Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 60 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Em defesa das casas tortas

 

Poderia me sentar com você agora mesmo para analisar cada um de meus livros, página por página, e lhe dizer tudo o que há de errado com eles. Seria uma tarde incrivelmente chata tanto para mim quanto para você, mas eu poderia fazê-lo. Poderia lhe mostrar tudo o que escolhi não consertar, mudar ou melhorar e todas as coisas com que preferi não me estressar. Poderia lhe mostrar todos os atalhos que tomei quando não consegui encontrar uma maneira mais elegante de resolver um problema narrativo complexo. Poderia lhe mostrar personagens que matei por não saber o que mais fazer com eles. Poderia lhe mostrar lacunas na lógica e falhas nas pesquisas. Poderia lhe mostrar todo tipo de ta adesiva e remendo que utilizei para impedir que esses projetos caíssem aos pedaços.

No entanto, para economizar tempo, lhe darei apenas um exemplo representativo. Em meu romance mais recente, A assinatura de todas as coisas, há uma personagem lamentavelmente subdesenvolvida. Ela é de uma improbabilidade vergonhosa (a meu ver, pelo menos) e sua presença é pouco mais do que uma conveniência de enredo. No fundo, eu sabia — embora eu mesma a estivesse escrevendo — que não tinha acertado nessa personagem, mas não pude descobrir como melhorá-la, como deveria ter feito. Esperava conseguir me safar. Às vezes conseguimos sair impunes desse tipo de coisa. Esperava que ninguém fosse notar. Contudo, quando entreguei meu livro, ainda em formato de manuscrito, a alguns de meus primeiros leitores, todos apontaram o problema com a personagem.

Pensei em tentar corrigi-lo, mas o trabalho que teria para voltar e consertar aquela única personagem não traria um retorno à altura. Para começar, precisaria acrescentar entre cinquenta e setenta páginas a um manuscrito que já tinha mais de setecentas, e em determinado momento é preciso ter misericórdia dos leitores e fazer cortes. Também senti que seria arriscado demais. Para resolver o problema dessa personagem, teria que desmantelar todo o romance até os capítulos iniciais e começar tudo de novo. Temia que, ao reconstruir a história de maneira tão radical, pudesse acabar destruindo um livro que já estava feito e já era bom o su ciente. Seria como se um marceneiro destruísse uma casa já terminada e a recomeçasse do zero por ter percebido, no

nzinho do projeto de construção, que havia um erro de alguns centímetros

nos alicerces. Certo, no m da segunda construção talvez os alicerces estivessem mais retos, mas o charme da estrutura original poderia ter sido destruído e meses de trabalho teriam sido perdidos.

Decidi então não consertar a personagem.

Em resumo, tinha trabalhado de forma incansável naquele romance durante quatro anos, empenhado uma enorme quantidade de esforço, amor e fé, e, basicamente, gostava dele do jeito que estava. É verdade, tinha cado um pouquinho torto, mas as paredes eram rmes, o teto, seguro, e todas as janelas funcionavam. De qualquer forma, não me importo muito em morar em uma casa torta. ( Cresci em uma casa torta; não são tão ruins assim.) Senti que meu romance era um produto nal interessante — talvez até mais interessante graças a seus ângulos levemente oblíquos —, então deixei para lá.

E sabe o que aconteceu quando expus meu livro reconhecidamente imperfeito ao mundo?

Não muito.

A Terra não saiu do eixo. Os rios não começaram a correr para trás. Os pássaros não caíram mortos no chão. Recebi algumas críticas boas, algumas ruins e algumas indiferentes. Certas pessoas amaram A assinatura de todas as coisas, outras não. Um encanador que veio consertar a pia da cozinha outro dia viu o livro sobre a mesa e comentou: “Posso lhe dizer agora mesmo, dona, que esse livro não vai vender — não com esse título”. Algumas pessoas gostariam que o romance fosse mais curto; outras, que fosse mais longo. Certos leitores queriam que a história tivesse mais cachorros e menos masturbação. Uns poucos críticos observaram aquela personagem mal-desenvolvida, mas ninguém pareceu se incomodar muito com ela.

Em suma: um monte de gente teve algum tipo de opinião sobre o romance por um curto período, depois todo mundo seguiu adiante, porque as pessoas são ocupadas e precisam cuidar das próprias vidas. Porém, tive uma experiência intelectual e emocional eletrizante escrevendo A assinatura de todas as coisas e guardarei comigo os méritos dessa aventura criativa para sempre. Aqueles quatro anos da minha vida foram maravilhosamente bem gastos. Quando terminei o romance, não era perfeito, mas ainda assim senti que era o melhor trabalho que já tinha produzido e que eu era então uma escritora muito melhor do que quando o havia começado. Não trocaria um minuto sequer daquela experiência por nada no mundo.

Mas depois de terminar aquele trabalho era hora de voltar a atenção para algo novo; algo que um dia também estaria bom o su ciente para ser lançado. Foi assim que sempre z e é assim que continuarei fazendo enquanto puder.

Pois esse é o hino da minha gente.

Essa é a Canção do criador meia-boca disciplinado.

 

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