Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 25 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Preso sob a pedra

 

Acho que a sociedade fez um grande desserviço aos artistas quando começou a dizer que certas pessoas eram gênios em vez de dizer que tinham gênios. Isso ocorreu na época da Renascença, com a ascensão de uma visão de mundo mais racional e humanista. Os deuses e os mistérios foram perdendo espaço e, de repente, passamos a atribuir todo o crédito e toda a culpa da criatividade aos próprios artistas, responsabilizando completamente os frágeis humanos pelos caprichos da inspiração.

Logo, passamos também a venerar a arte e os artistas muito além do que deveríamos. A distinção de “gênio” ( assim como as recompensas e o status com frequência associados a ela ) elevou os criadores a uma espécie de casta sacerdotal — talvez até de deidades menores —, o que, da maneira como vejo, é muita pressão para meros mortais, por mais talentosos que sejam. É então que os artistas começam realmente a pirar, enlouquecidos e esmagados pelo peso e pela estranheza de seus dons.

Acho que, quando o artista carrega o fardo do rótulo de “gênio”, acaba perdendo a capacidade de não se levar muito a sério e de criar livremente. Veja o caso de Harper Lee, por exemplo, que não escreveu nada durante décadas após o sucesso fenomenal de O sol é para todos. Em 1962, quando questionada sobre a possibilidade de escrever outro livro, Lee respondeu: “Tenho medo. Quando se está no topo, só há uma direção possível”.

Como Lee nunca se pronunciou de maneira mais detalhada sobre sua situação, nunca saberemos por que essa autora tão bem-sucedida não escreveu mais dezenas de livros no decorrer da vida. Pergunto-me, contudo, se talvez não tenha cado presa sob a pedra de sua própria reputação. Talvez o fardo da responsabilidade tenha se tornado grande demais e seu talento artístico tenha morrido de medo — ou, pior, talvez tenha sido vítima da autoconcorrência. (Mas, a nal de contas, de que Harper Lee poderia ter medo? Talvez simplesmente de não conseguir se superar. ) Quanto a ter chegado ao topo e a só ter uma direção possível dali em diante, Lee tinha razão, certo? Quer dizer, se você não pode repetir um milagre único — se pode nunca mais chegar ao topo —, então para que ao menos se dar ao trabalho de criar? Bem, essa é uma situação da qual posso falar por experiência própria, pois eu mesma já estive “no topo”, com um livro que cou na lista dos mais vendidos por mais de três anos. Perdi as contas de quantas pessoas me perguntaram durante esses anos: “Como é que você vai superar isso?”. Falavam de minha enorme sorte como se fosse uma maldição, não uma bênção, e especulavam sobre o pavor que eu deveria sentir com a possibilidade de não conseguir alcançar novamente aquele sucesso fenomenal.

Acontece que essa maneira de pensar pressupõe a existência de um “topo” e sugere que alcançar esse topo (e lá car) é o único motivo para criar. Esse raciocínio pressupõe que os mistérios da inspiração operam na mesma escala de valores que nós, uma escala humana limitada de sucesso e fracasso, vitórias e derrotas, comparação e competição, comércio e reputação, unidades vendidas e in uência exercida. Essa lógica pressupõe que é preciso sair sempre vitorioso, não apenas contra nossos pares, mas também contra uma versão anterior de nós mesmos. E o que é mais perigoso: esse modo de pensar pressupõe que, se não podemos ganhar, devemos parar de jogar.

Mas o que tudo isso tem a ver com vocação? Com fazer aquilo que amamos? Com a estranha comunicação entre o humano e o mágico? Com a fé? Com a glória discreta de apenas produzir coisas e compartilhá-las de coração aberto e sem expectativas?

Gostaria que Harper Lee tivesse continuado a escrever. Gostaria que, logo após ter publicado O sol é para todos e ganhado o Pulitzer, ela tivesse produzido em série cinco livros baratos e de leitura fácil: uma aventura romântica, um drama policial, uma história para crianças, um livro de receitas, alguma espécie de narrativa de ação, qualquer coisa. Talvez você pense que eu esteja brincando, mas não estou. Imagine o que ela poderia ter criado, mesmo acidentalmente, com uma abordagem dessas. No mínimo, poderia ter convencido todo mundo a esquecer que um dia fora Harper Lee. Poderia ter se convencido a esquecer que um dia fora Harper Lee, o que teria sido libertador do ponto de vista artístico.

Felizmente, após tantas décadas de silêncio, por m teremos acesso a um pouco mais da voz de Lee. Há pouco tempo, foi descoberto o manuscrito de um romance que ela havia escrito antes de O sol é para todos (em outras palavras, um livro produzido antes de o mundo inteiro estar observando e esperando, cheio de expectativa, para ver o que ela faria em seguida ). Contudo, eu gostaria que alguém tivesse conseguido convencê-la a continuar escrevendo e publicando pelo resto da vida. Teria sido um presente para o mundo. E teria sido um presente para ela também, poder ter continuado trabalhando como escritora, desfrutando dos prazeres e das satisfações desse trabalho (pois, no m das contas, a criatividade é um presente para o criador, não só para o público ).

Gostaria que alguém tivesse dado a Ralph Ellison o mesmo tipo de conselho: escreva qualquer coisa e lance sem car pensando muito a respeito. E também a F. Scott Fitzgerald. E a qualquer outro criador, famoso ou não, que acabou desaparecendo sob a sombra da própria reputação, seja real ou imaginária. Gostaria que alguém lhes tivesse dito que enchessem um monte de páginas com blá-blá-blá e as publicassem. E que se dane o resultado!

Parece sacrilégio até mesmo sugerir isso?

Ótimo!

Só porque a criatividade é mística, não quer dizer que não deva ser desmisti cada — especialmente se isso signi ca libertar os artistas das limitações de seus delírios de grandeza, de seu pânico e de seu ego.

 

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