Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 52 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Seu emprego fixo

 

 

Durante todo o tempo em que quei praticando para me tornar escritora, sempre tive um emprego xo.

Mesmo depois de publicar alguns trabalhos, por via das dúvidas, não larguei meu emprego xo. Na verdade, não larguei meu emprego (ou, para ser mais exata, meus empregos) nem depois de já ter escrito três livros — todos eles publicados por grandes editoras e com boas resenhas no New York Times. Um deles foi até indicado ao National Book Award. Para quem olhasse de fora, talvez pudesse parecer que eu já estava com a vida ganha. Mas não me arriscaria, então mantive meu emprego xo.

Só depois de ter publicado meu quarto livro (ou seja, só depois do sucesso aberrante de Comer, rezar, amar ) nalmente me permiti largar todos os outros trabalhos e passar a me dedicar exclusivamente a escrever livros.

Agarrei-me a essas outras fontes de renda por tanto tempo porque não queria que a responsabilidade de me sustentar se tornasse um fardo para minha escrita. Sabia que não seria uma boa ideia exigir isso dela, pois no decorrer dos anos vi muita gente assassinar a criatividade ao querer que a arte pagasse suas contas. Vi artistas enlouquecerem e acabarem sem um tostão por essa insistência em que só poderiam ser considerados verdadeiros criadores se conseguissem viver exclusivamente de sua criatividade. E quando a criatividade lhes falha ( ou seja, quando não paga as contas), cam ressentidos, têm crises de ansiedade ou até mesmo vão à falência. E o pior de tudo: muitas vezes deixam completamente de criar.

Sempre considerei uma enorme crueldade exigir um contracheque mensal de seu trabalho criativo, como se a criatividade fosse um emprego público ou um fundo duciário. Olhe, se você conseguir viver confortavelmente de sua inspiração para sempre, fantástico! Esse é o sonho de todo mundo, certo? Mas não deixe que o sonho se torne um pesadelo. Responsabilidades nanceiras podem exercer uma enorme pressão sobre as sutilezas e os caprichos da inspiração. Você precisa lidar com seu sustento de maneira inteligente. Alegar que é criativo demais para pensar em questões nanceiras é ser infantil. E, por favor, eu lhe imploro: não se infantilize, pois isso é degradante para a alma. (Em outras palavras, embora certa inocência infantil seja algo positivo na busca da criatividade, a criancice é perigosa. ) Outras fantasias infantilizadoras incluem: o sonho de se casar por dinheiro, de herdar dinheiro, de ganhar na loteria ou de encontrar um cônjuge provedor (seja homem ou mulher) que cuide de todos os aspectos mundanos de sua vida para que você possa car livre para comungar com a inspiração pelo resto de seus dias em um casulo sossegado, totalmente protegido dos inconvenientes da realidade.

Fala sério.

Isto é um mundo, não um útero. Você pode cuidar de si mesmo e da sua criatividade ao mesmo tempo, como muitas pessoas vêm fazendo há séculos. E mais: cuidar de si mesmo traz um profundo sentimento de honra, e essa honra tem grandes repercussões sobre seu trabalho; ela o torna mais forte.

Além disso, talvez haja períodos em que você consiga viver de sua arte e outros em que não consiga. Isso não precisa ser encarado como uma crise; é mais do que natural em meio às constantes mudanças e incertezas da vida criativa. Ou talvez você tenha assumido um grande risco para poder seguir um sonho criativo e não tenha tido o retorno esperado, então agora precisa trabalhar para o establishment por um tempo para economizar dinheiro até chegar a hora de correr atrás de seu próximo sonho. Tudo bem. Faça o que for preciso. Mas gritar com a criatividade, dizendo “Você precisa ganhar dinheiro para me sustentar!”, é quase como gritar com um gato. A criatividade não tem a menor ideia do que você está dizendo. Tudo o que você está fazendo é espantá-la com toda a barulheira e as caretas estranhas que faz enquanto grita.

Continuei trabalhando em meus empregos xos por tanto tempo porque queria manter minha criatividade livre e segura. Tinha fontes de renda alternativas para que, quando minha inspiração não estivesse uindo, eu pudesse tranquilizá-la, dizendo: “Não se preocupe, amiga. Não tenho pressa. Quando você estiver pronta, estarei aqui”. Sempre estive disposta a dar duro para que minha criatividade pudesse correr solta. Ao fazer isso, me tornei meu próprio patrão; meu próprio cônjuge provedor.

Nem sei quantas vezes tive vontade de dizer a artistas estressados e quebrados nanceiramente: “Cara, deixe de ser orgulhoso e arranje um emprego!”.

Não há vergonha nenhuma em ter um emprego. Vergonha é espantar a criatividade exigindo que ela o sustente. É por isso que, sempre que alguém me diz que está largando um emprego xo para escrever um romance, minhas mãos começam a suar um pouco. E quando um conhecido me diz que planeja sair do vermelho vendendo seu primeiro roteiro, a primeira coisa que me vem à cabeça é: Iiihh.

Sim, escreva seu romance! Tente vender o roteiro! Espero de todo o coração que a sorte bata à sua porta e o cubra de sucesso. Mas não conte com o retorno, eu lhe imploro, pois ele é raríssimo. Além disso, é bem possível que você acabe de vez com sua criatividade se lhe impuser um ultimato assim tão duro.

Você pode muito bem fazer sua arte e continuar trabalhando no seu ganha-pão. Foi o que z enquanto escrevia três livros. E se não fosse pelo sucesso insano de Comer, rezar, amar ainda estaria fazendo a mesma coisa agora. Era o que Toni Morrison fazia quando acordava às cinco da manhã para trabalhar em seus romances antes de pegar no batente no mundo editorial, onde tinha seu emprego xo. Era também o que J. K. Rowling fazia quando era uma mãe solteira em di culdades nanceiras, lutando para sustentar a família e ao mesmo tempo escrever. Era o que minha amiga Ann Patchett fazia quando trabalhava como garçonete no TGI Fridays e escrevia nas horas vagas. É o que faz um casal de conhecidos meus — ambos ilustradores, ambos com empregos em tempo integral — que acorda toda manhã uma hora antes dos lhos e se senta para desenhar no ambiente tranquilo de seu pequeno estúdio.

Essas pessoas não fazem esse tipo de coisa porque têm tempo e energia de sobra, mas porque consideram a criatividade tão importante que estão dispostas a fazer todo tipo de sacrifícios por ela.

Com exceção dos membros da alta aristocracia, isso é o que todo mundo faz.

 

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