Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Elizabeth Gilbert · Capítulo 69 de 90

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Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo

Um conto admonitório

 

Uma das novas romancistas mais interessantes que conheço é uma jovem talentosa chamada Katie Arnold-Ratli . Ela escreve como poucos, mas me contou que teve um bloqueio criativo durante vários anos em decorrência de algo que um professor de redação lhe disse: “A menos que você sinta um desconforto emocional enquanto estiver escrevendo, nunca produzirá nada de valor”.

Entendo em parte o que o professor de Katie podia estar tentando dizer. Talvez a mensagem que pretendesse passar fosse algo como: “Não tenha medo de sair da zona de conforto para extrapolar seus limites criativos”, ou “Nunca recue diante do desconforto que às vezes pode surgir durante seu trabalho”. Acho que são noções perfeitamente legítimas. Contudo, sugerir que ninguém jamais produziu arte de valor a menos que estivesse passando por sérios transtornos emocionais não só é mentira como é também um tanto quanto doentio.

Mas Katie acreditou.

Em respeito e deferência ao professor, Katie levou aquelas palavras a sério e passou a aceitar a ideia de que se o processo criativo não a deixava angustiada era porque estava fazendo alguma coisa errada.

Sem sangue não há glória, certo?

O problema era que Katie tinha uma ideia para um romance com a qual estava empolgada. O livro que queria escrever parecia tão interessante, tão louco e tão estranho, que ela achou que provavelmente seria divertido escrevê-lo. Na verdade, parecia tão divertido, que fez com que se sentisse culpada. A nal, algo que lhe trouxesse prazer ao escrever não poderia ter nenhum valor artístico, certo?

Então adiou o projeto daquele romance louco e divertido por anos e anos, pois não con ava na legitimidade do prazer que antecipara sentir ao escrevê-lo. Finalmente, co feliz em dizer, Katie conseguiu superar esse obstáculo mental e escrever o livro. E não, não foi necessariamente fácil escrevê-lo, mas, de fato, se divertiu muito ao fazê-lo. E, sim, é brilhante.

É uma pena, porém, que tenha perdido todos aqueles anos de inspiração criativa simplesmente porque não acreditava que seu trabalho a deixava infeliz o su ciente.

Aham.

Deus nos livre de que alguém possa um dia sentir prazer com a vocação que escolheu.

 

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