Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 34 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Formação

 

 

Nunca z pós-graduação em escrita criativa. Aliás, nunca z pós-graduação em nada. Formei-me bacharel em ciência política na Universidade de Nova York ( porque tinha que escolher algum curso de graduação) e ainda me sinto privilegiada por ter recebido o que considero uma excelente formação liberal em humanas, à moda antiga.

Embora sempre soubesse que queria ser escritora e apesar de ter cursado algumas cadeiras de escrita criativa na faculdade, optei por não fazer um mestrado na área. Via com descon ança a ideia de que o melhor lugar para encontrar minha voz fosse uma sala com quinze outros jovens escritores tentando encontrar suas vozes.

Além disso, não estava muito segura do que uma pós-graduação em escrita criativa me traria. Um diploma em artes não é como um diploma em odontologia, por exemplo, com o qual você pode estar praticamente certo de que encontrará um trabalho na área após se formar. E embora ache importante que haja um credenciamento o cial para dentistas ( assim como para pilotos de avião, advogados e, aliás, até manicures ), não estou convencida de que o mesmo se aplique a romancistas. A história parece concordar comigo a respeito disso. Doze escritores americanos ganharam o prêmio Nobel de Literatura desde 1901: nenhum deles tinha mestrado em artes. Quatro deles nem sequer foram além do ensino médio.

Hoje em dia, há muitas instituições absurdamente caras onde é possível estudar artes. Algumas são fabulosas; outras, nem tanto. Se quiser seguir esse caminho, vá em frente, mas saiba que é uma troca e certi que-se de que ela realmente lhe traz benefícios. O que a escola recebe com essa troca é óbvio: seu dinheiro. O que o aluno recebe depende da própria dedicação ao aprendizado, da seriedade do curso e da qualidade dos professores. É verdade, esses cursos podem ajudá-lo a ser mais disciplinado, a aprimorar seu estilo e até, quem sabe, a ter mais coragem. Talvez lá você encontre também sua tribo: colegas que poderão vir a lhe oferecer valiosos contatos pro ssionais e apoio no decorrer de sua carreira. Com sorte, quem sabe você possa até encontrar o mentor de seus sonhos na forma de um professor particularmente sensível e dedicado. Porém, o que me preocupa é que, muitas vezes, aquilo que os estudantes de artes buscam em uma formação de nível superior não é nada além de uma prova de sua própria legitimidade — uma prova de que levam a sério o ofício criativo, como atesta o diploma.

Por um lado, entendo perfeitamente essa necessidade de validação; a tentativa de criar é uma busca incerta. Por outro, se você trabalha sozinho todos os dias em suas criações, com disciplina e amor, já está levando a sério o ofício criativo e não precisa pagar ninguém para con rmá-lo.

Se já fez um curso superior em alguma área criativa, não se preocupe! Com sorte, ele terá ajudado a melhorar sua arte, e, mesmo que esse não seja o caso, tenho certeza de que mal não fez. Use as lições que aprendeu na faculdade para aprimorar seu ofício. Se estiver fazendo uma formação em artes atualmente e puder bancá-la sem di culdades, tudo bem também. Se tiver uma bolsa de estudos, melhor ainda. Se tem a sorte de estar onde está, use-a a seu favor. Trabalhe com a nco, aproveite ao máximo as oportunidades e cresça, cresça, cresça. Esse pode ser um belo período de estudo focado e expansão criativa. Contudo, se estiver considerando a possibilidade de fazer algum tipo de curso superior em artes e não estiver nadando em grana, acredite no que estou lhe dizendo: você pode viver sem ele. Pode, sem dúvida, viver sem as dívidas, que são sempre o abatedouro dos sonhos criativos.

Um dos melhores pintores que conheço é professor em uma das faculdades de artes mais renomadas do mundo, mas não possui ele mesmo um diploma de pós-graduação. É um mestre, sim, mas desenvolveu sozinho sua maestria. Tornou-se um grande pintor porque deu um duro danado durante anos para se tornar um grande pintor. Agora ensina outras pessoas em um nível em que ele mesmo nunca foi ensinado. O que nos faz questionar a necessidade do sistema. No entanto, estudantes de todo o mundo se matriculam nessa faculdade e muitos ( aqueles que não vêm de famílias ricas ou que não recebem bolsas de estudo integrais da universidade ) terminam o curso com milhares de dólares em dívidas. Meu amigo se preocupa muito com seus alunos e, portanto, sente um aperto no coração ao vê-los se afundarem em dívidas (ao mesmo tempo que, paradoxalmente, buscam se tornar mais como ele). Também co com o coração apertado.

Quando perguntei a meu amigo por que fazem isso — por que esses alunos hipotecam o futuro em troca de uns poucos anos de estudos criativos —, ele respondeu: “Bem, a verdade é que eles nem sempre param muito para pensar. A maioria dos artistas são pessoas impulsivas que não têm costume de planejar com muita antecedência. Artistas, por natureza, são apostadores. Apostar é um hábito perigoso. Mas sempre que você cria arte, está apostando. Está lançando os dados e torcendo pela chance remota de que o investimento de tempo, energia e recursos que está fazendo agora traga grandes retornos mais tarde — torcendo para que alguém compre seu trabalho e para que você consiga alcançar o sucesso. Muitos de meus alunos estão apostando na possibilidade de que essa formação caríssima valha a pena a longo prazo”.

Entendo perfeitamente. Também sempre fui criativamente impulsiva. São os ossos do ofício da curiosidade e da paixão. Estou sempre fazendo apostas e me arriscando em meu trabalho — ou, pelo menos, tento estar. Mas, se você vai apostar, esteja ciente de que está apostando. Nunca lance os dados sem saber o que está fazendo. E certi que-se de que pode de fato cobrir suas apostas ( tanto emocional quanto nanceiramente ).

O que me preocupa é que muitos pagam os olhos da cara por uma pós-graduação em artes sem se dar conta de que isso não passa de uma aposta, embora talvez lhes pareça que estão fazendo um investimento seguro no futuro. A nal de contas, a faculdade não é o lugar aonde as pessoas vão para aprender uma pro ssão? E uma pro ssão não é algo responsável e digno de respeito? Acontece que as artes não são uma pro ssão, pelo menos não como as pro ssões comuns. No caso da criatividade, não há estabilidade de emprego nem nunca haverá.

Afundar-se em dívidas para se tornar um criador, portanto, pode transformar em estresse e fardo algo que só deveria ser prazeroso e libertador. E, depois de tanto investimento em sua formação, os artistas que não alcançam o sucesso pro ssional imediatamente ( a maioria) podem se sentir fracassados. Esse sentimento de fracasso pode afetar sua autocon ança criativa e talvez até impedi-los completamente de seguir criando. Encontram-se então na terrível posição de ter de lidar não só com o sentimento de vergonha e fracasso, mas também com altas contas mensais que sempre os lembrarão dessa vergonha e desse fracasso.

Quero deixar claro que não sou de modo algum contra o ensino superior. Apenas sou contra dívidas estratosféricas, sobretudo para aqueles que desejam levar uma vida criativa. E nos últimos tempos ( pelo menos nos Estados Unidos ), o conceito de ensino superior tornou-se praticamente sinônimo de dívidas estratosféricas. Ninguém precisa menos de dívidas do que um artista. Então, tente não cair nessa armadilha. E, se já caiu, tente escapar utilizando todos os meios necessários, assim que puder. Liberte-se para poder viver e criar mais livremente, tal como foi concebido pela natureza para fazer.

Cuide-se, é o que estou dizendo.

Cuide-se para proteger seu futuro, mas também sua sanidade mental.

 

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