Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Caminhe de cabeça erguida
Certa vez, vinte anos atrás, eu estava em uma festa conversando com um rapaz cujo nome não recordo ou talvez nunca me tenha sido dito. Às vezes acho que aquele homem entrou na minha vida com a nalidade única de me contar esta história, que desde então me serve de inspiração.
Era uma história sobre seu irmão mais novo, que estava tentando se tornar artista. O rapaz admirava profundamente os esforços do irmão e me contou uma anedota que ilustrava quão corajoso, criativo e con ante o irmão era. Para os ns desta história, chamemos o irmão de “Irmãozinho”.
Irmãozinho, aspirante a pintor, economizou todo seu dinheiro e foi para a França, para se cercar de beleza e inspiração. Gastava pouco em aluguel, pintava todos os dias, visitava museus, viajava para locais pitorescos, não se intimidava em falar com todo mundo que encontrava e mostrava seu trabalho a quem quer que quisesse admirá-lo. Certa tarde, em um café, Irmãozinho começou a conversar com um grupo de jovens elegantes que, como veio a descobrir depois, eram membros da alta aristocracia. Os charmosos jovens aristocratas simpatizaram com Irmãozinho e o convidaram para uma festa naquele m de semana, em um castelo no vale do Loire. Prometeram a Irmãozinho que aquela seria a festa mais fabulosa do ano. Lá estariam os ricos e famosos, além de vários membros da realeza europeia. E o melhor de tudo: seria um baile de máscaras, e ninguém economizaria nas fantasias. Seria imperdível. Prepare sua fantasia, disseram, e junte-se a nós!
Animado, Irmãozinho trabalhou a semana inteira em uma fantasia que, estava certo, seria um arraso. Percorreu Paris em busca de materiais e não poupou nos detalhes nem na audácia de sua criação. No dia da festa, alugou um carro e dirigiu até o castelo, que cava a três horas de Paris. Trocou de roupa no carro e subiu a escadaria do castelo. Disse seu nome ao mordomo, que o encontrou na lista de convidados e o convidou educadamente a entrar. Irmãozinho entrou no salão de festas de cabeça erguida.
Foi quando percebeu imediatamente seu erro.
Era de fato uma festa à fantasia — seus amigos não o haviam enganado —, mas ele tinha perdido um detalhe na tradução: era uma festa à fantasia temática. E o tema era “uma corte medieval”.
E Irmãozinho estava fantasiado de lagosta.
À sua volta, as pessoas mais ricas e lindas da Europa, vestidas com adereços dourados, elaboradas roupas de época e adornadas com magní cas joias de família, esbanjavam elegância enquanto valsavam ao som de uma orquestra primorosa. Irmãozinho, por outro lado, vestia um collant vermelho, meia-calça vermelha, sapatilhas de balé vermelhas e gigantescas garras de espuma vermelha. Sem falar em seu rosto, que também estava pintado de vermelho. Esta é a parte da história em que preciso explicar que Irmãozinho era bem magrelo, tinha mais de um metro e oitenta de altura e, com as longas antenas que levava na cabeça, parecia ainda mais alto. Era também, claro, o único americano no salão.
Ficou parado no topo da escadaria por um momento longo e constrangedor. Quase saiu correndo de vergonha. Correr de vergonha parecia ser a resposta mais digna àquela situação. Mas não correu. De alguma maneira, conseguiu encontrar forças para car. A nal de contas, tinha chegado até ali. Dera um duro danado para fazer aquela fantasia e estava orgulhoso dela. Respirou fundo e caminhou até a pista de dança.
Mais tarde, Irmãozinho contou que, sem a experiência de artista aspirante, não teria tido a coragem e a liberdade para ser tão vulnerável e absurdo. Algo na vida já o havia ensinado a simplesmente dar a cara a tapa. Aquela fantasia era o que ele havia feito, a nal de contas, então era aquilo que estava trazendo para a festa. Era o melhor que tinha. Era tudo o que tinha. Então decidiu con ar em si mesmo, con ar em sua fantasia, con ar nas circunstâncias.
Enquanto atravessava a multidão de aristocratas, um silêncio se abateu sobre a festa. As pessoas pararam de dançar. A orquestra parou de tocar. Os outros convidados se reuniram em torno de Irmãozinho. Finalmente, alguém lhe perguntou de que diabos ele estava fantasiado.
Irmãozinho fez uma longa reverência e anunciou, em tom solene: “Sou a lagosta da corte”.
E todos começaram a rir.
Não um riso zombeteiro, mas sim alegre. Eles o amaram. Amaram sua doçura, sua esquisitice, suas gigantescas garras vermelhas, sua bunda magrela naquela chamativa meia-calça de lycra. Ele era o malandro entre eles e foi a alma da festa. Naquela noite, Irmãozinho acabou até dançando com a rainha da Bélgica.
É assim que se faz, gente.
Nunca criei nada na vida que não me zesse sentir, em determinado ponto, como se fosse aquele cara que acabou de entrar em um baile elegante vestindo uma fantasia de lagosta feita em casa. Mas você precisa entrar naquele salão assim mesmo e de cabeça erguida. Você criou aquilo, então tem o direito de mostrá-lo. Nunca peça desculpas, nunca dê muitas explicações e nunca se envergonhe de sua criação. Você fez o melhor que pôde com o conhecimento e os materiais que tinha e no tempo que lhe foi disponibilizado. Você foi convidado e compareceu; não há nada mais que possa fazer.
Talvez você seja posto para fora, mas talvez não. Na verdade, é provável que não. O salão de festas normalmente é mais acolhedor e solidário do que você imagina. Alguém pode até achar que você é brilhante e incrível. Você pode até acabar dançando com um membro da realeza.
Ou talvez acabe tendo que dançar sozinho no canto do castelo, sacudindo no ar suas enormes e desajeitadas garras de espuma vermelha.
Tudo bem. Às vezes é assim.
O que você absolutamente não deve fazer é dar meia-volta e ir embora. Caso contrário, perderá a festa, e isso seria uma pena, pois — acredite — não chegamos tão longe nem zemos todo esse esforço só para perder a festa no último momento.
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