Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo
Felicidade obstinada
A única coisa que posso dizer ao certo é que toda a minha vida foi moldada pela decisão que tomei muito cedo de rejeitar o culto do martírio artístico e depositar minha con ança na ideia louca de que meu trabalho me ama tanto quanto eu o amo, de que quer se divertir comigo tanto quanto quero me divertir com ele, e de que essa fonte de amor e diversão é ilimitada.
Escolhi acreditar que havia um desejo de ser criativa codi cado em meu DNA por razões que nunca conhecerei e que a criatividade não me abandonará, a não ser que eu a afaste à força ou a mate por envenenamento. Cada molécula do meu ser sempre me impulsionou na direção desta área de atuação: a da linguagem, da narrativa, da pesquisa. Concluí que se o destino não quisesse que eu fosse escritora, não deveria ter feito de mim uma escritora. Mas fez, e decidi ir ao encontro desse destino com o máximo de ânimo e o mínimo de drama possível, pois a maneira como escolho me comportar como escritora só cabe a mim. Posso fazer de minha criatividade um campo de extermínio ou um interessante gabinete de curiosidades.
Posso fazer dela até um ato de oração.
Minha escolha, então, é basicamente sempre encarar meu trabalho com uma atitude de felicidade obstinada.
Trabalhei durante anos com felicidade obstinada antes de ter meus trabalhos publicados. Trabalhei com felicidade obstinada quando ainda era uma autora desconhecida, cujo primeiro livro só vendeu um punhado de cópias — a maioria para meus próprios familiares. Trabalhei com felicidade obstinada quando estava vivendo o sucesso de um gigantesco best-seller. Trabalhei com felicidade obstinada quando não estava mais vivendo o sucesso de um gigantesco best-seller e meus livros seguintes não venderam milhões de cópias. Trabalhei com felicidade obstinada quando os críticos me elogiaram e quando me ridicularizaram. Continuo me atendo à felicidade obstinada quando meu trabalho vai mal e também quando vai bem.
Escolho nunca acreditar que estou completamente abandonada na selva criativa ou que tenho razões para entrar em pânico a respeito de minha escrita. Escolho con ar em que a inspiração está sempre por perto, durante todo o tempo em que estou trabalhando, dando o máximo de si para me ajudar. O negócio é que a inspiração vem de outro mundo, entende? Ela fala uma língua totalmente diferente da minha, então às vezes temos di culdade em nos entender. Mas a inspiração ainda está sentada bem a meu lado e está tentando. Ela se esforça para me enviar mensagens de todas as formas que pode: por meio de sonhos, portentos, dicas, coincidências, déjà-vu, do destino, de surpreendentes ondas de atração e reação, dos calafrios que percorrem meus braços e minha nuca, do prazer de algo novo e surpreendente, de ideias teimosas que me mantêm acordada a noite toda... do que quer que funcione.
A inspiração está sempre tentando trabalhar comigo.
Então me sento e trabalho também.
Esse é nosso acordo.
Eu con o nela; ela con a em mim.
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