Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 10 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Encantamento

 

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Surge uma ideia

Agora que já falamos sobre o medo, podemos nalmente falar da magia.

Vou começar lhe contando a coisa mais mágica que já me aconteceu.

É sobre um livro que acabei não escrevendo.

A história começa no início da primavera de 2006. Eu tinha acabado de publicar Comer, rezar, amar e estava tentando descobrir o que fazer depois disso, em termos criativos. Meus instintos me diziam que era hora de voltar a minhas raízes literárias e escrever um livro de cção, algo que não fazia havia anos. Na verdade, fazia tanto tempo que não escrevia um romance que estava com medo de ter esquecido completamente como fazê-lo, de não saber mais falar a linguagem da cção. Mas tinha uma ideia para um romance — uma ideia com a qual estava muito empolgada.

A ideia se baseava em uma história que meu namorado, Felipe, havia me contado certa noite a respeito de algo que aconteceu na década de 1960 em seu país natal, o Brasil. Aparentemente, o governo brasileiro teve a ideia de construir uma rodovia gigantesca que atravessaria a Floresta Amazônica. Isso se deu durante um período de desenvolvimento e modernização desenfreados, e o projeto deve ter parecido incrivelmente inovador. Os brasileiros investiram uma fortuna nesse plano ambicioso, e a comunidade internacional, outros tantos milhões. Uma parte espantosa desse dinheiro imediatamente desapareceu em um buraco negro de corrupção e desorganização, mas por m uma quantidade su ciente de fundos foi parar nos lugares certos e o projeto da rodovia nalmente teve início. Tudo correu bem por alguns meses. Estavam fazendo progresso. Um curto trecho da estrada foi concluído. A oresta estava sendo conquistada.

Foi quando começou a chover.

Ao que parece, nenhum dos encarregados do planejamento do projeto havia compreendido plenamente o que signi ca a estação chuvosa na Amazônia. O canteiro de obras foi imediatamente inundado e tornou-se inabitável. A equipe não teve outra escolha senão ir embora, deixando para trás todos os equipamentos debaixo de metros de água. E quando voltaram após o

m das chuvas, muitos meses depois, descobriram, para seu horror, que a

oresta havia basicamente devorado a estrada. Seus esforços foram obliterados

pela natureza, como se os trabalhadores e a estrada nunca tivessem existido. Não conseguiam nem dizer ao certo onde cava a área na qual tinham trabalhado. E todo o equipamento pesado havia desaparecido. Não tinha sido roubado; fora simplesmente engolido. Segundo me contou Felipe, “escavadeiras com pneus da altura de um homem foram sugadas para dentro da terra e desapareceram para sempre. Sumiu tudo”.

Quando ele me contou essa história — especialmente a parte sobre como a selva engoliu as máquinas —, senti calafrios nos braços e na nuca, certo enjoo e uma leve tontura. Foi como se estivesse me apaixonando, ou como se tivesse acabado de receber uma notícia alarmante, ou estivesse à beira de um precipício, olhando para algo lindo e fascinante, mas ao mesmo tempo perigoso.

Já havia experimentado esses sintomas antes, então soube imediatamente o que estava acontecendo. Uma reação emocional e siológica assim tão intensa não me acontece com grande frequência. Porém é comum o bastante ( e seus sintomas são su cientemente similares àqueles relatados por pessoas espalhadas por todo o mundo e em diferentes períodos da história ) para me fazer acreditar que posso chamá-la pelo devido nome: inspiração.

É assim que nos sentimos quando surge uma ideia.

 

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