Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 17 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

A ideia vai embora

 

Deixe-me explicar.

Não quero dizer que alguém tinha roubado minhas anotações ou que um arquivo de computador crucial havia desaparecido. O que quero dizer é que a essência do romance não estava mais lá. A força senciente que habita todo esforço criativo havia desaparecido — engolida feito as escavadeiras na selva, por assim dizer. Claro, toda a pesquisa que eu tinha feito e tudo o que havia escrito dois anos antes ainda estavam lá, mas soube imediatamente que aquilo não passava da casca vazia do que antes fora uma entidade viva e vibrante.

Sou bem teimosa quando se trata de terminar meus projetos, então quei cutucando a coisa por vários meses, tentando fazer com que voltasse a funcionar, esperando reavivá-la. Mas foi inútil. Não tinha nada ali. Era como cutucar uma pele de cobra descartada: quanto mais eu mexia, mais rápido ela se desfazia e virava pó.

Eu achava que sabia o que havia acontecido, pois já vira esse tipo de coisa antes: a ideia tinha cansado de esperar e me abandonara. Não pude culpá-la. A nal de contas, eu havia rompido nosso contrato. Tinha prometido me dedicar completamente a Evelyn of the Amazon e quebrara minha promessa. Fiquei mais de dois anos sem dar nenhuma atenção ao livro. O que mais a ideia poderia fazer? Ficar esperando para sempre enquanto eu a ignorava? Talvez. Às vezes elas esperam. Algumas ideias extremamente pacientes chegam a esperar durante anos, ou mesmo décadas, até conseguirem nossa atenção. Mas outras não, porque cada ideia tem uma natureza diferente. Você caria esperando em uma caixa por dois anos enquanto seu colaborador lhe dava o cano? Provavelmente, não.

Portanto, a ideia negligenciada fez o que muitas entidades vivas que se dão ao respeito fariam na mesma situação: se mandou.

Nada mais justo, certo?

Pois este é o outro lado do contrato com a criatividade: se a inspiração pode entrar em você inesperadamente, pode sair da mesma forma.

Se eu fosse mais jovem, a perda de Evelyn of the Amazon poderia ter me deixado bastante abalada, mas àquela altura da vida eu já estava no jogo da imaginação havia tempo su ciente para me desapegar sem grande esforço. Poderia ter chorado a perda, mas não o z, porque entendia e tinha aceitado os termos do contrato. Sabia que o melhor a fazer numa situação dessas seria deixar a ideia antiga partir e tentar pegar a próxima que aparecesse. E a melhor forma de conseguir isso é seguir em frente com rapidez, humildade e graça. Não entre em pânico por causa da ideia perdida. Não que se culpando. Não pragueje contra os deuses. Tudo isso não passa de distração, e a última coisa de que você precisa é de mais distrações. Se tiver que passar por um período de luto, seja e ciente. É melhor dizer adeus com dignidade à ideia perdida e seguir adiante. Encontre outra coisa na qual possa trabalhar — qualquer coisa, imediatamente — e ponha mãos à obra. Mantenha-se ocupado.

Acima de tudo, esteja pronto. Fique de olhos e ouvidos abertos. Siga sua curiosidade. Pergunte. Bisbilhote. Mantenha-se aberto. Acredite nesta verdade milagrosa: todo dia há novas e maravilhosas ideias à procura de colaboradores humanos. Ideias de todos os tipos estão sempre galopando em nossa direção, sempre passando por nós, sempre tentando chamar nossa atenção.

Mostre a elas que você está disponível.

E, pelo amor de Deus, tente não perder a próxima.

 

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