Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 63 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Conversa de alce

 

Vou lhe contar uma história sobre persistência e paciência.

Quando tinha meus vinte e poucos anos, escrevi um conto chamado “Conversa de alce”. A história nasceu de uma experiência que tive quando estava trabalhando como cozinheira em um rancho no Wyoming. Certa noite, tinha cado acordada até tarde, contando piadas e bebendo cerveja com alguns dos vaqueiros. Todos eles eram caçadores, e começamos a falar sobre os chamados dos alces: as diversas técnicas para imitar o chamado de acasalamento e atrair os animais. Um dos vaqueiros, Hank, confessou ter comprado recentemente uma ta com a gravação de chamados de alces feita pelo maior especialista no assunto em toda a história da caça aos alces, um sujeito chamado (nunca me esquecerei do nome) Larry D. Jones.

Por algum motivo — talvez graças à cerveja —, achei que aquilo era a coisa mais engraçada que já tinha escutado na vida. Fiquei encantada com a ideia de que havia alguém no mundo chamado Larry D. Jones que ganhava a vida gravando imitações de chamados de acasalamento de alces e pessoas, como meu amigo Hank, que compravam essas gravações para praticar os próprios chamados. Convenci Hank a ir buscar a ta e tocá-la para mim repetidas vezes, enquanto eu ria até car tonta. Não era apenas o som do chamado do alce que me parecia hilário (um guincho estridente, como o barulho de dois pedaços de isopor esfregados um contra o outro) ; também adorei a voz fanhosa e séria de Larry D. Jones dando longas e monótonas explicações sobre como reproduzir corretamente o chamado. Para mim, tudo aquilo era pura comédia.

Então, por algum motivo (mais uma vez, é provável que a cerveja tenha ajudado ), decidi que Hank e eu deveríamos nos embrenhar na mata no meio da noite com um toca- tas e a gravação de Larry D. Jones só para ver o que aconteceria. E foi o que zemos. Bêbados, cambaleantes e barulhentos, fomos percorrendo aos trancos as montanhas do Wyoming. Hank carregava o toca-

tas no ombro, com o volume no máximo, e eu tropeçava de tanto rir do som alto e arti cial de um alce no cio — intercalado com a voz monótona de Larry D. Jones — que ecoava à nossa volta.

Não poderíamos estar menos em sintonia com a natureza do que naquele momento, mas a natureza nos encontrou assim mesmo. De repente, ouvimos um estrondo de cascos (nunca tinha ouvido aquilo antes; é apavorante), o barulho de galhos caindo, e, então, o maior alce já visto irrompeu na clareira onde estávamos e cou lá, sob a luz da lua, a poucos metros de nós, bufando, dando patadas no chão e sacudindo furiosamente os chifres, como quem diz: Que macho rival ousa soar um chamado de acasalamento no meu território?

Larry D. Jones já não parecia tão engraçado.

Ninguém nunca cou sóbrio com tanta rapidez quanto eu e Hank naquele momento. Estávamos brincando, mas aquela fera de mais de trezentos quilos decididamente não estava para brincadeiras. Estava pronta para a guerra. Era como se estivéssemos realizando uma inofensiva sessão espírita e, sem querer, tivéssemos invocado um espírito perigoso de verdade. Estávamos brincando com forças com as quais não se deve brincar, e não éramos dignos.

Meu impulso foi de me curvar, tremendo, diante do alce e implorar misericórdia. Hank foi mais esperto: arremessou o toca- tas o mais longe que pôde, como se o aparelho estivesse prestes a detonar ( qualquer coisa para nos distanciar do falso chamado que tínhamos arrastado para dentro daquela

oresta bem real) . Nós nos encolhemos atrás de um pedregulho, pasmos de

admiração perante o alce, que soltava nuvens de baforadas geladas, procurando furiosamente seu rival e destruindo a terra sob seus cascos. O temor que nos causou aquela criatura magní ca foi exatamente o mesmo que esperaríamos sentir ao contemplar o rosto de Deus.

Quando o alce nalmente partiu, caminhamos lentamente em direção ao rancho, nos sentindo minúsculos, abalados e demasiadamente mortais. Foi assombroso.

