia surgisse e anunciando ao universo que estava pronta para sua chegada, mas nenhuma grande ideia apareceu. Não houve calafrios nem embrulhos no estômago. Não houve milagre nenhum. Foi como quando são Paulo percorreu a cavalo todo o caminho até Damasco e nada aconteceu, exceto talvez o fato de ter chovido um pouco.
Na maioria dos dias, a vida é assim.
Por um tempo ocupei-me de minhas tarefas cotidianas: escrever e-mails, comprar meias, resolver pequenas emergências, enviar cartões de aniversário. Cuidei dos afazeres da vida. O tempo passou e nenhuma ideia arrebatadora veio, mas não entrei em pânico. Em vez disso, z o que já tinha feito tantas vezes antes: desviei a atenção da paixão para a curiosidade.
Perguntei a mim mesma: Existe alguma coisa na qual você esteja interessada neste momento, Liz?
Qualquer coisa?
Mesmo que seja só um pouquinho?
Não importa quão pequena ou trivial.
De fato, existia: jardinagem.
( Eu sei, eu sei... contenham os ânimos! Jardinagem!) Eu tinha me mudado recentemente para uma cidadezinha no interior de Nova Jersey e comprado uma casa antiga com um belo quintal. Agora queria plantar um jardim naquele quintal.
Aquele impulso me surpreendeu. Cresci com um jardim — um jardim enorme, que minha mãe administrava com e ciência —, mas nunca me interessei muito por ele. Como era uma criança preguiçosa, me empenhei muito em não aprender nada sobre jardinagem, apesar de todos os esforços de minha mãe para me ensinar. Nunca fora uma criatura da terra. Não gostava da vida rural quando era criança ( achava as tarefas da fazenda chatas, difíceis e nojentas ) e nunca a procurara depois de adulta. Minha aversão ao trabalho árduo da vida no campo foi exatamente o que me levara a ir morar em Nova York e a viajar pelo mundo — de nitivamente, não queria me tornar fazendeira. Porém, agora, havia me mudado para uma cidade ainda menor do que aquela em que cresci, e decidi que queria um jardim.
Veja bem, não queria desesperadamente um jardim. Não estava preparada para morrer por um jardim nem nada desse tipo. Só achei que seria legal ter um jardim.
Estava curiosa.
Era um impulso pequeno o su ciente para que eu o ignorasse. Ele mal respirava. Contudo, não o ignorei. Em vez disso, segui aquela pista de curiosidade e plantei algumas coisas.
Quando z isso, percebi que entendia mais daquele negócio de jardinagem do que achava que entendia. Aparentemente, tinha aprendido sem querer algumas das coisas que minha mãe me ensinara quando eu era criança, apesar de todos os meus esforços para ignorá-las. Foi grati cante descobrir aquele conhecimento latente. Plantei mais algumas coisas. Recordei mais algumas memórias de infância. Pensei mais em minha mãe, minha avó, minha longa linhagem de mulheres que trabalharam a terra. Foi bom.
Com o decorrer do tempo, fui começando a enxergar meu quintal com outros olhos. O que estava cultivando não se parecia mais com o jardim da minha mãe; tinha cada vez mais a cara do meu jardim. Por exemplo, diferentemente da minha mãe, que era excelente horticultora, eu não estava interessada em cultivar hortaliças. Estava ansiosa mesmo para pôr as mãos nas
ores mais coloridas e chamativas que pudesse encontrar. Além disso, descobri
que não queria apenas cultivar essas plantas; também queria aprender mais sobre elas. Mais especi camente, queria saber de onde vinham.
Aquelas íris que enfeitavam meu quintal, por exemplo — qual era sua origem? Após exatamente um minuto de pesquisa na internet, descobri que minhas íris não eram nativas de Nova Jersey, mas que, na verdade, eram originárias da Síria.
Foi legal descobrir isso.
Comecei a pesquisar mais. Os lilases que cresciam em torno do meu terreno aparentemente descendiam de arbustos similares originários da Turquia. Minhas tulipas também eram de origem turca, embora, graças à interferência holandesa, houvesse grande diferença entre as tulipas selvagens da Turquia e as variedades ornamentais domesticadas que eu tinha em meu jardim. Meu corniso era da região, mas minha forsítia não; vinha do Japão. Minha glicínia também vinha de muito longe. O capitão de um navio inglês a levara da China para a Europa e os colonos britânicos a trouxeram para o Novo Mundo (bem recentemente, na verdade).
Comecei a veri car as origens de cada uma das plantas em meu jardim e a tomar nota de tudo que estava aprendendo. Minha curiosidade foi crescendo. O que me intrigava, percebi, não era tanto o jardim em si, mas a história botânica por trás dele: um conto incrível e pouco conhecido de comércio, aventura e intriga internacional.
Poderia ser um livro, certo?
Talvez?
Continuei seguindo o rastro da curiosidade. Decidi con ar plenamente no meu fascínio. Decidi acreditar que estava interessada em todas essas trivialidades botânicas por uma boa razão. E, dito e feito: portentos e coincidências começaram a aparecer para mim, todos relacionados a esse meu novo interesse em história botânica. Topei com os livros certos, com as pessoas certas, com as oportunidades certas. Por exemplo: o especialista que precisei procurar para me informar melhor sobre a história dos musgos morava — por coincidência — a apenas alguns minutos da casa do meu avô, no interior de Nova York. E um livro de duzentos anos que eu havia herdado de meu bisavô continha a chave que eu estava procurando: um personagem histórico cheio de vida, digno de ser oreado e inserido em um romance.
Estava tudo bem ali na minha frente.
Então comecei a enlouquecer um pouco com aquilo.
Minha busca por mais informações sobre explorações botânicas acabou me levando a uma viagem ao redor do mundo: de meu quintal em Nova Jersey às bibliotecas hortícolas da Inglaterra; das bibliotecas hortícolas da Inglaterra aos jardins toterápicos medievais da Holanda; dos jardins toterápicos medievais da Holanda às cavernas cobertas de musgo da Polinésia Francesa.
Após três anos de pesquisas, viagens e investigações, nalmente me sentei para começar a escrever A assinatura de todas as coisas, um romance sobre uma família ctícia de exploradores botânicos do século XIX.
Era um romance que eu nunca havia planejado escrever. Começou com quase nada. Não me joguei de cabeça naquele livro; fui me aproximando aos poucos, uma pista após outra. Mas, quando nalmente desviei o foco da caça ao tesouro e comecei a escrever, estava completamente apaixonada pela história das explorações botânicas no século XIX. Três anos antes, nem sequer tinha ouvido falar de explorações botânicas do século XIX — tudo o que queria era um jardinzinho em meu quintal. Mas, agora, estava escrevendo uma história enorme sobre plantas, ciência, evolução, abolição, amor, perda e a jornada de uma mulher rumo à transcendência intelectual.
Então funcionou. No entanto, só funcionou porque eu disse sim a todas as pistas de curiosidade que percebi à minha volta.
Isso também é a Grande Magia.
É a Grande Magia em uma escala mais contida, mais lenta, mas não se engane: ainda é a Grande Magia.
Você só precisa aprender a con ar nela.
Tudo se resume ao sim.
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