Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 18 de 90

Páginas do PDF

Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Feitiçaria

 

 

Esse deveria ter sido o m da minha história sobre a selva amazônica. Mas não foi.

Mais ou menos na mesma época em que a ideia para o romance fugiu, em 2008, z uma nova amiga, a famosa romancista Ann Patchett. Nós nos conhecemos certa tarde em Nova York, em uma mesa-redonda sobre bibliotecas.

É, isto mesmo: uma mesa-redonda sobre bibliotecas.

Vida de escritor é glamour que não acaba mais.

Ann me deixou imediatamente intrigada, não apenas por eu sempre ter admirado seu trabalho, mas porque sua presença é extraordinária. Tem uma capacidade sobrenatural de se encolher — de se fazer quase invisível — para melhor observar o mundo à sua volta na segurança do anonimato, a m de poder escrever sobre ele sem ser notada. Em outras palavras, seu superpoder é esconder os superpoderes.

Não é de surpreender, portanto, que eu não tenha imediatamente reconhecido Ann como a célebre autora na primeira vez que nos encontramos. Ela parecia tão despretensiosa, minúscula e jovem que achei que fosse a assistente de alguém — talvez até a assistente da assistente de alguém. Quando

nalmente me dei conta de quem era, pensei: Meu Deus! Ela é tão simples!

Mas estava enganada.

Uma hora depois, Patchett subiu à tribuna e deu uma das palestras mais poderosas e fascinantes que já ouvi. Abalou a sala e me abalou também. Foi então que percebi que aquela mulher era, na verdade, bem alta. E forte. E linda. E passional. E brilhante. Era como se ela tivesse tirado sua capa de invisibilidade e uma deusa tivesse surgido.

Fiquei maravilhada. Nunca tinha visto ninguém se transformar daquele jeito de um momento para o outro. E, como não tenho noção de limites, corri até ela após o evento e a agarrei pelo braço, ansiosa para pegar aquela criatura incrível antes que se tornasse invisível novamente.

“Ann”, eu disse, “sei que acabamos de nos conhecer, mas preciso dizer: você é extraordinária e eu te amo!”

Bem, ao contrário de mim, Ann Patchett tem noção de limites. Olhou para mim meio descon ada, como seria de imaginar. Parecia estar decidindo algo a respeito de mim. Por um instante, quei sem saber o que esperar. Mas o que ela fez em seguida foi maravilhoso: tomou meu rosto nas mãos, me deu um beijo e declarou: “E eu também te amo, Liz Gilbert”.

Naquele instante, nasceu uma amizade.

Os termos dessa amizade, contudo, viriam a ser um tanto incomuns. Ann e eu não moramos na mesma região ( estou em Nova Jersey; ela, no Tennessee), então não era como se pudéssemos nos encontrar uma vez por semana para almoçar. Além disso, nenhuma de nós é muito fã de falar pelo telefone. E as redes sociais não eram o melhor lugar para cultivar aquele relacionamento. Decidimos então nos conhecer melhor por meio da arte quase esquecida da epistologra a.

Em uma tradição que continua até hoje, Ann e eu começamos a escrever longas cartas uma à outra todo mês. Cartas de verdade, em papel de verdade, com envelopes, selos e tudo o mais. É uma maneira bastante antiquada de se manter uma amizade, mas somos ambas pessoas bastante antiquadas. Escrevemos sobre nossos casamentos, nossas famílias, amizades e frustrações. Mas, acima de tudo, escrevemos sobre escrever.

E foi assim que — no outono de 2008 — Ann mencionou ao acaso em uma de suas cartas que havia começado a trabalhar em um romance sobre a Floresta Amazônica.

Por razões óbvias, aquilo chamou minha atenção.

Escrevi de volta e perguntei sobre o que, mais especi camente, tratava o romance. Expliquei que também tinha começado a trabalhar em um romance sobre a Floresta Amazônica, mas que o meu me havia escapado porque o negligenciei (algo que eu sabia que ela entenderia). Em sua carta seguinte, Ann respondeu que ainda era cedo demais para saber exatamente sobre o que seria o romance. Era um projeto bem recente. A história estava apenas começando a tomar forma. Ela me manteria informada conforme fosse evoluindo.

Em fevereiro do ano seguinte, Ann e eu nos encontramos pessoalmente pela segunda vez na vida. Nós nos apresentaríamos em um evento em Portland, Oregon. Na manhã da apresentação, tomamos café da manhã juntas no hotel. Ela me contou que estava empenhada na produção do novo livro — já havia escrito mais de cem páginas.

“Certo”, eu disse, “agora você tem que me contar do que trata seu romance amazônico. Estou louca para saber.”

“Você primeiro”, respondeu Ann, “já que seu livro veio antes. Conte sobre o que era o seu romance amazônico — o que escapou.”

Tentei resumir meu ex-romance da maneira mais concisa possível.

“Era a história”, expliquei, “de uma solteirona de meia-idade de Minnesota que há muitos anos nutre uma paixão secreta pelo chefe casado. Ele se envolve em um negócio arriscado na selva amazônica. Quando uma enorme quantidade de dinheiro e uma pessoa desaparecem, minha protagonista é enviada até lá para resolver a situação e sua vida tranquila vira um completo caos. Mas é também uma história de amor.”

Ann cou me encarando do outro lado da mesa por um bom tempo.

Antes de continuar, preciso explicar que — sem dúvida, ao contrário de mim — Ann Patchett é uma verdadeira lady, com modos re nados. Nada nela é vulgar ou grosseiro, o que contribuiu para me deixar ainda mais chocada quando ela nalmente falou: “Você só pode estar de sacanagem com a minha cara.”

“Por quê?”, perguntei. “Sobre o que é seu romance?”

“Meu romance”, respondeu, “é sobre uma solteirona de Minnesota que há muitos anos nutre uma paixão secreta pelo chefe casado. Ele se envolve em um negócio arriscado na selva amazônica. Quando uma enorme quantidade de dinheiro e uma pessoa desaparecem, minha protagonista é enviada até lá para resolver a situação e sua vida tranquila vira um completo caos. Mas é também uma história de amor.”

 

OceanofPDF.com