Então decidi escrever sobre aquilo. Não contei exatamente essa mesma história, mas queria captar aquela sensação (“humanos imaturos recebendo uma lição de humildade graças a uma aparição natural divina”) e usá-la como base para escrever algo sério e intenso sobre o homem e a natureza. Queria pegar aquela eletrizante experiência pessoal e transformá-la em um conto usando personagens ctícios. Levei muitos meses para acertar na história — ou pelo menos para chegar o mais perto de acertar quanto me permitiam minha idade e minhas capacidades. Quando terminei de escrever o conto, intitulei-o “Conversa de alce” e comecei a enviá-lo a revistas, na esperança de que alguém o publicasse.

Uma das publicações para as quais enviei “Conversa de alce” foi a grande e falecida Story, uma revista de cção. Muitos de meus heróis literários — Cheever, Caldwell, Salinger, Heller — tinham aparecido em suas páginas, e eu também queria fazer parte desse grupo. Algumas semanas depois, o correio entregou a inevitável carta de recusa. Mas aquela foi uma carta de recusa muito especial.

É preciso entender que esse tipo de carta contém diferentes graus de recusa, que cobrem todo o espectro da palavra não. A carta de recusa com um texto padrão não é a única que existe; há também aquela contendo não só o texto padrão, mas também uma minúscula nota pessoal no m, escrita à mão por uma pessoa de verdade, dizendo algo como Interessante, mas não é para nós! Até essas migalhas de reconhecimento podem ser revigorantes, e, quando eu era mais jovem, toda vez que algo assim acontecia, tinha o hábito de sair me gabando com os amigos, dizendo: “Acabei de receber uma carta de recusa incrível”.

Mas essa carta de recusa especí ca era da própria editora-chefe da Story, a respeitadíssima Lois Rosenthal. Sua resposta foi atenciosa e encorajadora. Ela escreveu que tinha gostado da história. Em geral, gostava mais de histórias sobre animais do que de histórias sobre pessoas. No entanto, achava que o nal tinha deixado a desejar e, portanto, não publicaria o conto. Mas me desejou boa sorte.

Para uma autora não publicada, ser rejeitada assim, de maneira tão gentil — e pela própria editora-chefe! —, é quase como vencer o prêmio Pulitzer. Fiquei eufórica. Era, de longe, a rejeição mais fantástica que já tinha recebido. Então z o que costumava fazer naquela época: enviei o conto para mais uma revista para receber mais uma carta de recusa, talvez até melhor do que aquela. Porque é assim que se joga. Sempre seguindo em frente, nunca recuando.

Alguns anos se passaram. Continuei trabalhando em meus empregos xos e escrevendo nas horas vagas. Finalmente consegui ser publicada, com um conto diferente e em outra revista. Graças a essa oportunidade, pude contratar uma agente literária pro ssional. Agora era minha agente, Sarah, quem enviava meus trabalhos para as editoras em meu nome. ( Meus dias de car tirando fotocópias estavam acabados; Sarah tinha a própria copiadora!) Alguns meses depois de termos começado a trabalhar juntas, ela me telefonou para dar uma excelente notícia: “Conversa de alce” seria publicado.

“Que ótimo”, eu disse. “Quem comprou?”

“A Story”, respondeu Sarah. “Lois Rosenthal amou o conto.”

Hum.

Interessante.

Alguns dias depois, conversei por telefone com a própria Lois, que foi muito simpática. Ela me disse que tinha achado “Conversa de alce” perfeito e que mal podia esperar para publicá-lo.

“Você gostou até do nal?”, perguntei.

“Claro!”, ela disse. “Adorei o nal.”

Enquanto conversávamos, eu segurava nas mãos a carta de recusa que Lois me enviara alguns anos antes para o mesmo conto. Estava claro que ela não se lembrava de já ter lido “Conversa de alce” antes. Não toquei no assunto. Estava exultante por ela ter decidido publicar meu trabalho e não queria parecer desrespeitosa, desdenhosa ou ingrata. Mas, sem dúvida, estava curiosa, então perguntei: “Do que você gostou no meu conto, se não se importa de me dizer?”.

“É tão evocativo”, disse ela. “Tem uma atmosfera mística. Ele me lembra alguma coisa, mas não consigo determinar exatamente o quê...”

Achei melhor não dizer: “Lembra ele mesmo”.

 

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