Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 28 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

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Remova a caixa de sugestões

Não cresci em uma família de artistas.

Meus parentes sempre trabalharam em atividades mais convencionais, por assim dizer.

Meu avô materno era produtor de laticínios; meu avô paterno, vendedor de fornos. Minhas duas avós eram donas de casa, assim como suas mães, irmãs e tias.

Quanto a meus pais, minha mãe é enfermeira, e meu pai, engenheiro. E embora tenham feito parte da geração hippie, nunca se juntaram ao movimento — nem de longe. Eram conservadores demais para esse tipo de coisa. Meu pai passou a década de 1960 na universidade e na Marinha; minha mãe, na faculdade de enfermagem, trabalhando em um hospital no turno da noite e economizando dinheiro de maneira responsável. Depois de se casarem, meu pai conseguiu emprego em uma empresa química, na qual trabalhou por trinta anos. Mamãe trabalhava em meio expediente, participava ativamente dos eventos promovidos pela igreja local, atuava no conselho escolar, fazia trabalho voluntário na biblioteca e visitava idosos e indivíduos com condições que os impediam de sair de casa.

Eram pessoas responsáveis. Corretas. Pagavam os impostos em dia. Votaram em Reagan (duas vezes!).

Foi com eles que aprendi a ser rebelde.

Porque — para além dessa postura básica de bons cidadãos — meus pais faziam o que bem entendiam de suas vidas e com total despreocupação. Meu pai decidiu que não queria apenas ser engenheiro químico; queria também cultivar árvores de Natal. E foi o que fez, em 1973. Mudou toda a família para uma fazenda, preparou o terreno, plantou algumas mudas e iniciou o projeto. Não largou o emprego xo para seguir seu sonho; apenas incluiu o sonho em sua vida cotidiana. Também queria criar cabras, então comprou algumas e as levou para casa no banco de trás de nosso Ford Pinto. Tinha experiência em criação de cabras? Não, mas achava que poderia se virar. Foi a mesma coisa quando começou a se interessar pela criação de abelhas: simplesmente comprou algumas e começou. Trinta e cinco anos se passaram e ele ainda tem as colmeias.

Quando meu pai se interessava por alguma coisa, corria atrás. Tinha plena fé nas próprias capacidades. E quando precisava de algo (o que era raro, pois suas necessidades materiais são basicamente as de um mendigo) , ele mesmo o produzia, consertava ou de alguma forma remendava — normalmente sem seguir instruções nem pedir conselho a especialistas. Meu pai não tem muito respeito por instruções ou especialistas. Diplomas e títulos o impressionam tanto quanto outras minúcias da vida civilizada, como alvarás de construção e placas de PROIBIDA A ENTRADA. (Para o bem ou para o mal, meu pai me ensinou que o melhor lugar para se montar uma barraca é sempre aquele com a placa de PROIBIDO ACAMPAR . ) Meu pai não gosta mesmo que lhe digam o que fazer. Seu senso de rebeldia individualista é tão forte que às vezes chega a ser cômico. Certa vez, quando servia na Marinha, recebeu do capitão a ordem de fazer uma caixa de sugestões para ser colocada na cantina. Cumprindo seu dever, papai construiu a caixa, pregou-a à parede, depois escreveu a primeira sugestão e a pôs lá dentro: Sugiro que vocês removam a caixa de sugestões.

Em muitos aspectos, meu pai é meio esquisitão, e seus instintos antiautoritários hiperdesenvolvidos às vezes beiram o patológico... mas sempre suspeitei que fosse um sujeito até bem descolado, mesmo na época em que eu era uma criança envergonhada passeando pela cidade em um Ford Pinto cheio de cabras. Sabia que ele estava fazendo o que gostava e seguindo o próprio caminho, e eu sentia intuitivamente que isso fazia dele, por de nição, uma pessoa interessante. Naquela época eu não tinha um termo para isso, mas agora vejo que ele estava praticando algo chamado “vivência criativa”.

Gostei daquilo.

Também tomei nota para quando chegasse a hora de imaginar minha própria vida. Não que eu quisesse fazer as mesmas escolhas que meu pai tinha feito ( não sou fazendeira nem republicana), mas seu exemplo me deu a força e a coragem necessárias para forjar meu caminho do meu jeito. Além disso, assim como meu pai, não gosto que ninguém me diga o que fazer. Embora evite entrar em confrontos diretos, sou extremamente teimosa. E essa teimosia ajuda quando se trata desse negócio de viver criativamente.

Quanto à minha mãe, é uma versão levemente mais civilizada de meu pai. Seu cabelo está sempre bem penteado, sua cozinha, arrumada, seus bons modos e a simpatia típica dos habitantes do Meio-Oeste são impecáveis, mas não a subestime, pois ela tem uma determinação de ferro e inúmeros talentos. Sempre acreditou ser capaz de construir, costurar, cultivar, tricotar, consertar, remendar ou pintar qualquer coisa de que a família precisasse. Cortava nossos cabelos. Assava nosso pão. Cultivava, colhia e conservava os legumes e as verduras que comíamos. Costurava nossas roupas. Fazia o parto dos cabritos. Matava as galinhas e as servia para o jantar. Aplicou sozinha o papel de parede da sala de estar e restaurou nosso piano (que tinha comprado por cinquenta dólares em uma igreja local) . Poupava-nos de visitas ao médico encarregando-se ela mesma de nossos curativos. Sorria para todos e se mostrava sempre muito cooperativa, mas, quando ninguém estava olhando, moldava seu mundo exatamente como queria.

Acho que foi o exemplo de meus pais de como se a rmar de maneira discreta, porém despudorada que me deu a ideia de que poderia me tornar escritora, ou pelo menos poderia tentar. Não me lembro de meus pais terem jamais demonstrado qualquer preocupação a respeito do meu sonho de me tornar escritora. Se tinham alguma, nunca a manifestaram. Mas, honestamente, não creio que se preocupavam. Acho que acreditavam que eu seria sempre capaz de tomar conta de mim, pois foi isso que me ensinaram. (De qualquer forma, a regra básica na minha família é a seguinte: se você cuida do próprio sustento e não está incomodando ninguém, pode fazer o que bem entender da vida. ) Talvez porque não se preocupavam muito comigo, eu também não me preocupasse muito comigo.

Além disso, nunca me ocorreu pedir permissão a uma gura de autoridade para me tornar escritora. Nunca tinha visto ninguém em minha família pedir permissão para fazer nada.

Eles simplesmente faziam.

Então decidi seguir o exemplo: decidi simplesmente fazer.

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