Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Dedicatória
Este é para você, Rayya
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P: O que é a criatividade?
R: É o relacionamento entre um ser humano e os mistérios da inspiração.
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Coragem
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Tesouro escondido
Era uma vez um homem chamado Jack Gilbert, que, infelizmente, não era meu parente.
Jack Gilbert foi um grande poeta, mas, se você nunca ouviu falar dele, não se preocupe. A culpa não é sua. Ele nunca se importou muito em ser conhecido. Mas eu o conhecia — ainda que não pessoalmente — e nutria por ele um grande afeto, então vou lhe contar um pouco a respeito dele.
Jack Gilbert nasceu em Pittsburgh, em 1925, e cresceu em meio à fumaça, ao barulho e às usinas da cidade. Trabalhou em fábricas e siderúrgicas quando jovem, mas desde cedo demonstrou vocação para escrever poesia. Atendeu ao chamado da vocação sem hesitar. Tomou a poesia da maneira como outros homens tomam o ato de se tornar um monge: como uma prática devocional, um ato de amor e um compromisso vitalício com a busca da graça e da transcendência. Imagino que essa seja uma excelente maneira de se tornar poeta. Ou, para falar a verdade, de se tornar qualquer coisa que inspire seu coração e lhe dê vida.
Jack poderia ter sido famoso, mas essa não era sua praia. Tinha o talento e o carisma para a fama, mas nunca teve o interesse. Sua primeira coletânea de poemas, publicada em 1962, venceu o prestigioso prêmio de Yale para jovens poetas e foi indicada ao Pulitzer. E, como se não bastasse, conquistou ainda público e crítica, tarefa nada fácil para um poeta no mundo moderno. Havia algo nele que atraía as pessoas e as mantinha cativadas. Era bonito, intenso, sexy e brilhante no palco. Um ímã para as mulheres e um ídolo para os homens. Em fotos tiradas para a revista Vogue, aparece lindo e com um ar romântico. As pessoas eram loucas por ele. Poderia ter sido um astro do rock.
Em vez disso, ele desapareceu. Não queria se deixar distrair por toda a comoção. Anos mais tarde, a rmou que achava sua fama entediante — não porque fosse imoral ou pudesse corrompê-lo, mas pelo simples fato de que era exatamente a mesma coisa todos os dias. Buscava algo mais profundo, mais substancioso, mais variado. Então largou tudo. Foi viver na Europa e lá cou por vinte anos. Morou por um tempo na Itália e na Dinamarca, mas passou a maior parte dessas duas décadas na Grécia, em uma cabana no topo de uma montanha. Lá contemplava os mistérios eternos, assistia à mudança das luzes e escrevia seus poemas sem ser incomodado. Teve suas histórias de amor, seus obstáculos, suas vitórias. Foi feliz. Conseguiu se sustentar fazendo trabalhos esporádicos aqui e ali. Precisava de pouco. Deixou que seu nome fosse esquecido.
Após duas décadas, Jack Gilbert ressurgiu e publicou outra coletânea de poemas. Mais uma vez, o mundo literário se apaixonou por ele. Mais uma vez, teve a chance de ser famoso. E, mais uma vez, desapareceu — dessa vez por uma década. Esse padrão sempre se repetia: isolamento seguido pela publicação de algo sublime, seguida por mais isolamento. Era como uma orquídea rara,
orescendo apenas de muitos em muitos anos. Nunca fez o menor esforço para
se promover. ( Em uma das poucas entrevistas que Gilbert deu na vida, perguntaram-lhe como achava que seu distanciamento do mundo editorial tinha afetado sua carreira. Ele riu e disse: “Imagino que tenha sido fatal”. ) A única razão pela qual ouvi falar de Jack Gilbert foi que ele voltou aos Estados Unidos já bem tarde na vida e — por motivos que nunca saberei — aceitou um cargo temporário de professor no departamento de Escrita Criativa da Universidade do Tennessee, em Knoxville. Por acaso, no ano seguinte, 2005, aceitei exatamente o mesmo cargo. ( Pelo campus começou a correr a piada de que aquela era a “cátedra Gilbert”. ) Encontrei os livros de Jack Gilbert em minha sala — a mesma sala que ele havia ocupado. Era quase como se eu ainda pudesse sentir o calor de sua presença no lugar. Li seus poemas e fui arrebatada por seu esplendor e pela maneira como sua poesia me lembrava a de Whitman. ( “Precisamos assumir o risco do júbilo”, escreveu. “Precisamos ter a obstinação de aceitar nossa felicidade em meio às cruéis provações deste mundo.”) Ele e eu tínhamos o mesmo sobrenome, ocupamos o mesmo cargo e a mesma sala, ensinamos muitos dos mesmos alunos e agora eu estava apaixonada por suas palavras; naturalmente, comecei a desenvolver uma profunda curiosidade a respeito dele. Saí perguntando: Quem era Jack Gilbert?
Os alunos me contaram que era o homem mais extraordinário que já haviam conhecido. Parecia não ser deste mundo, disseram. Parecia viver em um estado de constante encantamento, e os incentivava a fazer o mesmo. Não os ensinou exatamente como escrever poesia, disseram, mas por quê: pelo júbilo. Pela felicidade obstinada. Disse a eles que precisavam viver com o máximo de criatividade para se defenderem das cruéis provações deste mundo.
Acima de tudo, porém, pedia aos alunos que fossem corajosos. Sem coragem, nunca conseguiriam concretizar a vasta extensão das próprias capacidades. Sem coragem, nunca conheceriam o mundo de maneira tão rica quanto ele anseia ser conhecido. Sem coragem, suas vidas permaneceriam pequenas — muito menores do que provavelmente queriam que fossem.
Nunca conheci Jack Gilbert pessoalmente e agora ele se foi — faleceu em 2012. Eu poderia ter assumido a missão pessoal de procurá-lo e conhecê-lo em vida, mas nunca quis. (A experiência me ensinou a ser cautelosa quanto a encontrar meus heróis em pessoa; pode ser extremamente decepcionante. ) De qualquer forma, sempre gostei da maneira como ele vivia em minha imaginação, como uma enorme e poderosa presença, construída a partir de seus poemas e das histórias que eu tinha ouvido a respeito dele. Então decidi conhecê-lo somente dessa maneira — por meio da imaginação. E é aí que ele ainda se encontra para mim até hoje: vivo dentro de mim, completamente internalizado, quase como se fosse um produto dos meus sonhos.
Mas nunca vou esquecer o que o verdadeiro Jack Gilbert disse a outra pessoa — uma pessoa de verdade, de carne e osso, uma tímida estudante da Universidade do Tennessee. Essa jovem me contou que, certa tarde, depois da aula de poesia, Jack a chamou à parte. Elogiou seu trabalho, depois perguntou o que ela queria fazer da vida. Hesitante, a aluna admitiu que talvez quisesse ser escritora.
Ele sorriu com in nita compaixão para a menina e perguntou: “Você tem a coragem necessária? Tem coragem de trazer à tona esse trabalho? Os tesouros escondidos dentro de você estão esperando que você diga sim”.
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