Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 5 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Para que defender nossas fraquezas?

 

 

Gostaria de esclarecer que a única razão que me permite falar com tanta autoridade sobre o medo é conhecê-lo intimamente. Conheço cada centímetro do medo, da cabeça aos pés. Durante toda a minha vida, fui uma pessoa medrosa. Já nasci apavorada. Não estou exagerando; pergunte a qualquer parente meu e ele con rmará que eu era uma criança excepcionalmente assustada. Minhas memórias mais antigas são de medo, assim como praticamente todas as memórias que vêm depois.

Quando criança, tinha medo não apenas dos perigos legítimos e comumente reconhecidos da infância (do escuro, de estranhos, da parte funda da piscina), mas também de uma longa lista de coisas completamente inócuas ( da neve, de babás perfeitamente inofensivas, de carros, de parquinhos, de escadas, da Vila Sésamo, do telefone, de jogos de tabuleiro, do mercado, de folhas de grama a adas, de absolutamente qualquer situação nova, de qualquer coisa que ousasse se mexer etc. etc. etc.).

Eu era uma criatura sensível e facilmente traumatizável, e me debulhava em lágrimas com qualquer perturbação em meu campo de força. Meu pai, irritado, costumava me chamar de Maria Medrosa. Certo verão, quando eu tinha oito anos, fomos para o litoral de Delaware, e o mar me deixou tão perturbada que tentei convencer meus pais a impedirem todas as pessoas na praia de entrar na água. (Teria me sentido muito mais à vontade se todo mundo tivesse cado em segurança na areia, lendo tranquilamente; era pedir muito? ) Por mim, teria passado todo aquele período de férias — na verdade, toda a minha infância — em lugares fechados, aninhada no colo de minha mãe, com a luz baixa, de preferência com um paninho umedecido na testa.

É horrível dizer isto, mas aí vai: eu provavelmente teria amado ter uma daquelas mães com síndrome de Munchausen por procuração, que se mancomunasse comigo e ngisse que eu estava eternamente doente, fraca e morrendo. Se me tivesse sido dada a chance, teria cooperado plenamente com esse tipo de mãe na criação de uma criança completamente indefesa.

Só que não tive esse tipo de mãe.

Longe disso.

Tive uma mãe que não tolerava nada daquilo. Não tolerava um minuto do meu drama, o que é provavelmente a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Minha mãe cresceu em uma fazenda em Minnesota, lha de imigrantes escandinavos durões, e não estava disposta a criar uma chorona. Não sob a supervisão dela. Minha mãe tinha um plano para acabar com meu medo que era quase cômico de tão simples: sempre me forçava a fazer o que eu mais temia.

Está com medo do mar? Entre lá agora!

Está com medo da neve? Pode pegar a pá!

Não consegue atender o telefone? Você agora está o cialmente encarregada de atender o telefone nesta casa!

Não era uma estratégia so sticada, mas era persistente. Acredite, eu bem que tentava resistir. Chorava, fazia cara feia e fracassava deliberadamente. Recusava-me a progredir. Ficava para trás, me arrastando e tremendo. Fazia quase qualquer coisa para provar que era de fato física e emocionalmente frágil.

Ao que minha mãe respondia: “Não, não é, não”.

Passei anos lutando contra a fé inabalável de minha mãe na minha força e nas minhas capacidades. Então, certo dia, em algum momento da adolescência,

nalmente percebi que aquela batalha que eu estava travando era muito

estranha. Defendendo minha fraqueza? Era naquilo mesmo que eu queria concentrar todos os meus esforços?

É como dizem: “Valorize suas limitações e terá de conservá-las”.

Ora, por que eu iria querer manter minhas limitações?

Na verdade, como acabei me dando conta, não queria.

E também não quero que você mantenha as suas.

 

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